Plantar Árvores É um Rito de Passagem para Jovens Canadianos

“É uma experiência difícil de descrever por palavras.” Uma fotógrafa reflete sobre a forma como o trabalho árduo a preparou para uma carreira a cobrir conflitos.Thursday, May 2, 2019

Por Laurence Butet-Roche
Fotografias Por Rita Leistner
Lily Anne Leclipteux a plantar em Thompson, na Tk'emlúps te Secwe̓pemc, na Colúmbia Britânica. Quando Leistner começou a plantar em 1984, era a única mulher num campo de 12 plantadores de árvores. Hoje, a maioria dos campos de plantações de árvores tem o mesmo número de homens e mulheres.

Imagine acordar ao nascer do sol, num campo a centenas de quilómetros de distância da povoação mais próxima, e fazer uma caminhada pela natureza até chegar a uma clareira feita pelo homem. Depois, carregar equipamento com mais de 20 quilos através de terreno íngreme e acidentado, curvando-se de vez em quando para plantar sementes de abeto no chão, e continuar até ao pôr do sol. Imagine repetir o processo durante todos os dias do verão, enquanto os insetos se alimentam das suas feridas. Esta é a realidade de plantação de árvores, um trabalho que emprega anualmente milhares de jovens canadianos.

“Todos os dias, oscilamos entre o desejo de querer desistir ou ficar ali para sempre”, diz Rita Leistner, citando Meghan Bissett, uma plantadora de árvores. Leistner estima ter plantado mais de 5 mil árvores, quando tinha 20 anos, entre 1983 e 1994. “É uma mistura de desporto de alta intensidade com trabalho industrial qualificado. Para além do desgaste físico – todas as pessoas estão em agonia – também é muito penalizador em termos emocionais. O isolamento é um desafio enorme. Passar dias inteiros sozinhos com os nossos pensamentos pode ser perigoso. É algo que nos pode quebrar, mas também pode ter o poder de nos transformar.”

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Leistner esteve entre os milhares de jovens que passam o verão a plantar árvores no Canadá, onde são plantadas todos os anos cerca de 500 milhões de árvores, mais de metade na Colúmbia Britânica e em Alberta. No Canadá, as empresas madeireiras colhem grandes trilhos de floresta para polpa de madeira e materiais de construção. Quase 90% da floresta do Canadá é propriedade pública e a lei exige a sua replantação devido a preocupações de sustentabilidade relacionadas com a colheita agressiva. Por isso, todos os anos, durante o verão, milhares de jovens espalham-se pelo Canadá para restaurar as árvores e minimizar o ritmo de desflorestação. Os críticos questionam o impacto da plantação de árvores no ambiente e debatem a eficácia destes esforços de restabelecimento.

Para Leistner, a plantação de árvores foi um caminho para o fotojornalismo. Ela passou os últimos 20 anos a fazer a cobertura de conflitos pelo mundo, com um foco no Médio Oriente. “Quando as pessoas me perguntam como me preparei para esta profissão perigosa, eu digo sempre ‘plantação de árvores’. E ficam sempre surpreendidas, pois não sabem o que este trabalho envolve na realidade.”

Essa desconexão, um sentimento de endividamento pessoal e o desejo de tocar nas tensões em jogo na indústria madeireira levaram-na a regressar a um dos seus primeiros empregadores, a Coast Range Contracting, em 2015, mas desta vez como fotógrafa. Usando uma câmara com um obturador de formato de folha médio e um flash de alta velocidade, transportado por um assistente, Leistner começou a fazer retratos de ação real da nova geração de plantadores de árvores, elevando-os ao patamar de heróis.

As imagens, extremamente iluminadas e de alto contraste, fazem lembrar os dioramas que se encontram geralmente em museus de história natural, destacando o papel destes trabalhadores no ecossistema florestal. Subcontratados pelas empresas madeireiras responsáveis pela devastação dos terrenos, ou por governos federais e das províncias, cujas politicas determinam a magnitude da extração, os plantadores de árvores estão intrinsecamente ligados à indústria que tentam mitigar com o seu trabalho árduo. E apesar de trabalharem a um ritmo alucinante, não parecem conseguir acompanhar o ritmo com que as árvores são derrubadas. O movimento dos trabalhadores, congelado nas imagens captadas por Leistner, reforça a sensação de que estes “guerreiros da terra, deuses e deusas do pó” – como ela lhes chama devido à sua resistência impressionante e ao valor ambiental do seu trabalho – estão a lutar contra o tempo.

As mãos de Maeve O’Neill Sanger, em Wonowon, na Colúmbia Britânica. Os plantadores de árvores preferem não usar luvas porque estas abrandam o seu trabalho. Todos os trabalhadores usam um relógio para cronometrar o tempo que demoram a plantar cada saco (um saco consiste na maior quantidade de árvores que conseguem transportar de uma só vez, e pode demorar entre 45 a 120 minutos a plantar).

Apesar da tecnologia poder ajudar a acelerar o processo de restauração, a plantadora de árvores, agora fotógrafa, pondera as implicações de um processo automatizado. Por um lado, esse processo pode fazer com as novas florestas estejam prontas para cortar mais depressa, alimentando o consumo crescente. Por outro, distancia cada vez mais as pessoas das realidades da indústria madeireira.

“Ninguém passa mais tempo nas áreas de corte que os plantadores de árvores, nem mesmo os madeireiros que estão sempre a entrar e a sair das suas máquinas. Eles são testemunhas da destruição e sabem exatamente quais os esforços necessários para a reverter”, diz Leistner. Esta noção da realidade, acredita ela, molda a posição destes trabalhadores em relação às políticas ambientais. Ela refere que uma das representantes de Vancouver no parlamento canadiano, Joyce Murray, e o embaixador canadiano na Colúmbia Britânica – uma província que enfrenta desflorestação em grande escala – são antigos plantadores de árvores. Ambos defendem alterações na gestão da floresta.

“É uma experiência difícil de descrever por palavras. É extremamente meditativa, e uma oportunidade para estarmos em comunhão connosco e com a natureza, e para criar laços profundos com os outros membros da equipa através das dificuldades”, descreve Leistner. “Mas também é devastador. Choramos muito. Ainda assim, ao final do dia, conseguimos ver que fizemos algo tangível. E regressamos no ano seguinte, determinados a plantar ainda mais árvores.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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