Meio Ambiente

Este Homem Apenas Se Alimenta do Que Cultiva ou Encontra na Natureza – Porquê?

Na sua experiência de um ano de “liberdade alimentar”, um habitante de Orlando está a tentar refazer a agricultura urbana. Quarta-feira, 27 Março

Por Kristen A. Schmitt

ORLANDO, FLÓRIDA – De pé, junto ao passeio, a cerca de um quarteirão de distância de um cruzamento congestionado, Rob Greenfield está a contar toranjas – apanhou mais de uma dezena, numa árvore ali perto. Ele está há mais de cem dias a fazer uma experiência de um ano, no qual irá cultivar ou forragear a sua comida a 100%. Neste dia em particular, a colheita de toranjas de Greenfield é apenas uma de dez alimentos forrageiros diferentes, desde o hibisco (Malvaviscus arboreus) ao picão-preto (Bidens alba), que ele encontrou durante uma hora de caminhada.

“A comida está a crescer à nossa volta. Basta abrirmos realmente os olhos para nos surpreendermos com a quantidade que encontramos”, diz Greenfield, que já cobriu mais de 150 quilómetros de estradas diferentes, dentro da área de Orlando, à procura de comida – normalmente de bicicleta.

“Já viajei por 49 estados e, onde quer que eu vá, há sempre comida a crescer. Quando andava de bicicleta pela Pensilvânia, havia amoreiras por todo o lado. No sul da Califórnia, encontrei nespereiras e árvores de citrinos e, no Wisconsin, macieiras, pereiras e ameixeiras. Aqui, se encontrar nespereiras com bom aspeto, tiro anotações e já sei que posso regressar em março ou abril.”

Greenfield não é um novato em cruzadas ambientais. Ele passou uma boa parte dos seus 32 anos de vida focado em questões como o desperdício de alimentos e a reciclagem, e a viver sem o recurso à rede elétrica, chamando a atenção para questões que, de outra forma, seriam ignoradas. Na verdade, esta experiência de um ano foi adiada, durante alguns meses, por causa de outros projetos que ele lançou recentemente (Jardins Para Mães Solteiras, Projeto Semente Livre e Árvores de Fruto da Comunidade), pelo que este projeto em particular só começou a 11 de novembro de 2018.

Mas também porque exigia muita preparação.

CONSTRUINDO UM DOMICÍLIO MINÚSCULO

Primeiro, Greenfield aprendeu sobre os tipos de plantas que se dão bem na Flórida, conversando com produtores locais, visitando hortas comunitárias, frequentando aulas, vendo vídeos no YouTube e lendo sobre a flora nativa e local.

“Basicamente, foi isso que me permitiu passar de não saber cultivar nada nesta área, até que, dez meses depois, cultivo e forrageio 100% da minha alimentação”, diz Greenfield. "Eu aproveitei o conhecimento local que já existia."

Depois, Greenfield teve de encontrar um lugar para viver, já que não possui terrenos na Flórida (nem quer). Colocou um anúncio nas redes sociais, dirigido aos habitantes da área de Orlando, para encontrar alguém que permitisse a construção de uma pequena casa na sua propriedade. Lisa Ray, uma herbalista que se dedica à jardinagem, ofereceu o seu quintal, para Greenfield construir, com materiais reaproveitados, uma casa com apenas 10 metros quadrados

Dentro do espaço minúsculo, aninhadas entre um futon (colchão tradicional japonês) e uma pequena secretária, as prateleiras, do chão ao teto, estão metodicamente preenchidas com uma variedade de alimentos caseiros fermentados (manga, banana, vinagres de maçã, hidromel, chucrute), com mais de cem abóboras-cheirosas pequenas, frascos cheios de mel (colhido nas colónias de abelhas que Greenfield mantem), sal (fervido da água do oceano), ervas secas e preservadas cuidadosamente, e latas de batatas e de maracujá. No canto, tem uma pequena arca congeladora cheia de pimentas, mangas e outros frutos e vegetais, colhidos nos seus jardins ou nos arredores da cidade – e também tem peixe apanhado localmente.

