Como Esta Família Amazónica se Adapta às Alterações Climáticas

Desde a exploração de madeira, até à pecuária, esta família tenta expandir os seus negócios sem sacrificar a floresta primitiva onde vive.

Saturday, October 6, 2018,
Por Sarah Gibbens
Iñapari era difícil de ser alcançada, mas graças a uma nova estrada que percorre o Peru ...
Iñapari era difícil de ser alcançada, mas graças a uma nova estrada que percorre o Peru até ao Brasil, esta localidade está cada vez mais ligada ao resto do mundo.
Fotografia de Diego Perez Romero

Praticamente todos concordam que as mudanças começaram quando a estrada foi construída. Há apenas dez anos, a primeira estrada que percorre Iñapari, uma pequena cidade peruana do sul na fronteira entre o Brasil e a Bolívia, foi pavimentada. A Estrada do Pacífico liga a costa do Peru à costa brasileira e abriu as portas da Amazónia para o resto da América do Sul.

A floresta amazónica do Peru, densamente povoada por árvores imponentes e rios sinuosos, já tinha sido povoada no passado, por vários grupos de comunidades nativas e pequenas vilas, que foram atraídas para a selva devido às indústrias lucrativas ligadas aos recursos naturais.

Agora, devido à maior facilidade de ligação e proximidade, nota-se uma evolução na economia de Iñapari.

A partir de uma torre recentemente construída na praça da cidade, os visitantes podem estar simultaneamente no cruzamento do Brasil, Bolívia e Peru, no monumento sul-americano que assenta nas quatro regiões. Localiza-se na região de Madre de Dios, ou “Mãe de Deus”, uma das regiões com mais biodiversidade da Amazónia.

Para Veronica Cardozo, de Iñapari, Madre de Dios simboliza o seu mundo.

“Se a floresta desaparecesse, eu não saberia como viver”, afirma.

A família de Veronica, de descendência portuguesa e libanesa, vive em Iñapari há três gerações. Escolheram vir para a região para trabalhar nas plantações de seringueiras. Quando o mercado da borracha caiu, mantiveram-se no local e ocuparam-se do cultivo da terra.

Tendo crescido na região, Veronica recorda-se de apenas oito casas em Iñapari, apesar de agora morarem cerca de 1.500 pessoas na cidade fronteiriça. Não é só Iñapari que está a mudar. A imaculada e outrora intocada floresta amazónica do Peru está cada vez mais sob a pressão da atividade madeireira ilegal e da exploração mineira, para além das mudanças climáticas.

"Tudo o que eu conheço sobre o mundo é Iñapari", diz. “Sei do que a floresta precisa e sei do que preciso da floresta.”

Muitos dos que cresceram em Madre de Dios, como os Cardozo - uma família de três irmãos e duas irmãs - dizem conhecer a melhor forma de adaptação para viver numa floresta amazónica em mudança. No entanto, dizem ser necessária a existência de um maior apoio ao financiamento e à aplicação das leis de forma a conseguir viver de forma sustentável na região.

"Eles Sentem o Calor"

De acordo com uma revisão da literatura científica sobre as mudanças climáticas na Amazónia, conduzida pela World Wildlife Fund, a região pode passar por um aumento das temperaturas entre dois e três graus Celsius, até 2050.

Quem trabalha no terreno diz que já é possível sentir o calor. Uma comunidade indígena chamada Bélgica, que fica a cerca de uma hora de distância de Iñapari, e muitos dos seus moradores, já trabalharam como camponeses para uma empresa do ramo da madeira chamada Maderyja, diz o presidente da comunidade, Nelson Lopez.

"Eles sentem o calor enquanto estão a trabalhar", afirma Lopez acerca de alguns membros da sua comunidade. "Eles sentem que o sol está mais perto deles."

Além do aumento da temperatura, Lopez diz que a comunidade já se apercebeu das estações chuvosas mais intensas e dos períodos mais prolongados de seca.

Adaptação às Alterações Climáticas

As alterações climáticas são um problema global que exigem esforços globais, mas a família Cardozo, como muitas da região, não pode esperar pela implementação dos planos teóricos. Já estão a adaptar os seus negócios de forma a serem mais resilientes às condições climáticas.

