O que é Preciso para Guardar Um Santuário de Tubarões?

Um grupo improvável, incluindo um explorador da National Geographic e um antigo contrabandista de tubarões, juntaram esforços para proteger os tubarões das Ilhas Cook.terça-feira, 2 de outubro de 2018

Rarotonga, Ilhas Cook. Numa sala de apoio situada num edifício ministerial em Rarotonga, a maior das Ilhas Cook, um antigo contrabandista de tubarões mantém-se atento aos ecrãs dos monitores que ocupam toda a extensão da parede. Os aparelhos reproduzem imagens de satélite do planeta: pontos vermelhos, amarelos e pretos percorrem os oceanos, assinalando os navios pesqueiros de todas as nacionalidades, com licença de atividade, e a sua reputação no cumprimento das leis.

Ben Ponia, secretário de estado do Ministério dos Recursos Marinhos, apresenta o capitão Sai, o homem que, antes de estar ao serviço do governo, era conhecido dos inspetores como o maior contrabandista de tubarões da região. Quando era um jovem capitão de um barco de pesca de palangre nas Ilhas Fiji, Sai vendia barbatanas para o mercado asiático, algumas das quais atingiam as centenas de dólares. Sai é hoje o inspetor responsável por assegurar o cumprimento da lei no rigoroso santuário das Ilhas Cook, que visa proteger os tubarões da pesca ilegal e manter as suas barbatanas a salvo do tráfico.

O capitão Sai e outros tantos inspetores mantém-se atentos aos navios errantes. Ao centro, num ecrã, é possível observar as Ilhas Cook, um conjunto de 15 ilhas situadas nas proximidades da Nova Zelândia, no Pacífico Sul. Em 2013, as ilhas Cook criaram um dos maiores e mais rigorosos santuários de tubarões do mundo. Os inspetores como Sarau sobem a bordo de embarcações, no encalço de navios que se dediquem à pesca e ao comércio ilegal de barbatanas de tubarões e afins, no âmbito territorial das suas águas. Qualquer embarcação identificada, que tenha em seu poder partes de tubarões, numa área protegida do oceano e que se estende por quase 2 milhões de quilómetros quadrados em torno das ilhas, incorre no pagamento de uma coima mínima equivalente a cerca de 63 000 euros.

A dinâmica subjacente à criação dessa lei deve-se em parte a Jessica Cramp, uma investigadora americana especialista em tubarões e atualmente exploradora da National Geographic, que se mudou para as ilhas Cook em 2011, para auxiliar na promoção da campanha destinada à criação do santuário. A lei foi promulgada 18 meses mais tarde, determinando a aplicação de uma das coimas mais elevadas na região a recair sobre qualquer pessoa ou embarcação identificada na posse de partes de tubarão.

 

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Mas o sucesso que os conservacionistas alcançaram com a criação do santuário não deixou antever os desafios que o cumprimento da lei supõe. Cramp tenta perceber se a lei, que protege o santuário, é efetivamente aplicada.

Para tal, Cramp ocupa-se da recolha de informações sobre as embarcações de pesca locais, apanhando boleia a bordo de navios comerciais e percorrendo as nações insulares dispersas pelo Pacífico Sul. A organização não governamental que dirige, a Sharks Pacific, trabalha em parceria com as comunidades no desenvolvimento de estratégias de conservação. Além disso, Cramp está a terminar um trabalho, ao abrigo de uma bolsa atribuída pela National Geographic, que visou a colocação de 28 dispositivos de identificação por satélite em 28 tubarões, com o objetivo de estudar as suas movimentações, e ainda um doutoramento para avaliar a eficácia do santuário na proteção dos tubarões migratórios. Cramp pretender saber, através do conjunto de todas estas linhas intervenção, se uma política pode proteger uma espécie que atravessa águas sob diferentes jurisdições, incluindo as zonas em alto mar sem qualquer jurisdição.

VIGIAR OS MARES

Nas Ilhas Cook, após a lei do santuário entrar em vigor, as entidades oficiais que zelam pela aplicação e cumprimento da lei interrogavam-se de que forma seria possível assegurar a implementação e a fiscalização de um programa de conservação, com um âmbito geográfico tão vasto.

Num bar de praia, conhecido por Trader Jack’s, um barman corta a ponta de um coco ainda verde e estende-o a Josh Mitchell, que se acomoda numa mesa de piquenique. Durante uma década, Mitchell supervisionou as embarcações de pesca comercial, que operam nas águas das Ilhas Cook. Após uma curta hesitação, Cramp rapidamente encontrou em Mitchell um dos seus mais fortes aliados.

“A Jess quer salvar o mundo, e esse é um propósito nobre”, afirma Mitchell. “Eu sou bocado mais amargo. Simplesmente tenho aversão ao desperdício.”

Mitchell define-se a si mesmo como um gestor de estratégias, que acredita que a sustentabilidade é a melhor solução para a economia, e não um conservacionista movido apenas pela necessidade de conservação. A remoção das barbatanas dos tubarões incomodava-o. “Para além de ser um ato cruel, é puro desperdício”, afirma.