No exterior, tem uma pequena cozinha equipada com um filtro de água Berkey, uma unidade HomeBioGas que parece um fogão de campismo (funciona com biogás produzido a partir de resíduos alimentares) e barris para coletar água da chuva. A casa de banho, também no exterior, tem um sistema de compostagem simples e um chuveiro alimentado por uma fonte separada de água da chuva.

“O que eu estou a fazer é extremo; foi projetado para despertar as pessoas”, diz Greenfield. "Os EUA têm 5% da população mundial e usam 25% dos recursos do mundo. Enquanto viajava pela Bolívia e pelo Peru, conversei com pessoas onde a quinoa costumava ser a sua principal fonte de alimento. Os preços subiram até 15 vezes mais e, agora, já não podem depender desse alimento porque os ocidentais, como nós, querem comer quinoa.”

"Na realidade, este projeto serve para alcançar o grupo privilegiado de pessoas que afeta, da pior maneira possível, as vidas daqueles cujas agriculturas são transformadas em mercadoria, tornando-as menos acessíveis", diz Greenfield, que se orgulha de não se mover pelo interesse monetário. De facto, no ano passado, a receita total de Greenfield foi de apenas 5 mil dólares.

Greenfield usou o seu conhecimento recém-adquirido para investir em sementes e plantou vários jardins, para complementar o seu forrageio, enchendo quintais como os de Ray com uma variedade de rabanetes, alfaces, couves, brócolos – e até batata-doce.

"Se vejo uma árvore de fruto no quintal de alguém com fruta no chão, bato sempre à porta e peço”, diz Greenfield, que tem o cuidado de não transgredir, obtendo sempre permissão antes de forragear em propriedades privadas. "Eu tive muitas respostas favoráveis onde não diziam apenas sim, mas por favor, sobretudo no sul da Flórida, com as mangas, no verão".

Greenfield também forrageia zonas selecionadas de terrenos públicos e de parques de Orlando, mesmo sabendo que isso possa ser, tecnicamente, contra as regras da cidade. "É a minha forma de seguir o código da Terra, antes do código da cidade", diz.

Quando lhe perguntaram sobre os impactos de toda a gente poder fazer isto, “se toda a gente decidisse forragear, isso também significaria uma transição, de muitas outras formas, para um mundo mais sustentável e justo”.

Apesar de alguns dos seus projetos anteriores terem incluído vasculhar lixo, este baseia-se apenas em alimentos frescos, cultivados ou colhidos por Greenfield – nada é pré-embalado, e é por isso que ele passa a maior parte do tempo a preservar o seu tesouro, cozinhando, fermentando ou congelando os alimentos.

“Dependendo de com quem falamos, a Flórida é um bom estado para cultivar”, diz Greenfield. Ele realça que pode ser complicado fertilizar solo arenoso, e as temperaturas altas podem dificultar o cultivo de alimentos no verão, mas acrescenta “que é aí que entram as culturas perenes e a permacultura (sistema que procura aliar as práticas agrícolas tradicionais ao conhecimento científico e tecnológico)”.

Embora isso exija um investimento inicial (comprar sementes, plantas e adquirir uma licença de pesca custa 90 dólares), o custo total do projeto acaba por ser mínimo.

Algumas plantas compradas por Greenfield – como a banana e o boldo-da-terra (Plectranthus barbatus - a sua planta de ‘papel higiénico’) – continuam producentes. O mel é um alimento básico que ele utiliza para adocicar a sua comida, e para o que chama de benefícios medicinais. Mantém três colónias diferentes de abelhas.

“Já produzi 35 quilos de mel. Se o vender a 10 dólares o frasco, equivale a 750 dólares de mel”, diz. “Eu não vendo o mel porque, para mim, é demasiado valioso para monetizar... do género, é demasiado especial para lhe colocar um preço.”

