Cientistas Vão Estar Presos no Ártico Durante Um Ano

Centenas de pessoas fizeram intensivos treinos de preparação para uma expedição que visa descobrir o que significa, para todos nós, um Ártico em aquecimento.quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Por Sarah Gibbens
Fotografias Por Esther Horvath

Os cientistas vão enfrentar algumas das condições mais inóspitas da Terra: noite polar, escuridão completa, tempestades fortes e temperaturas que rondam os 10 graus negativos.

É por isso que Markus Rex, cientista atmosférico que lidera a expedição de 600 pessoas ao Ártico – a maior de sempre – pensou em tudo o que pode correr mal.

“Preparámo-nos para todos os cenários, incluindo perder a embarcação”, diz Rex, embora ele não acredite que isso possa acontecer.

A expedição de 135 milhões de euros, chamada MOSAiC (Observatório Multidisciplinar de Deriva para o Estudo do Clima no Ártico), vai ter a duração de um ano e envolve pessoas de 19 países diferentes.

Esta expedição será a mais longa da história feita ao Ártico e a primeira grande expedição numa região onde as alterações climáticas se estão a manifestar de forma mais acentuada do que em qualquer outro lugar na Terra.

O navio zarpou de Tromsø, na Noruega, no dia 20 de setembro, e vai posicionar-se no fluxo de deriva polar onde ficará a flutuar, preso no gelo durante um ano, no norte da Gronelândia. Grande parte da expedição será feita a bordo do quebra-gelo alemão, Polarstern, mas quatro embarcações quebra-gelo adicionais serão fornecidas pela Suécia, Rússia e China para levar periodicamente pessoas e mantimentos.

Os cientistas que participam na etapa noturna terão de fazer cuidadosamente as suas investigações. Ecologistas que estudam fitoplâncton e algas só podem usar lâmpadas vermelhas (a luz branca pode afetar os padrões sazonais). A expedição tem guardas que usam óculos de visão noturna para procurar ursos-polares. E os dias serão altamente estruturados para garantir que todas as pessoas a bordo do navio mantêm os seus ritmos fisiológicos.

Vale a pena trabalhar nestas condições inóspitas?
As temperaturas no Ártico estão a subir e este aquecimento não afeta apenas o gelo marinho.

“O Ártico é a zona onde grande parte do clima é feita”, diz Rex. “Compreender o Ártico ajuda-nos a compreender o clima extremo.”

O contraste entre o ar frio dos polos e o ar quente tropical ajuda a manter a circulação uniforme da corrente de jato polar no hemisfério norte. Quando esta diferença de temperatura diminui, a corrente de jato oscila, fazendo com que uma massa de ar frio, chamada vórtice polar, consiga enviar rajadas de ar frio invernal para sul.

Os peritos dizem que esta oscilação na corrente de jato é parcialmente responsável pela vaga de frio que assolou algumas regiões dos EUA no inverno passado – regiões que registaram temperaturas abaixo das verificadas no Ártico. A investigação também correlacionou o fluxo de jato mais fraco com o aumento das vagas de calor e inundações.

"Em última análise, todo o projeto visa melhorar os nossos modelos", diz Matthew Shupe, geocientista na Universidade do Colorado e no Laboratório de Pesquisa de Sistemas Terrestres da NOAA. "É por isso que enfrentamos estas condições. Acredito que vamos aprender muitas coisas sobre os processos físicos, e isso pode ajudar-nos a melhorar as nossas capacidades preditivas.”

Shupe visita o Ártico uma vez por ano desde 2009, depois de ter feito uma expedição de 6 semanas à região em 2008 onde ficou com a sensação de que o tempo que tinha disponível para conduzir as suas investigações era demasiado curto.

“Quando chegávamos, eu não fazia ideia de onde vinha o gelo, nem para onde ia quando partíamos”, diz.

No mínimo, era preciso um ano, concordaram Shupe e outros investigadores do Ártico. Um ano de análises feitas com precisão e a observação das mudanças sazonais pode fornecer os dados brutos necessários para criar o tipo de modelo climático que, à medida que a zona polar aquece, nos informa sobre o que pode acontecer.

Desta vez, Shupe vai observar nuvens.

"Existem todos os tipos de coisas maravilhosas nas nuvens do Ártico – os seus efeitos radiativos e efeitos na estimativa energética da superfície determinam coisas como o degelo e o congelamento do gelo marinho", diz.

“Vamos conseguir testemunhar todo o processo de evolução da cobertura de gelo”, diz Don Perovich, físico especializado em gelo marinho na Faculdade de Dartmouth, nos EUA, que se vai juntar à expedição em finais de maio, durante a quinta etapa do projeto MOSAiC.

