Este Iceberg É um Retângulo Perfeito — Descubra Porquê

Apesar do seu formato atípico, os cientistas têm uma explicação muito simples para o fenómeno.

Friday, October 26, 2018,
Por Sarah Gibbens
Fotografia tirada no decorrer de um voo de rotina, a bordo de uma aeronave da Operation ...
Fotografia tirada no decorrer de um voo de rotina, a bordo de uma aeronave da Operation IceBridge, da NASA. Um iceberg retangular é avistado a flutuar no oceano, entre outras formações geladas, junto à plataforma de gelo Larsen C. Os ângulos e vértices perfeitamente definidos e a superfície plana deste iceberg indicam que se separou recentemente da plataforma de gelo.

Num mundo mergulhado no caos iminente da ameaça das alterações climáticas, surgiu uma imagem que remete para a ordem natural das coisas e transparece um pouco de tranquilidade. 

Trata-se de uma fotografia partilhada pela NASA na passada quarta-feira onde podemos ver um iceberg que se apresenta com um formato perfeitamente retangular, de faces planas e arestas bem definidas que desenham ângulos de 90 graus. O iceberg permanece, assim, como a base de um gigantesco bolo de aniversário a flutuar na costa leste da península Antártica.

Foi uma aeronave afeta à Operation IceBridge, da NASA, que avistou o estranho iceberg pela primeira vez, durante um voo de rotina. A Operation IceBridge é uma iniciativa que se propõe a estudar a forma como os polos influenciam o clima da Terra, servindo-se de uma frota de aviões para monitorizar regularmente as regiões polares para recolherem dados relevantes.

“Os ângulos bem definidos pelas arestas e vértices e a superfície plana do iceberg indicam que se separou recentemente da plataforma de gelo”, explica a NASA na sua página no Twitter, referindo-se à plataforma de gelo conhecida como Larsen C.

O investigador sénior Ted Scambos, da Universidade do Colorado, em Boulder, afirma que este iceberg deverá ter cerca de 40 metros de altura e um quilómetro e meio de comprimento.

“Se contarmos com todas as toneladas de gelo contidas neste iceberg, teremos, então, gelo suficiente para encher várias vezes todas as piscinas da Califórnia”, explica Scambos, sublinhando que se trata apenas de um pequeníssimo fragmento quando comparado com a quantidade de gelo a flutuar na Antártica.

UMA FATIA DE GELO

As plataformas de gelo estão repletas de falhas e fissuras, explica-nos a geofísica Kristin Poinar, da Universidade de Buffalo. Estes icebergs retangulares são mais comuns do que as pessoas julgam.

“Ao longe, os icebergs são lindíssimos e imaculados, mas se nos aproximarmos percebemos que até eles têm as suas imperfeições e estão cheios de pequenas falhas”, afirma Poinar.

“Larsen C é uma plataforma enorme. O gelo tem tempo para se espalhar até ficar admiravelmente plano.” Poinar acrescenta, ainda, que quando um iceberg se separa de uma grande plataforma graças a uma fissura prévia, este tende a assemelhar a um grande retângulo com faces muito lisas. Normalmente, apenas 10% de um iceberg é visível à superfície da água. No momento em que se separou da plataforma, é provável que o iceberg assumisse uma forma muito regular. Contudo, devido às correntes marítimas, a base rapidamente assume uma forma diferente.

(A península Antártica está a aquecer. Fique a saber como as leis da vida como a conhecemos estão a mudar rapidamente.)

Eric Rignot, um investigador do Jet Propulsion Lab, da NASA, e docente da Universidade da Califórnia, em Irvine, concorda a forma retangular de Larsen C se deve às suas dimensões massivas.

“Os icebergs que se separam de Larsen C são tão grandes que parecem retângulos perfeitos ou assumem formas muito lineares. Isto sucede porque resultam de fissuras que se prolongam em linha reta por centenas de quilómetros de profundidade nas plataformas de gelo”, explica-nos. “Na Gronelândia, não encontraríamos este tipo de iceberg porque o clima é mais morno. Lá, os icebergs fragmentam-se em unidades mais pequenas e os glaciares também são de menores dimensões.”

A ANTÁRTIDA A DERRETER

Uma plataforma de gelo consiste numa grande porção de gelo a flutuar presa a terra firme, e Larsen C é a última da sua linhagem. Larsen A colapsou em 1995, e Larsen B em 2002.

Em 2017, um iceberg do tamanho de Delaware separou-se de Larsen C. Com um bilião de toneladas, trata-se de um dos maiores icebergs alguma vez avistados. À medida que estes fragmentos de gelo se vão separando de Larsen C, este torna-se cada vez mais instável. A comunidade científica teme que a situação possa evoluir e conduzir a um colapso semelhante aos que sucederam com Larsen A e B.

Larsen C é apenas uma das muitas plataformas que estão sob constante monitorização por parte de investigadores e cientistas. À medida que as alterações climáticas vão conduzido a um aquecimento progressivo das temperatura médias dos polos, os cientistas inquietam-se com a questão do de gelo iminente da Antártica

Poinar refere que um iceberg, isoladamente, não é necessariamente indicador do estado em que se encontra estabilidade de uma plataforma de gelo.

“Pensemos na plataforma de gelo como uma conta bancária”, ilustra Poinar. “Apesar de, ocasionalmente, haver um iceberg a separar-se da plataforma, uma porção desse gelo é reposta pelos nevões.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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