Uma Breve História Sobre Como as Palhinhas de Plástico Dominaram o Mundo

Tudo começou com um chá fresco de menta num dia quente de verão.

Publicado 16/01/2019, 16:22 WET, Atualizado 5/11/2020, 06:02 WET
Numa loja em Hong Kong, as palhinhas de plástico são acondicionadas em invólucros de plástico.
Numa loja em Hong Kong, as palhinhas de plástico são acondicionadas em invólucros de plástico.
Fotografia de Anthony Wallace, AFP, Getty

No início de julho de 2018, Seattle tornou-se na maior cidade dos EUA a banir as palhinhas de plástico.

Eles não estão sozinhos.

A Starbucks planeia descontinuar o uso de plástico até 2020. A McDonald’s anunciou recentemente que vai banir as palhinhas de plástico nos restaurantes do Reino Unido e da Irlanda. A Bon Appétit Management, uma companhia que serve comidas em mais de mil locais dos EUA, anunciou em maio que irá descontinuar as palhinhas de plástico. A Alasca Airlines vai ser uma das primeiras companhias de aviação a descontinuar os misturadores e palhinhas de plástico, em parte devido a uma escuteira ambientalmente consciente.

Estes grupos estão a responder aos protestos do público que exige ações contra um produto que parece muito simples – mas que está a danificar os oceanos mundiais, alertam os especialistas.

Apenas nos EUA, estima-se que sejam utilizados diariamente 500 milhões de palhinhas. Um estudo publicado no início do ano passado estima que cerca de 8.3 mil milhões de palhinhas de plástico poluem as praias mundiais.

Todos os anos, oito milhões de toneladas de plástico fluem para os oceanos, e as palhinhas abrangem 0.025% desse material.

Mas isso não impediu a palhinha de se transformar no centro das atenções das recentes campanhas ambientais. Em parte porque, para a maior parte das pessoas fisicamente aptas, a palhinha é algo fácil de prescindir. Eliminar a utilização das palhinhas raramente requer uma alteração drástica de hábitos.

Mas se é assim tão fácil viver sem palhinhas, como é que se tornaram tão omnipresentes?

UMA BREVE HISTÓRIA DOS TUBOS DE BEBER

Apesar das palhinhas de plástico serem uma invenção recente, os humanos usam tubos cilíndricos ocos para levarem líquidos aos lábios há vários séculos. Os antigos Sumérios, uma das primeiras sociedades conhecidas a fabricar cerveja – há 5 mil anos atrás – submergiam tubos longos e finos, feitos a partir de metais preciosos, em jarros enormes para alcançarem os líquidos que assentavam por baixo dos produtos derivados da fermentação.

Em 1888, um homem chamado Marvin Stone foi o primeiro a apresentar uma patente para a palhinha de beber. O Instituto Smithsonian cita uma lenda muito apregoada, que diz que enquanto Stone bebia julepo de menta num dia quente de verão em 1880, o seu pedaço de centeio, então utilizado como palhinha, se começou a desintegrar. Stone, dono de uma fábrica de cigarros de papel, decidiu que conseguia fazer algo melhor.

Enrolou tiras de papel em torno de um lápis, colou-as, e rapidamente obteve um protótipo inicial para as palhinhas de papel. Patenteou o seu modelo em 1888 e em 1890 a sua fábrica, a Stone Industrial (que faz hoje parte da Precision Products Group), começou a produzi-las em massa.

Só nos anos de 1930 é que as palhinhas ganharam a habilidade de se dobrarem. Ao ver a sua filha em dificuldades para conseguir beber um batido de leite com uma palhinha de papel, o inventor Joseph Friedman inseriu um parafuso na palhinha, que tinha enrolado previamente com um fio nas ranhuras, e retirou o parafuso. Com as reentrâncias, a palhinha podia dobrar-se facilmente sem quebrar. Friedman patenteou a sua invenção e criou a Flex-Straw Company para projetar o seu modelo.

Os hospitais foram dos primeiros a adotar as palhinhas dobráveis, pois permitiam que os pacientes pudessem beber deitados nas camas.

Nas décadas que se seguiram, a famosa palhinha de papel encontrou o seu caminho até aos refrigerantes e batidos de leite por toda a América.

A CRESCENTE INDÚSTRIA DO PLÁSTICO

Os americanos ainda estavam a aceitar as palhinhas de papel, quando o fabrico de plástico começou a arrancar.

Inventados pela primeira vez em 1870 por um americano chamado John Wesley Hyatt, os primeiros produtos de plástico eram feitos a partir de um material chamado celuloide, que imitava produtos animais como o marfim. Outros compostos de plástico começaram a dominar nas décadas seguintes: a baquelite era usada em produtos domésticos, o nylon em meias e o acrílico em aviões militares.

