Meio Ambiente

Com o Desaparecimento dos Glaciares, os Humanos Perdem Mais do que Gelo

Um mundo em aquecimento está a alterar profundamente a história e a cultura humana – e isso pode ser apenas o princípio. Sexta-feira, 11 Janeiro

Por M Jackson

Durante um par de anos vivi na costa sul da Islândia, e um dia, um homem bateu à minha porta de casa.

Perguntou-me se eu queria ver algo. Sem adjetivos. Apenas se eu queria ver algo.

Eu quase não o ouvi a bater à porta. A minha casa ficava no sudeste extremo da costa da ilha – literalmente a seis metros do mar – e os ventos fortes batiam nas paredes de cimento, fazendo o telhado de zinco rugir com cada lufada.

Eu considerei. Estava frio, a luz de inverno estava a ficar fraca, eu era um estrangeiro na zona, e se eu desaparecesse, ninguém iria procurar por mim durante dias. Mas por outro lado, estava na Islândia, um dos lugares mais seguros do mundo. E a minha curiosidade tinha sido despertada.

Eu concordei e agarrei no blusão de penas, nas luvas e no chapéu. Corri para o exterior e subi para o seu mega jipe islandês – do género de veículo que precisa de uma pequena escada para podermos subir e entrar – e conduzimos lentamente pelas disciplinadas, e ventosas, ruas da cidade de Höfn.

Naquela altura, Höfn já era a minha casa há vários meses, uma pequena cidade a baixa altitude com cerca de mil e setecentos habitantes, construída em terrenos irregulares e sobressaindo na costa sul da Islândia como um polegar de quem pede boleia. Höfn é a principal cidade do Município de Hornafjörður, uma região com pouco mais de 200 quilómetros englobando a faixa sudeste da costa islandesa.

A cidade tem duas lagoas glaciais semelhantes dispostas de ambos os lados, a este e a oeste, fazendo lembrar as asas de uma borboleta vista do ar.

Diretamente a sul, o Atlântico Norte, repleto de tempestades, contorna a cidade, e a norte, glaciares destilam pelas montanhas costeiras circundantes. Höfn – e toda a área de Hornafjörður – é a zona central de glaciares da Islândia. 

E esses glaciares estão a desaparecer rapidamente – não apenas na Islândia, mas em todo o mundo. É por isso que, enquanto geógrafo e glaciologista, estava a viver num lugar tão remoto. Mas o que eu estava a aprender ultrapassava a subida das temperaturas e o recuo do gelo. Ao mesmo tempo que os glaciares desaparecem, estão a alterar a história humana de formas profundas, e eu estava prestes a receber um lugar na fila da frente.

VIGÍLIA GELADA

Uma estrada solitária conduzia até à saída a norte de Höfn, e fazia ligação com a autoestrada Hringvegurinn, a chamada Ring Road, a única autoestrada que dá a volta a toda a ilha. Conduzimos durante uma hora para oeste na Hringvegurinn, até que saímos da estrada e paramos num local aleatório coberto de musgo.

Saímos ambos do carro, pegamos nas mochilas e nas roupas quentes, e dirigimo-nos para longe da estrada através de caminhos de pedras soltas e vegetação densa. O meu anfitrião não falava muito, e o vento envolveu-nos como se fôssemos casulos murmurantes silenciosos. O céu tinha apenas algumas nuvens, e a luz tinha um ângulo baixo em tons de cinza que condizia com a paisagem rochosa circundante, e com as montanhas que se erguiam no horizonte. A luz solar na Islândia costuma ser baixa e fraca, mas é muito valorizada.

Começámos gradualmente a ganhar elevação pelo terreno esburacado, enquanto nos afastávamos da costa, com destroços soltos de pedra que assentavam no lugar, após décadas de movimentações de glaciares, ao longo das placas montanhosas que foram outrora as falésias costeiras da ilha. Subitamente, no topo de um penhasco, o glaciar Breiðamerkurjökull erguia-se mesmo à nossa frente.

