Meio Ambiente

Nova Poluição: Plásticos que Parecem Pedras

Nas praias do sul de Inglaterra, escondidos à vista de todos, estão pequenos pedaços de plástico cinzentos que parecem seixos.terça-feira, 27 de agosto de 2019

Por Madeleine Stone
Piroplásticos recolhidos nas praias da Cornualha.

Nas enseadas arenosas que se estendem pelo litoral sudoeste de Inglaterra, os amantes de praia podem encontrar uma enorme variedade de pedras, desde seixos minúsculos a pedras grandes. Estas pedras não aparentam ter nada de especial; têm vários tons de cinzento, com um salpico ocasional de cor, são lisas na superfície e arredondadas nos cantos.

Mas se pegarmos nelas, depressa nos apercebemos que não são pedras.

É piroplástico – uma forma recém-descrita de poluição por plásticos que foi transformada pelo fogo. Os próprios geólogos ficam frequentemente confundidos com a sua aparência. Andrew Turner, o cientista ambiental da Universidade de Plymouth que descreveu a substância – num artigo recente da Science of the Total Environment – sugere que os piroplásticos podem estar escondidos à vista de todos.

“Mas como parecem geológicos, passamos por milhares deles sem reparar”, diz Turner.

Pedras falsas
Turner descobriu esta estranha novidade na linhagem do lixo humano há vários anos, quando foi contactado por voluntários da Cornish Plastic Pollution Coalition, uma parceria de grupos que organiza limpezas nas praias do condado da Cornualha.

A pessoas começaram a encontrar versões estranhas de pedras – impostores de plástico que eram leves o suficiente para flutuar na água. Alguns voluntários, diz Turner, apanharam milhares. Rob Arnold, artista ambientalista que cresceu na Cornualha, chegou a criar uma exposição para um museu local que encarregava os seus visitantes de identificar as pedras reais no meio do plástico. Poucos o conseguiram fazer.

“Foi um grande sucesso, mas também foi um choque enorme”, diz Arnold. “As pessoas nem queriam acreditar que esta poluição existia e que nunca tinham dado por ela.”

Há cerca de um ano, Turner decidiu estudar este fenómeno de forma mais sistemática. Depois de fazer um apelo nas redes sociais, começou a receber amostras de vários sítios, desde a Escócia à Colúmbia Britânica. Mas a sua análise concentrou-se numa coleção de lixo reunida ao longo de Whitsand Bay, uma baía protegida que tem algumas das melhores praias da Cornualha. Depois de fazer algumas medições de tamanho e densidade, a sua equipa, recorrendo a espectroscopia e raios-X de infravermelhos, examinou a composição química dos plásticos.

A equipa descobriu que as “pedras” eram feitas de polietileno e polipropileno, duas das formas mais comuns de plástico. E também continham uma miscelânea de aditivos químicos, mas o que se destacou mais para os investigadores foi o chumbo, que aparecia frequentemente com crómio.

Turner acredita que são vestígios de cromato de chumbo – um composto adicionado há décadas pelos fabricantes ao plástico para obterem uma coloração amarela ou vermelha vibrante. Estas cores, diz Turner, foram provavelmente desvanecidas pelo fogo, uma ideia que a sua equipa testou: derreteram plásticos coloridos no laboratório. E claro, obtiveram plástico cinzento escuro.

A exposição à água e ao vento durante vários anos pode explicar a aparência lisa e desgastada dos piroplásticos.

“Se conseguirmos imaginar a alteração geológica de um seixo, é um processo que demora centenas de milhares de anos”, diz Turner. “Penso que estamos a assistir ao mesmo processo com os plásticos, mas com uma velocidade muito mais acentuada.”

Origem duvidosa e futuro incerto
A origem dos piroplásticos da Cornualha ainda é um mistério. Turner suspeita que podem existir muitas fontes, desde fogueiras – que no Havai foram implicadas na formação de um híbrido de plástico-rocha chamado plastiglomerado – a aterros antigos. Parte do material pode ter atravessado o Canal da Mancha vindo da ilha de Sark – onde relatos recentes revelam que o lixo está a ser queimado e despejado no mar – ou pode até ter vindo das Caraíbas.

Independentemente disso, os piroplásticos estão agora no planeta e Turner questiona-se sobre o tipo de riscos ambientais que podem representar. Muitas das suas amostras continham vermes que pareciam ricos em chumbo, sugerindo que estas criaturas conseguem ingerir o plástico e podem estar a introduzir metais pesados na cadeia alimentar.

Turner partilhou algumas das suas amostras com um colega nos Estados Unidos que está a fazer análises adicionais. O objetivo é saber se também têm compostos orgânicos nocivos.

“Se queimarmos plástico num ambiente descontrolado, podemos gerar todos os tipos de substâncias prejudiciais.”

Para além dos efeitos ecológicos imediatos, o piroplástico destaca-se por ser mais um indicador da omnipresença do plástico no ambiente. Jan Zalasiewicz, professor de paleobiologia na Universidade de Leicester, coloca a possibilidade de este material poder deixar a sua impressão digital nos registos rochosos – prensada com vestígios de ossos de galinha e poeira radioativa do nosso período geológico fugaz.

Seja qual for o destino dos piroplásticos, para Jan Zalasiewicz parece evidente que os plásticos “se estão a integrar no ciclo geológico.”

 “E já parecem pedras”, afirma.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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