O DILEMA DO FORRAGEADOR: OBTER PROTEÍNA E AMIDO SUFICIENTE

“O problema deste tipo de projeto – que já foi testado várias vezes – é enfrentar o dilema do forrageador: proteína e amido”, diz Hank Shaw, um forrageador californiano e autor de vários livros de culinária, incluindo o livro Caçar, Recolher, Cozinhar: À Procura do Banquete Perdido.

“Se Greenfield estiver a caçar e a pescar, e for bom nisso, não vai ter problemas nessa categoria”, continua Shaw. “Se ele não estiver a caçar e a pescar vai ter dificuldades, porque a única fonte de proteína são os legumes, e naquela zona não existem muitos legumes selvagens. É preciso cultivar uma área substancial para o conseguir.”

Greenfield concorda que a obtenção de proteína em quantidades suficientes tem sido um desafio. Ele pesca algumas vezes por mês (congelando o que apanha) e gere a sua dieta com proteínas à base de plantas, como a ervilha-de-pombo e o feijão-frade.

"Curiosamente, era suposto os girassóis serem uma das minhas principais fontes de proteína, mas os esquilos estavam sempre a comê-los", diz Greenfield. Ele também queria aproveitar a carne de um veado que tinha sido atropelado, mas as altas temperaturas não o permitiram.

“Naquela zona, um dia frio chega a atingir os 10 graus”, diz Shaw. “Isso apodrece um veado em cerca de 6 horas.”

Em relação ao amido, Greenfield depende do forrageio e cultivo de iúca, inhame e batata-doce.

Com mais de 100 dias de projeto, Greenfield diz que “não se sente descompensado, nem nada do género”. Ele fez análises ao sangue antes de começar e planeia repetir as análises quando chegar ao dia 365. “Desenvolver algum tipo de deficiência nutricional é algo que demora o seu tempo. Na realidade, sinto que tenho agora uma dieta mais completa do que anteriormente.”

FERTILIZANTES, HERBICIDAS E PESTICIDAS, MEU DEUS!

Quando se forrageia comida numa cidade, para além do trânsito e dos problemas de transgressão de propriedade, existem outros perigos significativos: a proliferação em massa de fertilizantes, herbicidas e pesticidas. Só nos EUA, são usadas anualmente mais de 250 milhões de toneladas de pesticidas, e a contaminação de fontes de água e de comida através dos derivados de pesticidas está a tornar-se incrivelmente comum.

“Wildman” Steve Brill, um naturalista que forrageia, há quase 40 anos, a área metropolitana de Nova Iorque, diz que é extremamente importante limitar a exposição a metais pesados e a plantas sujeitas a tratamentos químicos.

Brill diz que "o chumbo é um metal pesado que permanece perto da sua zona de emissão, pelo que não convém apanhar nada a menos de 15 metros do trânsito intenso. Os rebentos de crescimento rápido são os que mais absorvem metais pesados, enquanto que nozes ou fruta absorvem menos. As coisas que crescem mais rápido, especialmente da família das cebolas e dos alhos, são das piores para colher perto de zonas com trânsito.”

Greenfield não parece muito preocupado.

"As pessoas têm um conceito errado sobre a segurança dos alimentos que compram nos supermercados", diz Greenfield, que evita qualquer coisa que tenha sido tratada ou exposta a contaminantes. "Até mesmo os alimentos orgânicos... seja qual for a comida que comemos, estamos a ser expostos a coisas que não queremos.”

Contudo, Philip Ackerman-Leist, especialista em pesticidas – e autor do conto: Como Uma Cidade Pequena Proibiu Os Pesticidas, Preservou A Sua Herança Alimentar E Inspirou Um Movimento – alerta os forrageadores para terem a mesma cautela que teriam num corredor de supermercado.

“A produção de agricultura biológica, pela forma como é gerida e inspecionada, acontece em ambientes cuidadosamente controlados, mas nos ambientes urbanos e suburbanos é o faroeste”, diz Ackerman-Leist, aconselhando as pessoas que recolhem alimentos nestas zonas a conhecer o histórico de manutenção das terras. “Os pesticidas com regulamentos mais exigentes, mesmo na chamada agricultura convencional, não são controlados ou regulados de forma inquestionável em termos de comprador/utilizador, ou da sua utilização em espaços públicos e privados, em áreas urbanas e suburbanas.”

