Os Ursos-Polares Estão Realmente a Passar Fome Devido ao Aquecimento Global

Novos dados científicos trazem mais evidências sobre a controvérsia recente acerca do impacto que o derretimento do gelo marinho tem nestes grandes carnívoros.

Thursday, February 8, 2018,
Por Stephen Leahy
O Derretimento do Gelo Marinho Dificulta a Busca de Alimento dos Ursos Polares
O Derretimento do Gelo Marinho Dificulta a Busca de Alimento dos Ursos Polares
Os ursos polares estão a gastar 60% mais energia do que o normal para caçar focas. Alguns estão até a usar mais energia do que a que consomem. Quatro em nove ursos de um estudo perderam 10% da sua massa corporal num período de 8 a 11 dias. Os ursos precisam de gelo marinho para caçar focas, que compõem mais de 95% da sua dieta. Mas o gelo marinho está a diminuir 14% por década devido ao aquecimento global. Isto significa que os ursos têm de se deslocar cada vez mais para encontrar focas. Investigadores colocaram câmaras POV nos ursos para os puderem seguir na sua busca por alimento. À medida que o gelo marinho se vai desfragmentando, aumentará a proporção de gasto de energia dos ursos em relação ao consumo.

Milhões de pessoas viram o vídeo desolador de um urso-polar às portas da morte, com o pelo branco pendurado na sua estrutura ossuda e magra. Filmado por Paul Nicklen e Cristina Mittermeier, do grupo sem fins lucrativos Sea Legacy, e publicado pela National Geographic no início de dezembro, o vídeo suscitou um debate aceso sobre o conhecimento que os cientistas têm, e sobre o que não têm, acerca do impacto do aquecimento global nos ursos-polares. Sem analisar o urso do vídeo — que se pensa ter morrido — é impossível saber de certeza o que afetou aquele animal em específico, mas os cientistas acabam de publicar novas descobertas que lançam mais luz sobre o risco existente para as espécies em geral.

Devido ao derretimento do gelo marinho, é provável que, em breve, haja mais ursos-polares a passarem fome, adverte um novo estudo, segundo o qual os grandes carnívoros precisam de comer 60 por cento mais do que se julgava. Afinal, são animais que gastam muita energia — chegam a queimar 12 325 calorias por dia —, apesar de estarem sentados na maior parte do tempo, de acordo com uma análise metabólica única de ursos selvagens publicada na passada quinta-feira na revista Science.

"O nosso estudo mostra a absoluta dependência de focas dos ursos-polares", afirmou o autor principal Anthony Pagano, biólogo de vida selvagem do Serviço Geológico dos Estados Unidos (U.S. Geological Survey — USGS).

Os ursos-polares dependem quase exclusivamente de uma dieta de focas, rica em calorias. Para minimizar o seu consumo de energia, os ursos praticam caça de espera, permanecendo várias horas na expetativa no gelo marinho junto aos buracos em forma de cone que as focas usam para respirar. Quando uma foca vem à superfície para respirar, o urso apoia-se nas patas posteriores e dá-lhe uma pancada na cabeça com as patas anteriores, deixando-a sem sentidos. De seguida, morde-lhe o pescoço e arrasta-a para cima do gelo.

"Têm mais sucesso com este do que com qualquer outro método de caça", assevera Pagano. É por isso que o derretimento do gelo do Oceano Ártico ameaça a sobrevivência dos ursos-polares.

Veja na galeria uma seleção de fotografias impressionantes de ursos-polares

O DESAPARECIMENTO DO GELO LEVA A URSOS MAIS FAMINTOS

As alterações climáticas estão a aquecer o Ártico mais rapidamente do que qualquer outro local, e o gelo marinho está a diminuir 14 por cento por década. Ainda mesmo no dia de hoje, a meio do gélido inverno do Ártico, os satélites mostram que há uma área de gelo cerca de 1 240 000 quilómetros menor do que a registada na mediana de 1981 a 2010 (uma área mais extensa do que a resultaria da combinação de Alasca e Califórnia). No final da primavera, o gelo começa a quebrar mais cedo e, no outono, a formar-se mais tarde, o que obriga os ursos a gastarem enormes quantidades de energia para caminharem ou nadarem longas distâncias e chegarem aos locais com o gelo que resta. Em alternativa, ficam mais tempo em terra, e passam o verão e, cada vez mais, o outono em jejum, sustentados na gordura assimilada das focas que apanham na primavera.

O estudo de Pagano consistiu na captura de nove ursos fêmea no Mar de Beaufort ao largo do Alasca em abril último, altura do ano em que costuma haver um grande número de focas disponível. Os investigadores instalaram colares com GPS e câmaras nestes ursos de forma a gravarem vídeos a partir do ponto de vista de cada um dos animais. Além disso, recolheram amostras de sangue e de urina. Oito a 11 dias depois, todos os ursos foram recapturados. Um urso tinha percorrido 250 quilómetros até àquela altura. Foram recolhidas novas amostras de sangue e urina e procedeu-se ao download do vídeo e de outros dados.

