Quanto Vale Uma Baleia?

De acordo com os economistas, os benefícios oferecidos pelas grandes baleias, que incluem a captura de carbono, marcam uma posição muito forte na sua proteção.quinta-feira, 10 de outubro de 2019

As maiores baleias do mundo são muito mais do que maravilhas evolucionárias. Com a sua retenção de carbono no oceano, podem ajudar a humanidade a combater as alterações climáticas – um serviço ecossistémico que pode valer milhões de euros por baleia, de acordo com uma nova análise feita pelos economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Proteger animais colossais e carismáticos como as baleias é frequentemente encarado como uma espécie de trabalho de caridade que indivíduos e governos fazem em nome da natureza. Mas uma equipa de economistas liderada por Ralph Chami, diretor-assistente no Instituto de Desenvolvimento de Capacidades do FMI, queria mudar a forma como olhamos para as baleias, quantificando os benefícios que estes animais nos proporcionam em termos monetários. A nova análise da equipa, detalhada num artigo da publicação comercial Finance & Development, é uma tentativa inédita para fazer exatamente isso.

A análise ainda não foi publicada sob a forma de artigo científico revisto por pares e ainda existem lacunas importantes no conhecimento da ciência sobre a quantidade de carbono capturado pelas baleias. Mas, com base nas investigações que foram feitas até agora, os economistas acreditam que, se protegermos as grandes baleias, podemos colher enormes dividendos para o planeta.

“Temos de reconhecer que as baleias são um bem público internacional”, diz Ralph.

O Que os Cachalotes nos Podem Ensinar Sobre a Humanidade

Escoador natural de carbono
As grandes baleias, incluindo o que alimenta as baleias e os cachalotes, ajudam a capturar carbono de algumas maneiras. As baleias armazenam-no nos seus corpos gordurosos e ricos em proteínas, acumulando toneladas de carbono como se fossem árvores gigantes. Quando uma baleia morre e o seu corpo desce até ao fundo do oceano, o carbono armazenado é retirado do ciclo atmosférico durante centenas a milhares de anos – literalmente um escoador de carbono.

Um estudo publicado em 2010 estimava que 8 tipos de baleias, incluindo baleias-azuis, baleias-jubarte e baleias-de-minke, levam coletivamente quase 30.000 toneladas de carbono para o fundo do mar todos os anos, à medida que as suas carcaças se afundam. Se as grandes populações de baleias conseguissem recuperar até aos níveis pré-comerciais, antes da pesca à baleia, os autores do estudo estimam que este escoador de carbono poderia aumentar até às 160.000 toneladas por ano.

Enquanto estão vivas, as baleias conseguem fazer ainda mais para capturar carbono, graças aos seus excrementos de proporções avolumadas. As grandes baleias alimentam-se nas profundezas do oceano de organismos marinhos minúsculos como plâncton e krill, antes de emergirem para respirar e fazer as suas necessidades fisiológicas – sendo que estas últimas libertam uma enorme quantidade de nutrientes na água, incluindo nitrogénio, fósforo e ferro. Os chamados poo-namis estimulam o crescimento de fitoplâncton – algas marinhas que retiram carbono do ar através da fotossíntese.

Quando o fitoplâncton morre, grande parte do carbono é reciclado na superfície do oceano. Mas parte do fitoplâncton morto acaba inevitavelmente por se afundar, enviando mais carbono aprisionado para o fundo do mar. Outro estudo de 2010 descobriu que os 12.000 cachalotes no Oceano Antártico extraem 200.000 toneladas de carbono da atmosfera todos os anos, estimulando o crescimento e a morte do fitoplâncton através das suas defecações ricas em ferro.

De acordo com Joe Roman, biólogo de conservação na Universidade de Vermont que estuda este fenómeno há vários anos, não se sabe exatamente até que ponto os excrementos de baleia estimulam o fitoplâncton a uma escala global. É por esta razão que os economistas adotaram o que Ralph chama de abordagem "se, então". Ou seja, questionaram a quantidade de carbono hipoteticamente passível de ser capturada caso a população atual de grandes baleias aumentasse o fitoplâncton marinho em cerca de 1% em todo o planeta. Para este cálculo, acrescentaram uma estimativa baseada na quantidade de dióxido de carbono retido pelas baleias quando morrem: cerca de 33 toneladas por carcaça, em média.

Recorrendo aos preços atuais de mercado do dióxido de carbono, os economistas calcularam o valor monetário total desta captura de carbono e adicionaram-na a outros benefícios económicos proporcionados pelos animais através de atividades como o ecoturismo.

No total, a equipa de Ralph Chami estima que cada um destes gigantes carinhosos vale cerca de 2 milhões de euros ao longo da vida. E quanto vale toda a população global de grandes baleias? Para a humanidade, possivelmente um bilião de euros.

Não é uma solução, é uma nova mentalidade
Atualmente existem cerca de 1.3 milhões de grandes baleias nos oceanos da Terra. Se conseguíssemos restaurar a espécie até aos seus números pré-baleeiros – estimados entre os 4 e os 5 milhões – os cálculos dos economistas mostram que as baleias conseguiriam capturar cerca de 1.7 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono todos anos. São valores superiores às emissões anuais de carbono do Brasil.

Porém, é uma percentagem pequena quando comparada com as 40 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono libertadas na atmosfera pela humanidade todos os anos. E mesmo com esforços agressivos de conservação global, é um processo que pode demorar décadas até que as grandes baleias atinjam o número desejado, supondo que é sequer possível, sobretudo se levarmos em consideração o estado em que colocámos os oceanos.

"Não queremos exagerar o conceito", disse Steven Lutz, líder do Programa Carbono Azul da GRID-Arendal, uma fundação norueguesa que trabalha com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. "Mesmo protegendo as baleias, não salvamos o clima.”

Para Steven Lutz, os números exatos apresentados nesta nova análise são menos significativos do que a estrutura que introduz e que exige encarar os animais selvagens em termos de valor enquanto estão vivos. Steven gostava de ver este tipo de abordagem aplicada aos ecossistemas marinhos ricos em carbono, como os leitos de ervas marinhas, e a outros grupos de organismos marinhos, como os peixes.

“No que ao carbono marinho diz respeito, olhamos para o carbono das baleias como uma possível ponta do icebergue”, diz Steven.

Talvez seja possível expandir esta abordagem focada nos benefícios financeiros aos animais terrestres. Por exemplo, um estudo publicado recentemente na Nature Geoscience estima que os elefantes na Bacia do Congo ajudam as suas florestas a capturar milhares de milhões de toneladas de carbono.

Fabio Berzaghi, investigador no Laboratório de Ciências Climáticas e Ambientais de França e autor principal do estudo, disse que “a análise do FMI levanta um ponto extremamente importante sobre os grandes animais: os seus serviços ecossistémicos beneficiam todos nós".

“Creio que é um bom primeiro passo reconhecermos que as baleias oferecem serviços e que estes serviços valem alguma coisa. Potencialmente, valem muito dinheiro.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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