Durante a Segunda Guerra Mundial, por ser resistente e barato, o plástico saía das fábricas a um ritmo sem precedentes. Quando o conflito terminou, os fabricantes americanos precisavam de um novo mercado de consumo. No seu livro, Plastic: A Toxic Lose Story, a escritora de ciências Susan Freinkel descreve uma infraestrutura de produção de plástico em tempos de guerra que, de repente, se viu sem mercado. Os fabricantes voltaram as suas atenções para o mercado barato de bens de consumo. Os americanos, não estando já atolados pelas frugalidades dos tempos de guerra, queriam mais a preços mais baixos.

“Graças ao plástico, os americanos, agora confiantes, tinham uma variedade de bens a baixo preço por onde escolher”, escreve Freinkel.

PALHINHAS DE PLÁSTICO ATINGEM O MERCADO

As palhinhas estavam entre os muitos produtos descartáveis a ser rapidamente fabricados pelas grandes companhias. Os custos de produção de palhinhas de plástico, que eram mais resistentes que o papel, baixaram depressa. Podiam ser facilmente introduzidas nas miras das tampas das embalagens de “comida para fora”, sem se rasgar ou partir.

A infraestrutura para fabricar palhinhas de plástico em massa foi cimentada durante os anos 1960.

Em 1969, a empresa de Friedman, a Flex-Straw Company, foi vendida à Maryland Cup Corporation. Esta companhia, sedeada em Baltimore, rapidamente se transformou num dos maiores produtores de palhinhas de plástico do país. Em 1983, a The Fort Howard Corporation comprou a Maryland Cup Corporation e continuou a produzir o produto de plástico.

“Era melhor, mais barato e não se desfazia”, diz David Rhodes, diretor de negócios global no fabricante de palhinhas de papel, Aardvark Straws, que pertencia a uma divisão da Precision Products Group. “Era realmente um produto melhor a um preço mais baixo, e na época, ninguém olhava para o impacto que poderia vir a ter no futuro do nosso ambiente.”

Novas iterações da palhinha de plástico, como as palhinhas jumbo e as crazy, foram produzidas nos anos 1980.

Um grande número de fabricantes conseguiu estar à altura das exigências de uma sociedade que estava cada vez mais ávida de produtos de conveniência, que pudessem ser transportados rapidamente. A Plastic Europe, um dos maiores

produtores de plástico do mundo, alega que em 1950 eram produzidas 1.5 milhões de toneladas de plástico, mas em 2015, o mundo estava a produzir 322 milhões de toneladas de plástico.

E AGORA ?

O mundo está agora a lutar para recuperar da sua ressaca de poluição de plástico.

As grandes empresas, os municípios e até alguns governos estão a propor e a implementar restrições às palhinhas de plástico. Algumas companhias meteram o pé no travão ao produzirem palhinhas de metal e de ervas, que os consumidores sensibilizados para as questões ambientais podem comprar para uso próprio, mas estas carecem do elemento descartável, do papel e do plástico, que os restaurantes precisam.

Os mesmos negócios que outrora beneficiaram da excitação pública com o plástico estão agora a sentir a pressão crescente da opinião pública para procurarem alternativas.

Steve Russel é vice-presidente de plásticos para a American Chemistry Council (ACC), uma organização de comércio que representa os fabricantes de plástico, entre outras indústrias. Ele diz que uma legislação que se foque apenas nas palhinhas, ou noutro produto em específico, passa ao lado da questão.

“O foco em produtos individuais desvia a nossa atenção de assuntos mais urgentes, como a forma de levarmos a gestão de resíduos a lugares que dela precisam desesperadamente”, diz. “Acreditamos que seria melhor se as palhinhas não fossem dadas automaticamente, mas sim disponíveis caso o consumidor assim o desejasse.”

Russel diz que a ACC está focada na recolha de resíduos como a melhor forma de evitar que o plástico usado entre nos oceanos.

Contudo, os grupos ambientais dizem que as restrições às palhinhas de plástico são um passo importante em direção ao seu objetivo final: acabar com a circulação de plástico de uso único.

“É assumir uma posição contra a poluição do plástico... e mudar realmente a postura em relação ao que precisa de acontecer, uma restrição a todos os produtos de plástico de uso único”, disse Kate Melges, da Greenpeace, à KIRO 7, estação de notícias de Seattle, após a proibição da cidade às palhinhas de plástico ter entrado em vigor a 1 de julho.

Rhodes acredita que um dia as palhinhas de plástico serão uma anomalia. Quando a Aardvark Straws foi criada em 2007, ele diz que foi em parte devido à procura por parte de zoos, aquários e navios de cruzeiro que queriam promover uma imagem amiga do ambiente junto dos seus clientes.

Rhodes pensa que o custo é a única coisa que se mantém entre as palhinhas de plástico e a extinção.

“Não há volta a dar ao facto de que uma palhinha de papel pode custar até mais um cêntimo que uma palhinha de plástico”, diz. Para as grandes companhias, é o equivalente a centenas de milhões de dólares, mas o custo para o ambiente marinho... não se consegue quantificar”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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