Tudo o que Precisa de Saber Sobre o Plástico Feito de Plantas

Poderão os bioplásticos realmente aliviar o fardo sobre o ambiente? Os especialistas dão a sua opinião.

Por Sarah Gibbens
Publicado 23/11/2018, 11:30
O bioplástico está a tornar-se uma alternativa popular para os artigos plásticos de uso único, tais ...

O bioplástico está a tornar-se uma alternativa popular para os artigos plásticos de uso único, tais como palhinhas e utensílios.

Fotografia por Rebecca Hale and Mark Thiessen, National Geographic

 

Mais de oito biliões de quilogramas de plástico foram produzidos até hoje, e oito biliões de quilogramas de plástico flutuam nos oceanos todos os anos. Este plástico enreda os animais marinhos que tanto admiramos e os peixes que pomos nos nossos pratos, surge no sal de mesa que usamos e chega mesmo a infiltrar-se no nosso próprio corpo.

Com o progresso da investigação acerca do impacto da utilização de tanto plástico, os consumidores e fabricantes procuram alternativas a este material tão ubíquo, e os bioplásticos surgem como uma potencial alternativa.

De imediato, a designação é promissora, com um prefixo que parece indicar um produto amigo do planeta. Mas será o bioplástico a panaceia para os nossos males ambientais? Um artigo de uso único e fácil utilização que se assemelha ao plástico, mas livre de culpa?

A resposta?

É complicado, dizem os cientistas, fabricantes e os especialistas ambientais, que advertem que as suas potenciais vantagens assentam em muitos “ses.”

 

O QUE É O BIOPLÁSTICO?

De forma muito simples, bioplástico é o plástico feito a partir de plantas, ou qualquer outro material de origem biológica, ao invés de petróleo. Também é designado frequentemente por plástico biológico.

Pode ser fabricado a partir de ácidos poliláticos (PLA) que se encontram em plantas como o milho ou a cana-de-açúcar, ou de polihidroxialcanoatos (PHA) sintetizados a partir de microrganismos. O plástico PLA é geralmente usado em embalagens alimentares, enquanto o PHA é usado em dispositivos médicos, tais como suturas e remendos cardiovasculares.

Uma vez que o PLA, regra geral, vem de grandes complexos industriais que também fabricam produtos como o etanol, é a forma mais económica de bioplástico. É também a mais comum, sendo usada em garrafas de plástico, utensílios e têxteis.

 

PLANTAS, PETRÓLEO E O COMBATE PELA SEGURANÇA ALIMENTAR

“A argumentação [a favor dos plásticos biológicos] e a mais-valia inerente da redução da pegada de carbono”, afirma o engenheiro químico Ramani Narayan, da Universidade Estadual do Michigan, que investiga os bioplásticos.

Cerca de 8% de todo o petróleo do mundo é usado para fabricar plástico, e os defensores do bioplástico, habitualmente, clamam a redução deste uso como um importante benefício. Este argumento assenta na ideia que, se um objeto de plástico não liberta carbono quando é eliminado, à medida que se degrada, os bioplásticos irão libertar menos carbono para a atmosfera, uma vez que estão apenas a devolver o carbono que as plantas consumiram durante o seu crescimento (em vez de libertarem o carbono que, anteriormente, tinha sido fixado no subsolo, sob a forma de petróleo).

 

Contudo, a história não termina aí. Um estudo de 2011 da Universidade de Pittsburgh descobriu outras questões ambientais, associadas ao cultivo de plantas para a produção de bioplástico. Entre elas: poluição originada pelos fertilizantes e terrenos que poderiam ser usados para produção alimentar.

Usar um produto como o milho para o fabrico de plástico, ao invés de lhe dar o seu habitual uso alimentar, é uma questão central no debate acerca da distribuição de recursos, num planeta em que o alimento é cada vez mais escasso.

“O outro argumento de peso é que a biomassa vegetal é renovável”, acrescenta Narayan. “É cultivada em todo o mundo. O petróleo concentra-se em algumas regiões. Os bioplásticos apoiam uma economia agrária, rural.”

Os plásticos biológicos têm vantagens, mas apenas quando temos uma série de fatores em consideração, afirma a engenheira ambiental e exploradora National Geographic Jenna Jambeck, da Universidade da Geórgia.

“Onde cultivar? Que porção de terra será necessária? Quanta água será necessária?” são apenas alguns exemplos de questões importantes, segundo a engenheira.

Se os plásticos biológicos são, efetivamente, menos nocivos para o ambiente “é uma grande interrogação, sustentada por muitos ‘ses’”, diz. Por outras palavras, neste momento, ainda não há uma resposta esclarecedora.

 

O QUE ACONTECE QUANDO JÁ NÃO PRECISAMOS DELE ?

Dependendo do tipo de polímero usado no fabrico, o bioplástico eliminado deverá ser enviado para um aterro, reciclado como a maioria (mas não todos) dos plásticos feitos a partir de petróleo, ou enviado para uma unidade de compostagem industrial.