LIBERDADE ALIMENTAR

A cruzada de Greenfield pela liberdade alimentar, com a duração de um ano, é um teste para ver se é possível conseguir fazer algo assim em 2019, numa sociedade ocidental onde um sistema alimentar globalizado mudou a forma como comemos. Até Greenfield, que antes deste projeto dependia de mercearias locais e de mercados de agricultores, não tem certezas quanto ao resultado final.

“Antes deste projeto, não houve um único dia em que eu tivesse comido algo 100% forrageado ou cultivado”, diz Greenfield. “Volvidos 100 dias, já sei que isto é uma experiência capaz de mudar a vida de uma pessoa, porque agora sei cultivar e armazenar alimentos e, onde quer que eu esteja, sinto que serei sempre capaz de encontrar comida.”

Embora este possa ser um exemplo extremo, Greenfield espera que o projeto ajude a despertar toda a sociedade, para que esta se ligue novamente à alimentação, à saúde e, no geral, à liberdade.

“Para mim, se milhares de pessoas começassem a cultivar um pouco da sua própria comida, seria um sucesso”, diz Greenfield, “seja uma simples plantação de tomates numa varanda, ou transformar parte de um quintal em cultivo; falar com as pessoas que produzem a sua própria comida e perceber de onde esta vem, escapar do sistema de comida industrializado e globalizado, sem suportar as empresas que não estão a servir os nossos melhores interesses.”

RECEITAS CEDIDAS POR GREENFIELD

Smoothie Matinal de Fruta

½ papaia fresca (cultivada)

1 manga congelada (forrageada)

2 carambolas congeladas (forrageadas)

2 bananas congeladas (forrageadas)

½ coco maduro (forrageado)

Acácia-branca q.b. (cultivada)

1 pedaço pequeno de gengibre (cultivado)

1 pedaço pequeno de açafrão-da-terra (cultivado)

1 raminho de hortelã (cultivada)

Manjericão q.b. (cultivado)

1 colher de sopa de mel (cultivado)

1 ou 2 copos de água

Para mim, isto é um típico smoothie matinal, dá para fazer cerca de litro e meio. Os ingredientes podem variar, mas esta tem sido habitualmente a minha receita durante os primeiros quatro meses do projeto.

Puré de batata-doce e verduras

1800 g de batata-doce (cultivada)

2 raminhos de alecrim (cultivado)

1 pedaço pequeno de gengibre (cultivado)

1 pedaço pequeno de açafrão-da-terra (cultivado)

1 molho de alho-porro e/ou cebolinho  (cultivado)

Verduras do jardim q.b. – couve, alface e hortaliça (cultivadas)

1 pitada de sal (forrageado)

Óleo de coco (forrageado... com sorte)

Decore com ervas do jardim – coentros e/ou manjericão

Puré de batata-doce com verduras é uma refeição para mim. Também faço o mesmo com iúca. Geralmente faço uma panela com quantidade suficiente para várias refeições. Depois, aqueço conforme necessário. Para fazer uma refeição completa adiciono caldo de peixe, feito a partir de cabeças e de espinhas de peixes que pesco no oceano.

Desfrutado com hidromel ou jun (uma bebida feita de chá-verde fermentado e mel).

Couve recheada com iúca e peixe

1 kg de iúca (cultivada)

1 peixe (geralmente tainha)

4 malaguetas (cultivadas)

½ kg de verduras do jardim – couve, alface, hortaliça, brócolos (cultivados)

Sal marinho (forrageado)

Acompanhado por rabanete e nabo fermentado (com cebola verde, alho-porro, açafrão-da-terra, gengibre e sal marinho).

Fervo a iúca com as malaguetas e sal, salteio as verduras e faço o peixe a vapor.

Faço o recheio de iúca, peixe e verduras e enrolo em folhas de couve. As folhas de couve complementam toda a refeição, adicionando uma variedade crocante à minha vida.

Desfrutado com hidromel ou jun.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

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