Pneus: Poluidor Plástico que Passa Despercebido

Como os pneus são feitos de borracha e plástico naturais, é fácil perder a noção do mal que fazem aos nossos oceanos.quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Em 2014, o biólogo John Weinstein e os seus alunos de pós-graduação tinham como objetivo encontrar microplásticos – os pequenos pedaços de plástico degradado que agora se sabe estarem espalhados pelo ambiente.

A equipa estava sediada na faculdade militar The Citadel, em Charleston, na Carolina do Sul, onde Weinstein é professor. O trabalho, feito numa cidade costeira, podia revelar algumas evidências dos microplásticos que acabam no oceano. E claro, as amostras não paravam de surgir.

Muito do que a equipa recolheu vinha de fontes identificáveis, como sacos de plástico. Mas mais de metade das peças eram pretas, tubulares e microscópicas, sem uma origem óbvia.

“Eram alongadas, pareciam cigarros”, diz Weinstein. “Era um mistério.”

No porto de Charleston, Weinstein e os seus alunos tentaram encontrar itens comuns de plástico preto – como redes de pesca – para fazer uma comparação. Mas não encontraram correspondências. Depois, encontraram plásticos muito semelhantes, em forma de cigarro, num canal mesmo à saída de uma estrada principal. Foi aí que perceberam o que tinham em mãos: pedaços minúsculos de pneus dos carros.

“Foi uma surpresa”, diz Weinstein. “Geralmente não encontramos coisas que não estamos à procura.”

Os Plásticos Explicados Em Minutos

Mas esta descoberta não é tão chocante como se pode pensar. Na verdade, os pneus estão entre os poluidores de plástico mais comuns do mundo. Em 2017, um estudo feito por Pieter Jan Kole, da Universidade Aberta da Holanda, publicado na International Journal of Environmental Research and Public Health, estimava que os pneus representam até 10% do total dos resíduos microplásticos nos oceanos. E um relatório de 2017 da União Internacional para a Conservação da Natureza colocou esse número nos 28%.

"O desgaste dos pneus é uma fonte invisível de microplásticos no ambiente", escreveu Pieter Kole e os seus coautores. "Mas esta noção passa despercebida e atualmente não temos alternativas para os pneus."

Os pneus são feitos de quê?
Durante milhares de anos, as rodas eram feitas de pedra ou madeira – não precisavam de uma cobertura. Eventualmente, foram revestidas com couro para suavizar as viagens, seguido mais tarde por iterações de borracha sólida. Os carros foram inventados em finais do século XIX e os pneus pneumáticos – ou cheios de ar – surgiram pouco tempo depois.

Naquela altura, a borracha dos pneus vinha principalmente das seringueiras – cujo cultivo contribuiu para a desflorestação em massa no mundo inteiro. Contudo, no início do século XX, com o preço dos automóveis a descer e os veículos a tornarem-se cada vez mais comuns, o mundo precisava de muito mais borracha. Em 1909, o químico alemão Fritz Hofmann, que trabalhava na empresa alemã Bayer, inventou a primeira borracha sintética comercial. E em menos de um ano esta borracha estava nos pneus dos carros. Em 1931, a fábrica de produtos químicos norte-americana DuPont industrializou o fabrico de borracha sintética.

Atualmente, os pneus têm cerca de 19% de borracha natural e 24% de borracha sintética, que é um polímero plástico. O restante é constituído por metal e por outros compostos. A produção de pneus ainda acarreta impactos ambientais monumentais, desde a desflorestação contínua aos combustíveis fósseis que são usados no fabrico das borrachas sintéticas e no processo de montagem – com impactos climáticos. Os pneus dos automóveis modernos exigem cerca de 27 litros de petróleo para fazer, enquanto que os pneus dos camiões precisam de 83 litros.

Mas também se está a revelar cada vez mais evidente que, à medida que a borracha se desgasta, os pneus projetam pequenos polímeros de plástico que acabam frequentemente como poluentes nos oceanos e nos cursos de água.

“Os pneus”, diz João Sousa, que estuda plásticos marinhos na União Internacional para a Conservação da Natureza, “têm uma classificação realmente alta em termos de contribuição para o problema dos microplásticos”.

Os fabricantes de pneus Goodyear, Michelin e Bridgestone fazem-se representar pelo The Tire Industry Project, um grupo de investigação apoiado pela indústria e que conta com 11 dos principais fabricantes de pneus como membros.

"Não existe uma definição globalmente aceite para os microplásticos", escreve por email Gavin Whitmore, representante do Tire Industry Project. Segundo os estudos de Whitmore, “é improvável que as partículas do desgaste dos pneus tenham impactos negativos na saúde humana e no ambiente".

Como é que se degradam?
Os padrões de rodagem dos pneus ajudam a determinar a aderência de um veículo à estrada, para além das manobras e travagens. Mas uma aderência maior também pode significar mais atrito. E enquanto conduzimos, a abrasão faz com que alguns dos pedaços dos nossos pneus se degradem.