A compostagem industrial é necessária para aquecer o bioplástico a temperaturas altas o suficiente para que possa ocorrer a degradação microbiana. Sem calor intenso, os bioplásticos não se degradam por si num período de tempo aceitável, seja em aterros ou mesmo em caixas de compostagem caseiras. Se o bioplástico vier a contaminar um ambiente marinho, acabará por atuar de forma semelhante ao plástico feito a partir de petróleo, degradando-se em partículas minúsculas, que perdurarão durante décadas, representando um perigo para a vida marinha.

“Se houver uma fuga de PLA [bioplástico], este também não se irá biodegradar no oceano”, diz Jambeck. “Na verdade, não é assim tão diferente dos polímeros industriais. Pode ser compostado em instalações industriais, mas se o local não tiver uma destas unidades, então os seus efeitos serão os mesmos.”

 

ASSIM SENDO, DEVEMOS OU  NÃO USÁ-LO?

Um dos maiores fabricantes de bioplástico nos Estados Unidos é a Eco Products, sedeada no Colorado. Esta empresa compra PLA feito a partir de milho à NatureWorks, um fabricante de compostos químicos localizado em Blair, no Nebrasca, que também produz rações para gado, adoçantes e etanol.

A Eco Products escusou-se a responder a quaisquer perguntas acerca dos seus produtos, reencaminhando-nos para a Associação de Industriais do Plástico (PLASTICS), que disse que a procura por bioplásticos tinha aumentado na última década.

O interesse dos consumidores em alternativas sustentáveis ao plástico e tecnologia mais eficiente originaram esse aumento, esclarece Patrick Krieger, diretor adjunto para assuntos técnicos e regulamentares da PLASTICS.

Referindo-se às críticas de que o bioplástico poderá roubar terras à produção de alimento, Elleni Almandrez, diretora adjunta de comunicação da PLASTICS, diz que as empresas representadas por esta associação estabelecem parcerias com grupos como a Bioplastic Feedstock Alliance do Fundo Mundial para a Natureza, para garantir que a matéria prima é cultivada de forma sustentável.

Porém, os ambientalistas afirmam que a atual escassez de unidades de compostagem industrial significa que os bioplásticos pouco contribuirão para reduzir a quantidade de plástico que contamina os meios aquáticos.

Dune Ives é diretora executiva da Lonely Whale, uma organização ambientalista sem fins lucrativos, que visa encontrar soluções voltadas para os negócios. Em 2017, o grupo dirigiu a campanha “Strawless in Seattle”, para pressionar a implementação de uma proibição das palhinhas de plástico. Integrada nessa iniciativa, a Lonely Whale fez uma investigação acerca das palhinhas de bioplástico como alternativa. Uma das suas conclusões: das empresas locais que tinham, efetivamente, recipientes para compostagem, poucas indicaram que os artigos de bioplástico eram, de facto, colocados no local indicado, diz Ives.

“Rapidamente nos apercebemos que a ideia de plástico compostável é muito interessante, em particular, numa zona como Seattle, mas ainda há aquele elemento humano, que somos todos nós”, prossegue.

Ives acrescenta que, sem as infraestruturas de compostagem adequadas e o saber-fazer do consumidor, os produtos de bioplástico serão só mais um exemplo de greenwashing, ou branqueamento ecológico, um termo cunhado pelos ambientalistas, para designar quando o consumidor é ludibriado relativamente à verdadeira sustentabilidade de determinado produto.

“A estratégia de marketing é fazer-nos sentir bem com aquilo que estamos a comprar”, diz, “mas a realidade é que os sistemas para processar esses materiais ainda não foram implementados.”

O Instituto de Produtos Biodegradáveis (BPI) é uma organização sem fins lucrativos que defende produtos biodegradáveis e infraestruturas de processamento de resíduos. Esta organização vê nos bioplásticos e na compostagem industrial um potencial por explorar.

“A compostagem é intrinsecamente local”, diz Rhodes Yepsen, diretor executivo do BPI. “Não fará sentido enviar resíduos alimentares para outro país. Estes apodrecem rapidamente, é são constituídos, principalmente, por água. São pesados e sujos.”

Yepsen salienta que a reciclagem é, com frequência, ineficiente, captando menos de um quinto dos materiais recicláveis produzidos em todo o mundo.

“50% dos resíduos que produzimos são biodegradáveis, como é o caso dos alimentos e do papel”, diz Narayan, que é também consultor científico no BPI. Este engenheiro defende que os aterros deveriam ser eliminados por completo, sendo substituídos por uma recolha de resíduos mais robusta e abrangente.

“Os aterros são cemitérios. Estamos a preservar lixo. Não faz sentido nenhum”, conclui.

Ives salienta a oportunidade de criar alternativas sustentáveis, que não contenham qualquer plástico.

O plástico fabricado a partir de petróleo ou de plantas, como o milho, conta-se entre os materiais mais baratos para, por exemplo, embalagens, mas os pequenos fabricantes estão a desenvolver alternativas ainda mais naturais. No Reino Unido, uma empresa está a cultivar fungos para construir mobiliário leve, e, nos Estados Unidos, o Departamento de Agricultura está a usar uma película de origem láctea para fabricar embalagens quem mantêm os alimentos frescos.

“Atualmente, é uma área muito interessante para empreendedores e investidores. Há inúmeras possibilidades incríveis para alternativas que se degradem nos oceanos, que não sobrecarregam as terras nem o nosso sistema de produção de alimento”, conclui Ives.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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