‘Zona Morta’ de 20.000 Km2 Pode Ser Uma das Maiores do Golfo do México

As chuvas que atingiram níveis recorde na zona Centro-Oeste dos EUA escoaram toneladas de fertilizantes e águas de esgotos para o mar, contribuindo para o aparecimento de uma mancha devastadora de poluição, afirmam os cientistas.Wednesday, June 19, 2019

Por Sarah Gibbens
Visto de cima, o rio Mississippi transporta sedimentos para o Golfo do México. Estes sedimentos contêm geralmente poluentes de fertilizantes que provocam um aumento na proliferação de algas.

Perto da costa do Louisiana e do Texas, onde o rio Mississippi desagua, o oceano está a morrer. O evento cíclico conhecido como zona morta acontece todos os anos, mas os cientistas preveem que este ano possa ser um dos piores de que há registo.

As chuvas anuais da primavera escoam os nutrientes usados em fertilizantes e em esgotos para o Mississippi. A água doce, menos densa que a água do mar, fica na superfície do oceano, impedindo a mistura de oxigénio na coluna de água. Eventualmente, os nutrientes presentes na água doce estimulam uma explosão no crescimento de algas, consumindo oxigénio com a decomposição de plantas.

A mancha daí resultante, de águas com baixo teor de oxigénio, origina uma condição chamada hipoxia, sufocando e matando os animais nessa zona. Este ano, os cientistas estimam que a zona morta no Golfo do México pode atingir, mais ou menos, 20.000 km quadrados ao longo da plataforma continental na costa.

Sufocar um ecossistema
"Quando o oxigénio tem níveis inferiores a duas partes por milhão, qualquer camarão, caranguejo ou peixe que consiga nadar para longe, vai nadar para longe", diz Nancy Rabalais, ecologista marinha na Universidade Estadual do Louisiana. “Os animais nos sedimentos (que não conseguem nadar para longe) podem estar perto da aniquilação.”

Os animais como os camarões, que costumam procurar oxigénio em águas de pouca profundidade mais perto da costa, quando são submetidos a águas hipóxicas são mais pequenos, o seu crescimento é perturbado pela poluição.

Um estudo publicado em 2017 observou a forma como a zona morta afeta os camaroeiros da costa do golfo, reduzindo o preço do camarão e o lucro das empresas locais.

As zonas mortas não são exclusivas do Golfo do México, embora a do golfo seja considerada a segunda maior do planeta. Na maior zona morta do mundo, no Mar Báltico, os baixos níveis de oxigénio devastaram as pescarias, e a maioria dos animais marinhos já não consegue sobreviver nessa área.

Desde o início do século XXI que as indústrias de caranguejo e de ostras, ao largo da Costa Oeste dos Estados Unidos, apresentam prejuízos, afirmando que a vaga anual de água no oceano com baixo teor de oxigénio destruiu muitos dos animais que normalmente se alimentam dos sedimentos.

Causas para a zona morta
Nancy Rabalais diz que não está particularmente surpreendida com o tamanho da zona morta deste ano. Nesta primavera, grande parte da região Centro-Oeste dos EUA testemunhou chuvadas sem precedentes, levando a um aumento enorme na quantidade de água escoada para o mar. Muitos agricultores foram severamente afetados pelas chuvas intensas e não conseguiram plantar culturas, como o milho e soja, o que significa que todos os fertilizantes ricos em nitrogénio e fósforo utilizados invadiram o Mississippi. Os cientistas preveem que um clima mais quente pode originar chuvas mais extremas na região e, em última análise, dificultar o controlo no escoamento de fertilizantes.

“A melhor forma de resolver esta questão é limitar os nutrientes na sua fonte”, diz Nancy. “Assim que eles chegam ao rio, não existem boas opções para os reduzir.”

Eugene Turner, também da Universidade Estadual do Louisiana, trabalhou com Nancy na previsão do tamanho da zona morta. Ele diz que uma gestão melhorada poderia reduzir o seu tamanho, e sugeriu manter a saúde do solo com a rotação de culturas, reduzindo a utilização de fertilizantes e usando coberturas agrícolas para manter o solo no lugar.

David Scheurer, cientista na Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA, estuda zonas mortas e salienta que é difícil atribuir o aumento de uma zona a apenas a uma prática, como o escoamento agrícola, mas sublinha que esta desempenha um papel significativo na sua formação. As águas dos esgotos e o clima também afetam o seu tamanho.

O diretor de relações parlamentares da Federação Americana de Departamentos Agrícolas, Don Parrish, diz que os agricultores já estão a adotar práticas para reduzir o escoamento de nutrientes. A agricultura de precisão e a inteligência artificial estão a ajudar os agricultores a reduzir a quantidade de fertilizantes que precisam de usar nas plantações. Mas os custos elevados e a curva de aprendizagem acentuada estão a dificultar a adoção de tecnologias sustentáveis por parte de todos os agricultores, acrescenta Don Parrish.

“Cientificamente, conseguimos reduzir o impacto mas, saber se o conseguimos fazer politicamente, ainda é um trabalho em desenvolvimento”, diz.

Alterações climáticas e zonas mortas
Os cientistas estão agora preocupados que as águas em aquecimento do Golfo do México possam aumentar as taxas de hipoxia.

“Esta é uma preocupação a longo prazo”, diz David Scheurer. “Se o clima se alterar nessa região, existem inúmeras provas que sugerem que as coisas podem piorar.”

Simplificando, as águas mais quentes têm menos oxigénio, e um estudo publicado no ano passado revelou extensões de água no oceano, com baixo teor de oxigénio, com milhares de quilómetros. Também se prevê que as alterações climáticas provoquem precipitações ainda mais intensas e inundações na região Centro-Oeste, contribuindo para um aumento na quantidade de fertilizantes químicos escoados para o oceano.

Contudo, tanto David Scheurer como Nancy Rabalais referem que é demasiado cedo para afirmar que a zona morta do golfo está a piorar devido às alterações climáticas.

Mas Nancy acredita que a zona morta pode piorar no futuro, prejudicando ainda mais o ecossistema.

“Recordam-se do derrame de petróleo da BP?”, pergunta. "Esta mudança lenta no sistema já acontece há décadas, mas as consequências são as mesmas".
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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