Perovich quer saber o que acontece ao calor absorvido pelo oceano. Será que derrete o ventre do gelo? As laterais? Ou talvez fique retido no oceano, onde pode afetar a formação de gelo do ano seguinte, criando um ciclo de resposta positivo que acelera o aquecimento.

“Esta foi uma questão colocada por mim em 1983, quando escrevi a minha tese de doutoramento, ou seja, já ando a pensar nisto há muito tempo.”

Como se preparou a equipa?
Fazer investigações no gelo é fisicamente exigente e, em caso de emergência, dentro ou fora do navio, o resgate dos passageiros pode demorar dias. É por isso que muitas das pessoas que embarcaram no Polarstern tiveram de passar por um rigoroso programa de treino. Esta formação inclui o combate a incêndios, simulações de evacuações em navios e o disparo de armas, caso sejam atacados por ursos-polares.

“Os ursos-polares não são uma novidade para mim”, diz Honold, guarda de ursos-polares durante a primeira etapa da viagem.

Honold serviu nas Forças Armadas alemãs e mais tarde fez uma especialização para ser guia polar e guia de montanha. Honold acredita que a noite polar pode ser um desafio psicológico, mas também refere que o longo período longe de casa não é uma novidade.

Em todas as estações de investigação no gelo, Honold e a sua equipa vão construir um perímetro superior a 3 km. Depois, Honold vai ficar numa torre de vigia, com óculos de visão noturna, a examinar o horizonte. Se avistar um urso, a equipa deve regressar imediatamente ao navio. Se não tiverem tempo para regressar, o navio começa a tocar o apito para tentar assustar o urso.

Uma pistola de sinalização não letal e gás pimenta serão utilizados como medidas de dissuasão, antes do último recurso que são as armas de fogo, algo que, enfatiza Honold, ninguém quer ver.

“Com um urso-polar, tudo é possível”, diz. “Alguns são perigosos, mas na sua maioria são apenas curiosos e querem saber o que se está a passar – e ver se conseguem comer alguma coisa.”

Os outros desafios que podem surgir durante a expedição englobam a partilha de espaços confinados com desconhecidos e o tempo longe da família e amigos.

"Não temos um psicólogo a bordo, mas os líderes da expedição têm alguma experiência a lidar com situações de stress e com pessoas próximas de um episódio de crise", diz Rex. "Todos sabemos que dependemos uns dos outros."

"Um incêndio a bordo é o pior que pode acontecer", diz o comandante Stefan Schwarze. O treino de combate a incêndios é essencial para todos no Polarstern. Este treino é fisicamente exigente, sendo por isso necessária uma avaliação médica para se poder entrar na formação. Para a fotógrafa Esther Horvath, o combate a incêndios foi a parte mais difícil do treino que fez para embarcar no Polarstern: "Eu senti que ia desmaiar e entrar em colapso".
Fotografia de Esther Horvath, National Geographic
Esquerda: Susanne Spahic (à esquerda) e Till Dürrenberger, com fatos completos de combate a incêndios, treinam o resgate de uma pessoa na proa de um navio, cercados de fumo denso. Os formandos têm de descer dois andares, encontrar um manequim e transportá-lo para o convés do navio. Direita: Durante o treino, os participantes cobrem os seus rostos com uma máscara de plástico azul que simula a baixa visibilidade de um navio coberto pelo fumo das chamas. Durante a simulação, as temperaturas são muito elevadas, fazendo com que o resgate seja fisicamente desgastante.
Fotografia de ESTHER HORVATH, NATIONAL GEOGRAPHIC

O Polarstern também está equipado com uma sauna, piscina interior e um ginásio para passar os poucos tempos mortos.

Legado duradouro
Perovich compara a expedição MOSAiC a uma famosa viagem feita ao Ártico em 1896, liderada pelo explorador norueguês Fridtjof Nansen, que pretendia ser a primeira pessoa a chegar ao Polo Norte. Apesar de não ter conseguido atingir esse objetivo, o navio de Nansen flutuava na mesma corrente que agora leva o Polarstern.

100 anos depois desta corrida ao Polo Norte, o Ártico aqueceu significativamente. As investigações sugerem que o Ártico está a aquecer duas vezes mais depressa do que o resto do Hemisfério Norte.

"É a primeira grande experiência do Oceano Ártico no novo Oceano Ártico", diz Perovich.

“O nosso legado são os dados. Vamos recolher um número impressionante de dados que, esperamos nós, sejam usados durante as próximas décadas. Queremos prever o que vai acontecer. Mas, para fazermos isso, primeiro temos de observar o que está a acontecer neste momento e compreender o que está a impulsionar estas alterações."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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