Os dados mostravam que os ursos se mantinham ativos cerca de 35 por cento do tempo e descansavam no tempo restante. No entanto queimavam 12 325 calorias por dia, grande parte das quais das reservas corporais. Trata-se de cerca de 60 por cento mais do que estudos anteriores indicavam. Os vídeos revelavam que quatro das fêmeas não tinham sido capazes de apanhar uma única foca. As medições efetuadas mostravam que estes animais tinham perdido 10 por cento ou mais da respetiva massa corporal.

Um urso perdeu quase 20 kg, incluindo massa muscular magra, em 10 dias. Este urso chegou a atirar-se ao mar numa tentativa falhada de apanhar uma foca que passava por perto. "Devia estar desesperada", conjeturou Pagano.

"É um estudo muito sólido", considera Steven Amstrup, investigador principal da Polar Bears International, uma organização centrada na conservação, que não esteve envolvido no estudo. "Mostra que os ursos-polares são mais parecidos com os grandes felinos — leões e tigres: predadores carnívoros com metabolismos que requerem muita energia", referiu Amstrup.

Alterações Climáticas: As Imagens Desoladoras de Um Urso Polar a Morrer à Fome
7 de Dezembro, 2017 - É este o efeito das alterações climáticas. Este urso polar esquelético foi visto pelo fotógrafo da National Geographic Paul Nicklen durante uma expedição na Ilha de Baffin, no Canadá. À medida que as temperaturas sobem, e o gelo derrete, os ursos polares ficam sem o seu principal alimento - as focas. Esfomeados, e já sem energia, são forçados a aventurar-se pelos arredores de povoações à procura de qualquer possível alimento. Alimentar os ursos polares é considerado ilegal. Sem conseguir encontrar outra fonte de alimento, este urso terá provavelmente morrido numa questão de horas.

Sendo caçadores solitários, os ursos são mais parecidos com os tigres, embora duas vezes maiores, uma vez que alguns chegam aos 500 kg de peso. Ainda assim, são vulneráveis como poucos devido à quase total dependência de uma única espécie de presa.

MAIS IMPACTO DO QUE SE PENSAVA?

Se se confirmarem, estes resultados mostram que a perda de gelo marinho pode ter um impacto mais forte nos ursos do que se pensava anteriormente, afirmou Amstrup, especialista em ursos-polares que trabalhou para a USGS. O estudo realizado em 2010 pelo próprio Amstrup projetava que este declínio contínuo do gelo marinho iria levar a uma redução de dois terços da população global de ursos, para um total de menos de 10 000 em 2050.

As melhores estimativas indicam que existem 20 000 a 30 000 ursos-polares em 19 grupos ou populações diferentes dispersas pelos EUA, Canadá, Gronelândia, Noruega e Rússia. Considera-se que quatro destas populações se encontram de declínio. Os ursos da região do Mar de Beaufort encontram-se entre os mais bem estudados e o número destes animais diminuiu 40 por cento nos últimos 10 anos. Pensa-se que cinco populações se encontram estáveis e não se conhece as outras o suficiente para fazer estimativas.

Os ursos-polares são considerados uma espécie em perigo nos EUA e encontram-se na lista de animais "vulneráveis" da UICN, uma vez que o seu habitat no gelo marinho está sob ameaça devido às alterações climáticas.

POUCO PREPARADOS PARA CAMINHAR

Embora se trate de um apanhado de apenas dez dias, o estudo confirma que os ursos-polares não foram feitos para caminhar, afirmou Andrew Derocher, o principal especialista do Canadá em ursos-polares e professor na Universidade de Alberta. Não são marchadores eficientes, mas graças à sua dieta altamente energética baseada em focas, são capazes de percorrer uma área vastíssima, que pode chegar aos 153 000 quilómetros, disse Derocher numa entrevista.

Os ursos podem perder peso rapidamente, mas também o podem repor sem demora se conseguirem apanhar focas. "Já vi um macho com 500 kg consumir 100 kg de foca numa única refeição", afirmou.

Quanto maior for a distância que os ursos tenham de percorrer para chegar aos locais com gelo para caçar, mais peso perderão. Acabam por perder massa muscular, o que reduz as possibilidades de êxito na caça e pode levar a uma espiral decrescente. Além disso, os ursos estão a nadar muito mais à medida que o gelo marinho diminui, afirmou Derocher.

Embora sejam capazes de nadar longas distâncias, os ursos-polares queimam muito mais energia desta forma do que caminhando, como mostra um estudo recente publicado na revista Polar Biology.

"Com o gelo marinho a derreter cada vez mais cedo, os ursos-polares são obrigados a nadar cada vez maiores distâncias para encontrarem populações de focas", afirmou Blaine Griffen, biólogo da BYU (Universidade Brigham Young) em comunicado. Um urso-fêmea que Griffen estudou nadou 695 km em nove dias. Perdeu 22 por cento do peso corporal e, o que é pior, uma cria lactante que tinha iniciado o trajeto ao seu lado.

Nadar mais poderá significar ursos menores, taxas de reprodução mais baixas e até o aumento do risco de morte — algo a que já se está a assistir no ocidente da Baía de Hudson e no sul do Mar de Beaufort, afirmou Griffen.

Não há dúvida de que à medida que o gelo marinho diminui, haverá mais ursos a morrer de fome, asseverou Amstrup.  "Não sei se o pobre urso do vídeo estava a morrer de fome. Mas sei que a única solução para a sobrevivência do urso-polar a longo prazo é combatendo as alterações climáticas.”

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