Um relatório de 2013 da Tire Steward Manitoba, no Canadá, descobriu que os pneus dos camiões perdem quase 1.5 quilos de borracha durante a sua vida útil (6.33 anos em média). O estudo de Pieter Kole descobriu que os americanos produzem o maior desgaste per capita de pneus e estima que, no geral, só nos EUA, os pneus produzem cerca de 1.8 milhões de toneladas de microplásticos por ano.

Saber a quantidade exata de resíduos que acaba nos cursos de água depende de muitos fatores, diz Sousa, variando desde a localização da estrada ao clima. A chuva, por exemplo, pode fazer com que mais partículas fluam para o ambiente. A investigação sobre o tema é relativamente recente, diz João Sousa, pelo que as estimativas podem melhorar com o avanço dos trabalhos. Mas com milhões de veículos a viajar pelas estradas todos os dias, Sousa diz que "conseguimos ter uma ideia bastante sombria da quantidade de partículas libertadas pelos pneus".

Assim que as partículas dos pneus entram nos rios ou oceanos, têm efeitos visíveis na vida marinha. John Weinstein expôs camarões a partículas de pneus em ambiente de laboratório e descobriu que os animais comiam as partículas, e que também ficavam presas nas guelras. Uma vez ingeridas, as partículas acumulam-se nas entranhas dos camarões.

“Eles não morrem de imediato”, diz Weinstein. “Existem efeitos crónicos a longo prazo que ainda não foram realmente estudados.”

Fim da estrada
E também sabemos o que acontece aos pneus quando atingem o seu tempo de vida útil – designação dada pelos fabricantes de pneus – e precisam de ser descartados.

O destino dos pneus usados é, de várias perspetivas, positivo. Por exemplo, a reciclagem de resíduos de pneus em produtos para parques infantis, campos desportivos e materiais de construção aumentou drasticamente ao longo dos anos. A Associação de Fabricantes de Pneus dos EUA (USTMA) diz que a reutilização de pneus passou de 11%, em 1990, para 81%, em 2017.

Mas esse número também tem um senão: inclui o que é chamado de combustível derivado de pneus (TDF) – queima de pneus para produzir energia.

De acordo com Reto Gieré, cientista ambiental na Universidade da Pensilvânia, se os pneus forem queimados em instalações projetadas especificamente para essa tarefa, é um processo que pode ser feito de uma forma bastante limpa, para além de ser uma boa maneira de recuperar energia. Mas os pneus, diz Reto, também contêm altos níveis de potenciais poluentes, como o zinco e o cloro, por isso, se forem queimados em instalações de combustível misto ou sem as devidas salvaguardas, temos um problema enorme.

Os pneus que não são reciclados ou queimados acabam em aterros sanitários – cerca de 16% – de acordo com um relatório da USTMA de 2018. Entre 2013 e 2017, a quantidade de pneus descartados em aterros quase que duplicou. John Sheerin, da USTMA, disse à revista Recycling Today que, com a demanda pelos combustíveis derivados de pneus em declínio, podemos ter mais pneus a caminho dos aterros.

Conseguimos fazer melhor?
Os pneus não sofreram grandes reformulações de design durante décadas, mas recentemente houve um esforço para desenvolver opções mais sustentáveis. Por exemplo, em 2017, investigadores liderados pela Universidade do Minnesota encontraram uma maneira de produzir isopreno, um ingrediente-chave da borracha sintética, a partir de fontes naturais, como ervas, árvores e milho, em vez de combustíveis fósseis. No ano passado, a Goodyear revelou um pneu conceitual feito de borracha reciclada com musgo, projetado para absorver dióxido de carbono enquanto anda na estrada.

Ainda assim, os pedaços destes novos pneus também podem acabar no ambiente. A redução no desgaste dos pneus, diz o estudo de Pieter Kole, provavelmente teria outros custos nas métricas de desempenho, como o atrito na rodagem, algo que pode ser difícil de aceitar por parte dos fabricantes.

“Não tenho conhecimento da existência de uma nova tecnologia para combater o desgaste dos pneus”, diz Weinstein.

Mas existem outras formas menos diretas para combater o problema. As superfícies das estradas, sugere Weinstein, podiam ser menos abrasivas ou mais porosas para reduzir ou ajudar a recolher as partículas do desgaste dos pneus. Weinstein também acredita que existe espaço para melhorar a tecnologia e para recolher o escoamento das partículas dos pneus nas estradas – uma ideia que está atualmente a ser testada por Weinstein em parceira com uma cidade perto de Charleston.

Contudo, de um modo geral, o mais urgente é sensibilizar o público e aumentar as investigações científicas.

“Precisamos de mais estudos. Eu acho que grande parte das pessoas não tem a noção de que isto está acontecer.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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