Serão os Incêndios da Europa Provocados Pelas Alterações Climáticas?

A vaga de calor que invadiu a Europa secou a vegetação, criando as condições perfeitas para alimentar a voragem do fogo.quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O Parthenon, o antigo templo da Acrópole em Atenas, na Grécia, eleva-se no horizonte, sobre um cenário de fumo proveniente de um incêndio em Kineta, perto de Atenas.
O Parthenon, o antigo templo da Acrópole em Atenas, na Grécia, eleva-se no horizonte, sobre um cenário de fumo proveniente de um incêndio em Kineta, perto de Atenas.
fotografia de ANGELOS TZORTZINIS, AFP, Getty Images

Na Grécia, os incêndios anunciaram-se subitamente e avançaram impiedosos, invadindo abruptamente as cidades e retendo os seus habitantes em densas nuvens de fumo.  Algumas pessoas correram em direção ao oceano, mergulhando nas águas para fugir às chamas que consumiam a costa. Outras procuraram abrigo em edifícios ou veículos. Mas os incêndios, que assolaram várias cidades nos subúrbios de Atenas, reclamaram as vidas de 91 pessoas, fazendo desta a época de incêndios mais mortífera da Europa desde 1900.

Na Suécia, mais de 80 fogos progrediram através das densas e habitualmente húmidas florestas do Norte, numa extensão de cerca de 260 quilómetros quadrados. A Finlândia e a Letónia também se debatem com os seus próprios incêndios.

A Europa incendeia-se a cada verão, sobretudo em torno do Mediterrâneo. Em média, o fogo consome, anualmente, cerca de 3900 quilómetros quadrados de solo europeu. Mas, em 2017, os incêndios consumiram quase três vezes mais aquela extensão, matando mais de 100 pessoas em Portugal e Espanha e excedendo a capacidade de resposta dos meios de combate aos incêndios e os orçamentos previstos no continente. “Em 2018, estamos a assistir a uma expansão das áreas de risco, com fogos a atingir países sem histórico de grandes incêndios no passado”, afirma Jesús San-Miguel, um investigador do Centro de Estudos Comuns da Comissão Europeia.

Estes fogos que assolam o continente partilham algo em comum: têm maior probabilidade de deflagrar e maior poder de destruição, em virtude das alterações climáticas provocadas por ação humana. Embora os cientistas não possam atribuir as causas de qualquer incêndio exclusivamente às alterações climáticas, podem, no entanto, afirmar, que as condições de aquecimento da Terra – e as formas como os seus efeitos conduzem a fenómenos climáticos extremos, à proliferação de plantas de rápido crescimento e mais inflamáveis e à formação de temporais, acompanhados de trovoadas –  criam as condições ideais para um maior número de focos de incêndio, com proporções mais devastadoras, no futuro.

COMO É QUE A TERRA ABRIU CAMINHO PARA O FOGO

O fogo é simultaneamente simples e incrivelmente complexo, com origens que remontam a centenas de milhões de anos. Um fogo apenas precisa de três elementos: matéria para queimar; oxigénio para alimentar a combustão; e uma faísca para deflagrar.

Durante os primeiros mil milhões de anos da história da Terra, não houve incêndios. Trovões ou partículas derretidas de origem vulcânica, sob a forma de faíscas, eram lançadas para o ar. Contudo, a jovem atmosfera terrestre, densa em metano e amónia e, mais tarde, dióxido de carbono, e desprovida de oxigénio gasoso, abafava as primeiras chamas.

Mas a evolução das primeiras plantas e outros fotossintetizantes transformou a atmosfera, convertendo o dióxido de carbono em formas incipientes de oxigénio. Consequentemente, 500 milhões de anos depois, o segundo elemento do fogo estava disponível. O terceiro ingrediente surgiu 30 milhões de anos mais tarde, quando as plantas saíram do oceano e avançaram sobre a superfície terrestre. Pouco tempo depois, o planeta assistia aos primeiros fogos.

