Meio Ambiente

Poluição do Ar Ligada à Doença Bipolar e Depressão

Um novo estudo revela uma ligação entre a poluição e os problemas de saúde mental.segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Por Sarah Gibbens
Um homem a pescar junto a uma fábrica de carvão, em Detroit.

A poluição do ar tem efeitos massivos sobre a nossa saúde. A Organização Mundial de Saúde vincula a poluição a doenças mortais, como o cancro do pulmão e acidentes vasculares cerebrais. Agora, novas investigações sugerem que as regiões poluídas têm mais casos de perturbações do foro neurológico, como a doença bipolar e depressão.

Nos Estados Unidos, os cientistas descobriram que os municípios que tinham a pior qualidade do ar, conforme indicado pela Agência de Proteção Ambiental (EPA), tiveram um aumento de 27% em casos de doença bipolar e 6% em casos de depressão, quando comparados com a média nacional.

Andrey Rzhetsky, autor do estudo e geneticista na Universidade de Chicago, tem o cuidado de realçar que o estudo não prova em definitivo que a poluição do ar provoca doenças mentais. Mas o estudo revela os ambientes onde as pessoas podem estar mais expostas aos riscos.

Estudos semelhantes, feitos em Londres, na China e na Coreia do Sul, também encontraram uma ligação entre as zonas poluídas e os problemas de saúde mental.

Rzhetsky diz que o estudo mostra que as áreas mais poluídas dos EUA estão a afetar os casos de perturbações neurológicas.

Mapear a poluição
Os investigadores analisaram dados dos EUA e da Dinamarca para estabelecer uma ligação.
Nos EUA, analisaram 11 anos de dados de seguros de saúde de 151 milhões de pessoas que apresentaram pedidos para quatro perturbações do foro psiquiátrico: doença bipolar, depressão profunda, perturbações de personalidade e esquizofrenia. E também analisaram casos de epilepsia e Parkinson.

Depois, analisaram os dados da EPA sobre a qualidade do ar, da água e da terra, por município, e verificaram onde é que as indemnizações dos seguros e as taxas de poluição intensa se sobrepunham. A poluição do ar e a doença bipolar tiveram a maior sobreposição.

Para replicar os resultados dos EUA, os investigadores colaboraram com cientistas dinamarqueses, para estudar o efeito da poluição na Dinamarca. Ao contrário dos EUA, os dados dinamarqueses não analisavam os dados regionais, mas sim o tempo de exposição de um indivíduo à poluição do ar durante a infância. E tal como nos EUA, a exposição à poluição do ar foi associada a taxas mais elevadas de depressão e doença bipolar.

"Estas descobertas juntam-se a outras evidências já conhecidas, feitas em estudos anteriores, sobre uma possível ligação entre a poluição do ar e as perturbações mentais", diz Ioannis Bakolis, epidemiologista no King's College de Londres que não participou no estudo.

No entanto, Ioannis diz que a dependência do estudo em dados de todos os municípios também acaba por ter demasiadas variáveis, dificultando uma conclusão definitiva sobre o facto de a poluição do ar poder estar a influenciar os casos de doença bipolar e depressão.

Efeitos no corpo humano
Muito do que os cientistas sabem sobre a forma como a poluição do ar afeta o cérebro é baseado em estudos feitos em cães e roedores. Um desses estudos, realizado em 2002, observou os efeitos da poluição do trânsito em cães selvagens. Encontraram danos pulmonares, nasais e cerebrais.

"O que acontece no cérebro é algo parecido com uma inflamação", diz Rzhetsky. "Isto resulta em sintomas semelhantes a uma depressão [nos cães]."

Num estudo publicado em 2018, cientistas em Pequim descobriram que a inalação de matéria particulada diminuía a inteligência das pessoas, resultando em pontuações inferiores em testes verbais e de matemática.

Na altura, o autor do estudo, Xin Zhang, especulou que a poluição danificava a matéria branca no cérebro.

Cérebro na natureza
Atualmente, em Inglaterra, os cientistas estão a monitorizar a forma como a qualidade do ar da cidade pode estar a afetar 250 crianças. As crianças usam mochilas de monitorização do ar que analisam quando, e onde, estão mais expostas à poluição.

Os representantes da cidade dizem que estas informações ajudam a melhorar a saúde pública.

Rzhetsky também espera que os fatores de risco ambiental sejam seriamente analisados pelos profissionais de saúde mental que acompanham perturbações do foro neurológico.

Um ambiente limpo, para tratar estes distúrbios, seria uma espécie de “Santo Graal", diz.

Enquanto os cientistas tentam estabelecer um elo firme entre a poluição e os problemas de saúde mental, os benefícios psicológicos de estar em contacto com a natureza já estão bem estabelecidos: quando estamos na natureza – seja numa floresta imaculada ou num jardim – libertamos a tensão e fazemos um favor ao nosso cérebro.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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