O homem ao meu lado suspirou em apreciação. A frente do Breiðamerkurjökull – a nossa paragem de destino – estava a quilómetros de distância. Era branco mas não branco puro; o cinzento, o preto e o azul imitavam coletivamente o branco. O corpo do glaciar estava coberto por zonas espessas escuras e irregulares, com cordilheiras de alto a baixo como se fossem riscas num tigre de gelo. Na baixa luz, o pai da calota de gelo que alimenta os quarenta e oito quilómetros do Breiðamerkurjökull, o Vatanjökull, dissolvia-se no céu à distância. Durante breves momentos fiquei desorientado. Parecia que o gelo continuava a crescer verticalmente pelo horizonte.

Essa é uma das coisas mais difíceis na interação com glaciares. Geralmente são tão grandes que a perspetiva atmosférica – o efeito onde os objetos parecem fundir-se com o horizonte a grandes distâncias – distorce a nossa capacidade de avaliar distâncias e escalas com precisão. Breiðamerkurjökull é o terceiro maior glaciar da Islândia, com um perímetro que se estende por mais de catorze quilómetros, de este a oeste. Mas é difícil avaliar a extensão de um glaciar que tem catorze por quarenta e oito quilómetros; como tal, ficamos com a sensação de que o glaciar simplesmente domina.

O homem e eu mantivemos uma passada regular em direção ao gelo, subindo e descendo encostas de seixos, cobrindo terreno com um fluxo constante. Eventualmente chegámos à terra de gelo e parámos por breves instantes para colocarmos os capacetes, os arneses e os crampons – peças com picos de metal que se prendem às botas para dar tração no gelo.

Passar da terra para o gelo é complicado, pois é aí que muitas vezes o glaciar está mais fragmentado e quebradiço, onde facilmente se parte e cai sobre si próprio. Mas nós fizemos a transição sem grande alarido e começámos lentamente a trabalhar na subida. Contornámos fendas profundas, pilhas de destroços de pedras e montes feitos de neve soprada pelo vento, que congelaram em formas de colinas pálidas e estranhas. A superfície de um glaciar raramente é suave; geralmente um glaciar está povoado por cortes rasos, fendas, depressões, tubos e túneis que perfuram toda a espessura do gelo.

Percebi que tínhamos chegado ao destino que o meu anfitrião tinha em mente, quando ele fez uma pausa junto ao rebordo de uma área plana, larga e arredondada, na superfície do glaciar. Quando alcançámos o fundo dessa depressão, enormes seracs – torres de gelo que se formam e inclinam na superfície do glaciar como se fossem barbatanas de tubarão – erguiam-se na ponta mais afastada da zona arredondada, e alguns pilares recortados oscilavam mais a oeste, lançando enormes sombras sobre nós. A morrer de frio, tirei mais algumas camadas de roupa da minha mochila. Trabalhar em glaciares tem tudo que ver com camadas.

O homem retirou dois colchões de espuma da sua mochila, deu-me um e gesticulou para eu me sentar. Passou-me uma garrafa-termo com café espesso e um copo de plástico, e então começou a falar. Disse-me que iríamos ficar ali sentados no fundo daquela bacia gelada, no topo do terceiro maior glaciar da Islândia, mesmo antes do anoitecer, e que iríamos aguardar.

E assim fizemos. Bebemos café, ouvimos o vento soprar, o gelo a estalar e a quebrar, e vimos a luz a ficar cada vez mais escura. Enquanto esperávamos, ele contou-me um pouco sobre quem era e como foi para ele crescer naquela zona. Passaram vinte minutos, e depois mais vinte minutos, e depois, mesmo quando já estava a ficar demasiado frio para eu aguentar, aquilo começou.