Os fogos têm assolado a Terra desde então. Apesar da força destrutiva do fogo, os ecossistemas do planeta evoluíram para o suportar, e, em certos casos, dependem dele para assegurar a renovação de nutrientes.

Mas a frequência, a intensidade e a extensão desses fogos alterou-se dramaticamente. Essas alterações estiveram intimamente ligadas às oscilações climáticas no passado. Quando o planeta aquece, intensificando a seca em zonas já por si secas, os fogos ocorrem com maior frequência e em maior escala.

“Quando analisamos o aumento da frequência de fogos no passado, verificamos que existem sempre provas que nos indicam que o clima estava mais seco”, afirma Graciela Gil-Romera, uma paleoecologista da Universidade de Aberystwyth em Gales, que estuda a história do fogo. “O clima seco está sempre relacionado com o aumento da atividade do fogo.”

LANÇAR A FAÍSCA

Ao longo dos últimos 400 milhões de anos, as concentrações de oxigénio mantiveram-se altas o suficiente para alimentar o fogo, pelo que os outros ingredientes: a quantidade de material combustível e a diversidade de formas de acender uma chama; são os principais agentes de ignição do fogo dos tempos modernos.

E as faíscas parecem estar a aumentar. Não só os humanos produzem, com ou sem intenção, um maior número de focos de incêndio, como é expectável que a frequência dos relâmpagos aumente em face do aquecimento climático. O ar mais quente e turbulento intensifica a formação de trovoadas, as quais, por sua vez, levam à formação de mais relâmpagos. Um estudo recente revelou que os incêndios provocados por relâmpagos estavam a tornar-se cada vez mais frequentes nos extremos norte do continente americano, registando aumentos na ordem dos dois a cinco por cento anuais, desde 1975.

Um incêndio assola a região perto da cidade de Rafina, nas proximidades de Atenas, na Grécia, no dia 23 de julho de 2018. Foram contabilizadas 20 vítimas mortais e um número elevado de feridos, na sequência dos incêndios que consumiram áreas de floresta e aldeias em redor de Atenas. Nesse mesmo dia, vários fogos assolavam a Suécia e outras nações do norte da Europa, causando inúmeros danos.
Um incêndio assola a região perto da cidade de Rafina, nas proximidades de Atenas, na Grécia, no dia 23 de julho de 2018. Foram contabilizadas 20 vítimas mortais e um número elevado de feridos, na sequência dos incêndios que consumiram áreas de floresta e aldeias em redor de Atenas. Nesse mesmo dia, vários fogos assolavam a Suécia e outras nações do norte da Europa, causando inúmeros danos.
fotografia de ANGELOS TZORTZINIS, AFP, Getty Images

A GRANDE SECA

Mas o maior efeito sobre a forma, o lugar e a intensidade de um fogo prende-se com a quantidade de material inflamável. Isto levou Juli Pausas, uma ecologista que se dedica ao estudo do fogo da Universidade de Valência, em Espanha, a acrescentar um quarto ingrediente à receita do fogo: uma estação seca.

“A seca é a chave para prever a possibilidade de ocorrência de incêndios”, afirma Marco Turco, um cientista especializado no estudo do clima da Universidade de Barcelona, que trabalha para desenvolver uma ferramenta que permita prever o momento e o local onde o incêndio pode deflagrar nos meses subsequentes. Na opinião de Turco, o clima é o ingrediente mais importante, porque influencia a inflamabilidade, o tipo e a disponibilidade do material combustível.

Os piores anos de incêndios tendem a ocorrer entre extremos sazonais, quando uma estação húmida, que favorece o crescimento de plantas, é seguida de um período de seca extrema, que sorve a água das plantas e do solo.

Estas condições são exatamente aquelas que estão na origem dos fogos que assolaram o norte da Europa este verão. Um inverno húmido engordou as plantas em todo o continente, e depois veio o tempo quente. Uma vaga de calor histórica, que, segundo os cientistas, tinha o dobro das probabilidades de acontecer em virtude das alterações climáticas provocadas por ação humana, invadiu o continente.

