Luzes Verdes Podem Salvar Aves e Tartarugas das Redes de Pesca

Segundo um novo estudo, ambos os animais têm menores probabilidades de ficar enredados em redes de pesca que integrem luzes verdes.segunda-feira, 23 de julho de 2018

Os cientistas esperam que a luz verde traga uma nova esperança para os conservacionistas dos animais marinhos.

Um novo estudo revelou que as luzes LED verdes incorporadas nas redes de emalhar, um tipo de rede que se ergue nas águas como uma cortina, reduziu em cerca de 85 por cento o número de corvos-marinhos que ficam enredados nas redes, ao mergulhar para apanhar peixe.

O método foi pensado inicialmente para salvar as tartarugas marinhas. A eleição da cor recaiu sobre o verde, porque as tartarugas conseguem ver o comprimento de onda, ao contrário dos peixes, o que significa que a luz pode ser usada para afugentar as tartarugas, sem comprometer a captura de peixe.

Todas as espécies de tartarugas marinhas estão sob ameaça ou perigo de extinção, e a captura acidental pelos pescadores constitui uma ameaça à sua existência. Estudos anteriores, desenvolvidos pelo mesmo grupo de trabalho, revelaram que o número de tartarugas capturadas acidentalmente em redes de pesca diminuiu cerca de 64 por cento, quando eram incorporadas luzes LED. O novo estudo publicado na revista Open Science traz um novo alento aos investigadores, animados pela perspetiva de que outras espécies de animais possam ser salvas com esta ferramenta de baixo custo.

Os grupos de defesa dos direitos dos animais mantêm, no entanto, alguma reserva relativamente ao método, duvidando que o mesmo possa impedir que sejam infligidos novos danos aos animais do oceano.

TESTAR A LUZ VERDE

As criaturas marinhas que são capturadas acidentalmente são designadas por pesca acessória.  É uma consequência indesejada que tanto pescadores, como conservacionistas tentam evitar. Tudo desde golfinhos e baleias a tartarugas e tubarões termina todos os anos como pesca acessória. Para as espécies cujos números populacionais são por si só baixos, a pesca acessória apenas agrava o problema.

As empresas pesqueiras também têm interesse em reduzir a pesca acessória, porque os animais capturados inadvertidamente tendem a danificar as redes.

Para testar a eficiência da luz, o biólogo Jeffrey Mangel da Universidade de Exeter trabalhou em colaboração com o grupo de conservação peruano Pro Delphinus para estudar 114 redes de pesca, com um comprimento médio de 500 metros, distribuídas a cada 10 metros ao largo da costa de Constante, no Peru.

“Escolhemos este lugar em particular para conduzir os testes pelo seu elevado índice de interação com as tartarugas marinhas”, diz Mangel. Foram testados anteriormente, com algum sucesso, dispositivos acústicos integrados em redes para dissuadir golfinhos e baleias. Acredita-se que os ruídos subaquáticos podem dissuadir os cetáceos, uma vez que usam a acústica para comunicar. Mas, até ao momento, ainda não foi encontrado um método eficaz que demova aves e tartarugas marinhas de se aproximarem.

E os cientistas ainda não sabem ao certo por que a luz verde pode ser dissuasora.

“Sabemos que a luz verde surte efeito. A questão que se coloca é perceber porque é que produz esse efeito”, diz Mangel.

O ecologista John Wang da Administração Nacional para a Atmosfera e Oceanos estudou a interação das tartarugas marinhas com a luz em 2007 e concluiu que, quando colocadas num tanque às escuras, as tartarugas eram atraídas pela luz.

Wang, que é também autor deste estudo, afirma que a razão pela qual as tartarugas eram atraídas pela luz no estudo de 2007, manifestando aversão no estudo atual, resume-se “à resposta de um animal a um estímulo sensorial num contexto específico”.

No caso das redes de emalhar, uma tartaruga ou uma ave pode simplesmente evitar a captura ao identificar uma barreira na água.

A teoria de que o contexto é a chave para usar luzes LED pode também explicar a razão pela qual o método não funciona com a pesca de palangre, um tipo de pesca constituído por uma linha principal, robusta e comprida, da qual partem linhas secundárias, mais curtas e em grande número, e em cujas terminações são colocados anzóis. Muitos pescadores prendem um pequeno artefacto luminoso ao anzol para atrair a pesca.

É EXTENSÍVEL A TODAS AS ESPÉCIES?

No Peru, as redes de emalhar são o método de pesca mais comum, usado por operações de pesca em pequena escala, e Mangel espera que a integração de luzes nas técnicas de pesca seja um feliz meio-termo entre aqueles, cujo sustento depende da captura de peixe nas águas, e aqueles que se debatem pela sobrevivência das espécies marinhas.

“Estas comunidades são constituídas por famílias que vivem e dependem da pesca, e estamos empenhados em encontrar soluções que viabilizem a continuidade da atividade piscatória do coletivo de gentes locais“, diz Mangel.

“Na nossa perspetiva, é algo que é dimensionável. Se conseguirmos fazer descer o custo de cada luz, estamos a falar de um método que é possível implementar num cenário de pequena escala”, acrescenta Mangel.

"Os benefícios potenciais desta tecnologia, assente em redes de emalhar com incorporação de luzes, para reduzir a pesca acessória podem também criar oportunidades para pescas mais sustentáveis, atendendo à dimensão da atividade piscatória ao longo da costa do Peru”, disse Juan Carlos Riveros, diretor científico da Oceana Peru, num comunicado. No entanto, Riveros apelou para que fossem desenvolvidos novos estudos, que permitissem avaliar todos os impactos do uso da luz.

"É importante estudar os impactos desta tecnologia em diferentes vertentes, antes de que seja implementada de forma generalizada”, afirma.

Embora geralmente acolham com agrado qualquer método que permita reduzir a mortalidade da fauna marinha, os grupos de defesa dos direitos dos animais assumiram uma posição muito dura relativamente às redes de emalhar.

“Em regra, as redes de emalhar são cortinas de morte dirigidas a determinadas espécies e a espécies afins, que não sendo visadas, são capturadas acidentalmente no processo”, afirma Todd Steiner, diretor-executivo da Turtle Island Restoration Network, por correio eletrónico. Preocupa-o que ideias semelhantes às das luzes LED possam, ao tentar salvar uma espécie, exacerbar a captura de outras espécies.

Kenny Torilla da Mercy for Animals subscreve as preocupações de Steiner, acrescentando que a sua organização defende a supressão do peixe da dieta alimentar.

Mangel e Wang tencionam desenvolver novos estudos para prosseguir com a investigação sobre o efeito dissuasor de métodos de baixo custo, como as luzes LED, noutras espécies marinhas como os golfinhos, baleias e botos.

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