Num minuto, o céu limpo islandês estava escuro, e no minuto seguinte já não estava, e as luzes do norte, ou aurora boreal, surgiram no céu por cima de nós. Primeiro um brilho fosco, e depois, como se tivessem ligado um interruptor, surgiram luzes amarelas flamejantes, púrpuras, verdes, redemoinhos rosa e brancos, e – espere – o glaciar sobre o qual estávamos sentados, o Breiðamerkurjökull, começou a apanhar tudo, a interiorizar, a engolir, a conter as luzes do céu. As luzes do norte pulsavam através do gelo nos rebordos da bacia, através dos finos seracs, transformando-os em sabres de luz Jedi a fumegarem em concentrações caleidoscópicas. E a própria bacia do glaciar estava a rodopiar, projetando luz como se fosse um candelabro cheio de velas acesas, como uma onda do oceano efervescente, como um campo povoado por centenas de pirilampos no verão à meia-noite.

Eu estava abismado. Nunca tinha testemunhado um glaciar incandescente com a aurora boreal – nunca sequer tinha visto uma fotografia de algo assim – e estar ali fez-me sentir um companheirismo inato, pois também eu estava iluminado como o céu.

E ali ficámos sentados, naquele glaciar, na Islândia, no meio do inverno, e observamos. Ficámos até não podermos mais, até que as nuvens obscureceram o céu e as luzes. Nos minutos finais, com o gelo e o céu a escurecerem, o homem virou-se para mim e disse, “É por isto que vale a pena lutar pelos glaciares”.

UM DEGELO GLOBAL

Os modelos da glaciologia preveem que nos próximos cinquenta anos os glaciares islandeses irão perder entre 25 a 35 porcento do seu volume atual, em grande parte devido às alterações climáticas globais. A forma como os glaciares da Islândia se apresentam atualmente será muito provavelmente irreconhecível para si e para mim dentro de algumas décadas, e simplesmente incompreensível para as gerações futuras quando olharem para as suas antigas fotografias de férias.

A Islândia não está sozinha: os glaciares do mundo inteiro, que existiram durante séculos, estão a desaparecer em escalas cronológicas humanas – o nosso tempo de vida.

O desaparecimento do gelo tem consequências assombrosas – afinal de contas, os glaciares encontram-se pelo mundo inteiro, no Ártico e na Antártica, ao longo do Equador, no Médio Oriente e na África central. Atualmente, temos mais de 400 mil glaciares e calotas de gelo espalhados pela Terra, mais de 5.8 milhões de milhas quadradas de gelo. Cada glaciar é excecionalmente diverso, cada um com alterações complexas e multifacetadas, em dinâmicas ambientais locais, regionais e globais.

 Os glaciares alteram-se desde sempre, mas nunca ao ritmo a que experienciamos hoje em dia. Sim, já houve alturas em que o planeta tinha menos gelo e alturas em que o planeta tinha mais gelo, mas – e este é um grande mas – nunca na história da humanidade houve um decréscimo de gelo a nível mundial tão acelerado como o que se tem verificado nas últimas décadas.

O mais fascinante é que todos os lugares do planeta onde existem glaciares estão localizados em ambientes históricos e habitados. Onde existem glaciares, existem pessoas (até na Antártica!), e ambos têm interagido em toda a história da humanidade.

Por exemplo, o Breiðamerkurjökull já retrocedeu mais de seis quilómetros desde 1890. A velocidade de retrocesso do Breiðamerkurjökull aumentou desde os anos de 1970, e aproximadamente dois quilómetros de espessura de gelo do glaciar já desapareceram, deixando para trás uma planície glaciar desfeita, que tem o nome de Breiðamerkursandur.

O CUSTO HUMANO

Isto é apenas uma parte da história. O sítio onde me sentei a observar a aurora boreal a iluminar o glaciar já tinha sido, outrora, na altura do povoamento da Islândia, há mais de dois mil anos, um prado com vegetação e uma floresta de bétula. Os primeiros colonizadores nórdicos construíram quintas na área, fizeram casas de turfa, criação de ovelhas e cabras, e criaram os seus filhos até por volta do ano 1600, altura em que o Breiðamerkurjökull começou a avançar sobre o futuro das suas casas e famílias.