Bill DeGroot, um cientista do Serviço Florestal do Canadá, explica que a época de incêndios se estendeu no tempo ao longo das últimas décadas em muitas regiões do planeta, em grande parte porque as temperaturas mais quentes deixam as plantas mais ressequidas e mais cedo no ano. Na zona ocidental dos Estados Unidos, o intervalo de tempo entre o primeiro e último incêndio aumentou quase 80 dias desde 1980. No Canadá, onde trabalha, a época de incêndios prolongou-se por mais um mês.

“Um regime de incêndios é algo que está em permanente mudança”, afirma DeGroot. “Mas esta mudança com as alterações climáticas vai implicar um conjunto de adaptações significativas num período de tempo relativamente curto. A floresta vai ter uma configuração diferente daquela que tem atualmente.”

As alterações climáticas aceleram este processo, à medida que regiões secas tendem a ficar mais secas. Quando o Centro de Estudos Comuns da Comissão Europeia analisou os modelos de probabilidade de incêndios no presente e no futuro em solo europeu, descobriu que algumas regiões, já por si secas, como em Espanha, na Grécia e na Turquia, irão tornar-se ainda mais secas e, por conseguinte, mais propensas à ocorrência de incêndios. Atualmente, uma média de 9000 quilómetros quadrados, uma área três vezes superior a Rhode Island, é consumida pelo fogo, todos os anos, na Europa. No final do século, o número poderá duplicar.

Na região ocidental dos Estados Unidos, as alterações climáticas aqueceram e secaram as plantas que cobrem as montanhas, vales e planícies. Segundo Park Williams, um cientista que estuda a relação entre as alterações climáticas e o fogo da Universidade de Columbia, esta seca extrema duplicou a probabilidade de incêndios na região ocidental dos Estados Unidos, mais do que seria de esperar sem as alterações climáticas”.

“O fogo está a mudar diante dos nossos próprios olhos”, afirma Williams.

A SINUOSA CORRENTE DE JATO

As alterações climáticas também se refletem no número e na frequência de incêndios por via da corrente de jato, uma corrente de ar veloz que ocorre na alta troposfera ou estratosfera, arrastando consigo fenómenos meteorológicos de oeste para este.

A forma da corrente de jato e a velocidade com que arrasta as condições meteorológicas são fatores controlados pela diferença de temperatura entre o ar frio do Ártico e o ar relativamente quente das latitudes médias. Quando a diferença de temperatura é pequena, os fenómenos meteorológicos tendem a deslocar-se mais devagar. O aquecimento rápido do Ártico por via das alterações climáticas implica uma diminuição da diferença de temperatura. Como consequência, os fenómenos meteorológicos no hemisfério norte tendem a manter-se na região por mais tempo. Quando o tempo está húmido, mantém-se húmido, alimentando e fomentando o crescimento da vegetação. Quando está calor, mantém-se quente, sorvendo cada vez mais humidade dessas mesmas plantas.

A vaga de calor que se instalou na Europa este verão é um bom exemplo destas dinâmicas, afirma Valerie Trouet da Universidade do Arizona. “Eu diria que os fogos na Suécia estão diretamente ligados à vaga de calor que atinge o norte da Europa e à seca simultânea.”

A corrente de jato ondula em permanência de norte para sul, mas os seus movimentos tornaram-se recentemente mais extremos. Trouet e os colegas analisaram o registo de 300 anos da posição da corrente de jato na Europa e descobriram que, nas últimas três décadas, desde que o planeta começou a aquecer por via da ação humana, a corrente de jato tendeu a situar-se num dos seus extremos. Ou estava muito a sul, deixando que o ar gélido do Ártico atingisse a Europa. Ou, tal como agora, situava-se muito a norte, permitindo que o ar quente do Sul ascendesse ao norte da Europa. E, com as vagas de calor e as secas, vêm os incêndios.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com. Atualização posterior feita por Filipa Coutinho.

 

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