Maria Cardozo possui um grande campo para gado nos arredores de Iñapari. A pecuária em escala industrial é a maior causa da desflorestação da Amazónia, mas mesmo as operações de menor escala, como as de Maria, exigem a limpeza de vários hectares de árvores.

“Sabemos que as mudanças climáticas nos afetarão”, diz Maria, que aponta para um clima cada vez mais irregular nos últimos anos como sendo um problema recorrente.

"Pensamos que vai chover mas a chuva acaba por não aparecer", afirma. "Com este calor, é impossível ficar lá fora."

Maria diz não ter acesso às pesquisas mais recentes sobre a relação da pecuária com a resiliência climática, mas improvisa onde consegue. Depois de ver um programa informativo num canal de televisão argentino, a sua equipa modificou as vedações, para permitir que o gado tivesse menos espaço onde percorrer. Foi uma experiência que Maria diz ter funcionado: reduziu o número de calorias queimadas pelos animais e auxiliou-os a resistir às temperaturas elevadas.

Agora é também feito um maior controlo sobre os locais e por quanto tempo o gado se desloca, de forma a reduzir o desgaste no solo.

Maria diz já ter notado que houve um decréscimo nas vendas de carne.

"Não perdemos dinheiro, mas também não estamos a crescer", diz sobre os seus negócios na última década.

Maria e a sua família já começaram a diversificar na criação de gado, acrescentando porcos, galinhas e cabras. Também criam e vendem cavalos.

Apesar de cumprirem os seus objetivos, Maria diz que a sua atividade poderia ser ainda mais sustentável se tivessem mais apoio do governo peruano para comprar melhores máquinas, construir um silo para armazenar a ração para gado e construir um laboratório onde pudessem testar geneticamente os seus rebanhos.

O irmão de Maria, Elias, recebeu 100.000 sóis peruanos (cerca de 30.000 dólares americanos) para o seu projeto de aquacultura. O seu projeto para criar peixes, em vez de os capturar, venceu uma competição de sustentabilidade chamada Innóvate Peru, destinada a auxiliar o financiamento a projetos como este. A aquacultura é habitualmente discutida como uma forma de garantir a segurança alimentar das populações em crescimento. A proteína animal pode ser gerada em espaços mais limitados e com menos gases produtores do efeito de estufa do que a produção de carne bovina.

Nos rios mais próximos, algumas espécies de peixes estão a ser pescadas intensivamente, mas, com a sua criação, Elias nem chega a constituir uma ameaça para os espécimes selvagens.

Sem a ajuda contínua dos subsídios do governo, Elias diz que não seria capaz de competir com a concorrência dos peixes brasileiros mais baratos que inundam o mercado.

É Abraham Cardozo quem mais trabalha na floresta. Em 2002, fundou uma empresa madeireira sustentável certificada, chamada Maderacre, que vendeu em 2011. No terreno de 220.000 hectares, apenas as árvores mais velhas são colhidas, e são feitas de forma alternada para que o solo permaneça intacto.

"O meu pai costumava dizer: 'Quando aprenderes a viver com a floresta, poderás ter uma boa vida'", diz Abraham. Abraham quer outros negócios na região, para aproveitar os benefícios da floresta, mas de forma a que sejam capazes de a continuar a usar indefinidamente, afirma.

Abraham planeia concorrer a presidente durante as próximas eleições de Iñapari, substituindo o seu irmão Alfonso. No mandato de Afonso, este lutou por infraestruturas mais sustentáveis e supervisionou a construção de uma praça central com luzes alimentadas por painéis solares.

Enquanto está sentado à mesa em Don Alberto, um restaurante de Veronica, Alfonso fala sobre os seus pais. O seu pai também já foi presidente, e Alfonso descreve a sua mãe como uma "sonhadora". Ambos ganharam a vida na floresta e sempre consideraram essencial a sua proteção. É um estilo de vida que Alfonso diz que foi passado para todas as crianças Cardozo e que eles próprios também estão a tentar transmitir aos seus filhos.

Enquanto o mundo muda em torno deles, Veronica diz que querem garantir que a floresta amazónica na qual cresceram permanece o mais intacta possível.

"Estou triste que as coisas estejam a mudar", diz. “Em cidades como esta, só temos a floresta.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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