As barbatanas de tubarão alimentam um vasto mercado, sobretudo na Ásia, onde a sopa é considerada uma iguaria. Muitas vezes, as tripulações das embarcações de pesca guardavam as barbatanas para vender no regresso a casa e assim obter um rendimento extra. A remoção das barbatanas de tubarão foi proibida nas Ilhas Cook alguns anos antes da criação do santuário de tubarões, mas foi uma atividade difícil de regular. A lei da altura determinava que as barbatanas não podiam estar separadas das carcaças dos tubarões. Dado que as embarcações não podem permitir-se carregar mais peso do que aquele que a sua capacidade permite, tal servia para argumentar que os tubarões ficavam presos nas redes de emalhar por acidente, não sendo deliberadamente capturados pelas suas barbatanas. Mas depois o santuário, que atualmente criminaliza qualquer parte de tubarão encontrada a bordo de uma embarcação, facilitou o trabalho dos inspetores, afirma Mitchell.

Mitchell chama um homem mais velho, com uns óculos de sol azuis, que bebericava uma cerveja no bar, um dos 15 inspetores do Ministério dos Recursos Marinhos. “Para nós, foi uma salvação de Deus ter um santuário. Se apanhássemos alguém com uma parte de um tubarão, essa pessoa estava feita”, diz o homem. “Dizia-se por aí para não se meterem connosco, ou seriam apanhados.”

Os relatórios dos inspetores são comunicados ao Ministério dos Recursos Humanos, onde é decidido processar a empresa ou apenas aplicar uma coima, cujo valor deverá ser superior ao valor obtido pela venda da barbatana no mercado, defende Cramp.

No ano passado, a pesca gerou o equivalente a 11 milhões de euros de receitas para a economia das ilhas, e, a par delas, surgiram as relações diplomáticas sensíveis. Foram aplicadas quatro coimas desde a criação do santuário, perfazendo um valor equivalente a 213 mil euros, sendo que a coima mais baixa foi aplicada a uma embarcação local. Mas a política de tolerância zero ainda mantém zonas cinzentas.

Em 2013, um navio em busca de auxílio médico entrou nas águas das Ilhas Cook, e descobriu-se que tinha a bordo carcaças de tubarões. O governo emitiu um aviso, ao invés de uma multa. Ben Ponia, secretário de estado do Ministério dos Recursos Marinhos, que se encontra, desde então, suspenso do exercício de funções por motivos não revelados, explica que “prevaleceu a abordagem humanitária” da situação.

 

COMBATER A PESCA ILEGAL

Nos gabinetes de vigilância marítima situados no porto, o comandante Tepaki Baxter gere uma equipa de 12 pessoas, que inspeciona qualquer navio que entre nas águas sob jurisdição das Ilhas Cook. Os inspetores partilham um barco apenas, e atendendo à vasta extensão da área, podem ser precisos três dias para alcançar as ilhas mais setentrionais. No entanto, Baxter e a patrulha não brincam quando se trata de travar o comércio das barbatanas de tubarão e aquilo que representa.

“Quando uma pessoa se dedica ao comércio de barbatanas de tubarão, importa perguntar o que mais se dispõe a traficar? Drogas, pessoas, escravos sexuais?”, pergunta um inspetor por detrás do ecrã do computador, no gabinete situado na zona portuária.

O santuário permitiu acabar com a pesca ilegal nas águas das Ilhas Cook, dizem os inspetores. Já passaram dois anos desde que encontraram a última barbatana de tubarão, abandonada num saco de lixo, na cozinha de um barco de pesca. O chef tencionava fazer uma sopa. Mas, quando Baxter descreve as normas, eles vacilam ante a lei, que estabelece que a descoberta de qualquer parte de tubarão está sujeita à aplicação de uma coima.

“Se encontrarmos um tubarão a bordo com a barbatana intacta, não levantamos qualquer problema”, afirma, acrescentando que o importante é que a carcaça do tubarão integre a barbatana e que a captura esteja registada no diário de bordo do navio. Isto acontece uma vez por mês, sobretudo a bordo de embarcações asiáticas, e comunicado posteriormente ao Ministério dos Recursos Marinhos, afirma.

Uma jovem chamada Ina navega sobre o dorso de um tubarão na nota de três dólares das Ilhas Cook. A lenda é a versão insular local da história de Romeu e Julieta. Reza a lenda que Ina parte a casca de um coco na barbatana dorsal do tubarão para se alimentar, quando foge de casa dos pais para se juntar ao seu amado. As notas são tão populares que são difíceis de encontrar em circulação.

Mas o respeito pelos tubarões nas Ilhas Cook tende a esbater-se, afirma o biólogo marinho Teina Rongo. Enquanto a polícia marítima e o ministério se ocupam da aplicação e do cumprimento da lei, Rongo apela à sensibilidade e à consciência das pessoas. Rongo é a única pessoa natural das ilhas com um doutoramento em biologia marinha e dedica a sua vida a ensinar os habitantes das Ilhas Cook sobre a importância de preservar o seu legado natural. Rongo dá aulas sobre as alterações climáticas em escolas e aconselha os chefes locais em matéria de conservação.

Na linguagem maori local, taurá atua significa tubarões, um guardião animal. Taura significa equilibrado e atua significa deus. Juntas, as palavras atribuem a estas criaturas um papel importante: são aquelas “que nos equilibram”. Mas, na visão de Rongo, o respeito pelo santuário dos tubarões ainda não se faz sentir e tem de começar pelos habitantes das Ilhas Cook.

“As pessoas não têm paciência”, diz Rongo. “As gerações mais antigas de pescadores encontravam formas de lidar com os tubarões. Hoje, as pessoas querem entrar e sair e se algum animal se atravessa no seu caminho, a solução é matá-lo.”

 

Este artigo foi atualizado para clarificar o papel do capitão Sai no Ministério dos Recursos Marinhos.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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