Enquanto as famílias islandesas fugiam perante a chegada do gelo, noutros cantos do mundo os colonizadores instalavam-se em Jamestown, na Virginia, Galileu Galilei colocava em questão o papel central da Terra no sistema solar e os toques finais no Taj Mahal estavam a ser dados. Assim que o Breiðamerkurjökull começou a aumentar, avançou tanto que quase chegou ao mar, parando apenas a 300 metros do Atlântico Norte.
O Breiðamerkurjökull oscilava para a frente e para trás, e enquanto se movia, delineava as vidas dos que viviam na sua sombra. No início dos séculos XIII e XIV, os islandeses já escreviam sobre seus glaciares nas “Sagas de Islandeses”, histórias de glaciares que davam emoções e destinos humanos ao gelo, e que davam aos islandeses um sentido da sua própria identidade enquanto povo.

Tudo isso faz parte da história deste glaciar. Mais tarde, em 1890, o Breiðamerkurjökull começou a retroceder, e os islandeses começaram a repovoar a área, soltando cabras para pastarem na vegetação recentemente exposta. Fora da ilha, desenrolava-se o Massacre de Wounded Knee no Dakota do Sul, automóveis e aviões começavam a ser construídos pela primeira vez, Wilhelm Röntgen descobriu o Raio-X e Arthur Conan Doyle deu vida a Sherlock Holmes.

Agora, passou mais um século, e o planeta entrou completamente no Antropoceno – onde o impacto da humanidade na Terra é tão grave que os cientistas declararam uma nova era geológica – e o glaciar mantém a sua marcha-atrás, dissolvendo-se tão rapidamente que os islandeses locais temem que nunca venha a parar e que o Breiðamerkurjökull venha a desaparecer completamente até ao último floco de neve.

Existem inúmeras histórias com este glaciar que se estendem pela história da humanidade – tal como existem com todos os outros glaciares e com as pessoas pelo mundo inteiro.
Este livro oferece uma forma diferente de olhar para os glaciares e para as pessoas, uma forma de redescobrir o que tem sido reconhecido aos islandeses, sobre o que é viver com glaciares nos últimos milhares de anos. Parafraseando o historiador Simon Schama, esta não é mais uma explicação sobre o gelo que estamos a perder; em vez disso, é uma exploração do que ainda podemos vir a descobrir com o gelo.

A minha intenção aqui é mudar a agulha da narrativa sobre a forma como as pessoas no mundo inteiro pensam acerca dos glaciares, e para despertar uma maior consideração sobre a forma como a complexidade e a riqueza entre as pessoas e o gelo variam no lugar e no tempo. Quis dar algum significado ao facto de um homem islandês silencioso me vir bater à porta para me levar durante várias horas ao seu lugar favorito, na costa sul, com temperaturas geladas, para me explicar aquilo pelo qual estava a lutar – o que estava em jogo para ele, enquanto avançamos em direção a um desconhecido, e quente, futuro.

Há alguns anos atrás, a antropóloga canadiana Julie Cruikshank perguntou, após décadas a pesquisar sobre povos indígenas e glaciares do Alasca e Oeste do Canadá, se os glaciares eram “bons para pensar”. Este livro responde à pergunta de Cruikshank com um enfático “sim!”, fundamentado em glaciares distintos, indivíduos, comunidades, culturas, escalas, geografias e lugar. Um “sim!” suportado pela crença que, para que todos nós e os nossos ambientes possamos sobreviver a este tempo de imensa transformação – o Antropoceno – precisamos de começar a pensar com os nossos glaciares, os nossos rios, as nossas paisagens locais e os nossos ambientes.

Acredito que chegou a hora de novas formas de contar histórias sobre glaciares – e de ouvir as histórias que os glaciares têm para nos contar.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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