Alterações Climáticas: Planeta Pode Estar Perto do Ponto de Inflexão

Os cientistas dizem que as pessoas não têm noção do pouco tempo que resta para impedir mudanças desastrosas e irreversíveis nos sistemas climáticos da Terra. Mas ainda há esperança.quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

A evidência de que estão a acontecer alterações irreversíveis nos sistemas climáticos da Terra significa que estamos a viver num estado de emergência planetária, alertam os principais cientistas do clima. Segundo os mesmos especialistas, a existência de vários pontos de inflexão pode culminar num ponto de inflexão global, onde vários sistemas terrestres atingem o ponto de não retorno.

Esta possibilidade é "uma ameaça existencial à civilização", escreveu Tim Lenton e os seus colaboradores na revista Nature.

O colapso dos sistemas da Terra pode levar a condições de "estufa" – com um aumento da temperatura global de 5 graus Celsius, uma subida do nível do mar a rondar os 6 e os 9 metros, juntamente com a perda completa dos recifes de coral de todo o mundo e da floresta Amazónica – deixando áreas enormes do planeta inabitáveis.

Os cientistas apelam a uma resposta de emergência global para limitar o aquecimento aos 1.5 graus. "A estabilidade e a resiliência do nosso planeta estão em perigo", afirmam.

"É um choque tremendo saber que os pontos de inflexão, que julgávamos que podiam acontecer no futuro, já estão em andamento", disse Tim Lenton em entrevista.

Por exemplo, o colapso lento da camada de gelo da Antártida Ocidental. Os dados mais recentes mostram que pode estar a acontecer o mesmo com parte da camada de gelo da Antártida Oriental, diz Tim Lenton, cientista climático na Universidade de Exeter, no sudoeste de Inglaterra. Se ambas as camadas derreterem, podem subir o nível do mar em 7 metros durante os próximos 100 anos.

“Exeter, onde estou, foi fundada pelos romanos há 1900 anos. Provavelmente estará debaixo de água daqui a 1500 anos. Não podemos subestimar o legado que vamos deixar às gerações vindouras, não importa o quão distantes estejam no futuro."

As camadas de gelo da Antártida Ocidental e Oriental são apenas 2 dos 9 pontos de inflexão – ou gigantes do sistema climático – que mostram sinais evidentes de estarem a atingir o ponto de não retorno. (Veja uma animação dos 9 pontos de inflexão.)

Da teoria para a realidade
A ideia dos pontos de inflexão foi introduzida há 20 anos pelo Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC). A perda do manto de gelo da Antártida Ocidental, a perda da floresta amazónica, ou o extenso degelo do pergelissolo, para além de outros componentes-chave do sistema climático, são considerados "pontos de inflexão" porque podem atravessar limites críticos e alterarem-se de forma abrupta e irreversível. Tal como uma árvore com 200 anos consegue permanecer de pé depois de sustentar 20 golpes de um machado afiado, o 21º golpe pode subitamente derrubá-la.

Os especialistas pensavam que os pontos de inflexão só eram ativados quando o aquecimento global fosse superior aos 5 graus Celsius. Mas os relatórios apresentados o ano passado pelo IPCC alertam que os pontos podem ter origem com aumentos de apenas 1 ou 2 graus. Todos as subidas incrementais de temperatura aumentam o risco de ativar um dos 30 principais pontos de inflexão. Atualmente, com apenas 1 grau de aquecimento, acredita-se que 9 destes pontos estejam a começar a soar o alarme. Tal como na árvore metafórica com 200 anos, ninguém sabe se o próximo golpe do machado – ou subida incremental – vai ser fatal.

Mesmo que os países cumpram as suas promessas do acordo climático de Paris, coisa que não está a acontecer, o aquecimento pode subir mais de 3 graus.

As emissões globais de carbono, que têm aumentado anualmente, precisam de cair 7.6% por ano, a partir de agora, até 2030, para manter o aquecimento próximo dos 1.5 graus – de acordo com um relatório da ONU divulgado no dia 26 de novembro.

O clima e os sistemas ecológicos da Terra estão profundamente interligados – alimentados pela energia térmica do sol, a atmosfera, os oceanos, os mantos de gelo, os organismos vivos como florestas e o solo afetam, em maior ou menor grau, o movimento deste calor em torno da superfície da Terra. As interações entre os elementos do nosso sistema climático global significam que uma mudança substancial feita num dos elementos pode afetar todos os outros. Quando a árvore de 200 anos cai após o 21º golpe, pode colidir com outras árvores, derrubando-as com um efeito dominó.

Mudanças Climáticas 101 com Bill Nye

O que acontece se o Ártico desaparecer?
Os cientistas alertam que isto pode estar a acontecer no sistema climático: os diferentes pontos de inflexão estão lentamente a começar a colidir entre si. Por exemplo, a perda de gelo marinho no Ártico – que aconteceu durante os verões dos últimos 40 anos – significa que existe mais água a absorver calor e menos 40% de gelo a refletir calor. Este processo aumenta o aquecimento regional no Ártico, levando ao aumento do degelo do seu pergelissolo, libertando mais dióxido de carbono e metano na atmosfera, aumentando consequentemente o aquecimento global.

O aquecimento do Ártico já provocou enormes distúrbios em insetos e levou ao aumento de incêndios, originando o declínio das florestas boreais da América do Norte. Estas florestas podem agora estar a libertar mais carbono do que absorvem.

Os sistemas profundamente interligados podem ter impactos a uma escala planetária. O aquecimento do Ártico, juntamente com o degelo da camada da Gronelândia, está a escoar água para o Atlântico Norte, algo que pode ter contribuído para a recente desaceleração de 15% na Circulação Meridional do Atlântico (AMOC). Estas correntes oceânicas transportam calor vindo dos trópicos e são responsáveis pelo calor relativo que se sente no Hemisfério Norte.

É possível que muitos dos pontos de inflexão sejam eventos que acontecem em câmara lenta, como o colapso das camadas de gelo da Antártida que se pode prolongar durantes centenas ou até milhares de anos, diz Glen Peters, diretor de pesquisa no Centro Internacional do Clima, na Noruega.

"Não sabemos quando é que grande parte dos pontos de inflexão se vai ativar", diz Peters.

Emergência climática planetária
É importante salientar que as temperaturas globais não são apenas impulsionadas pelas emissões humanas de carbono, diz a coautora do estudo, Katherine Richardson, professora de oceanografia biológica na Universidade de Copenhaga. Os sistemas naturais da Terra, como as florestas, as regiões polares e os oceanos, também desempenham papéis importantes.

“Temos de lhes prestar atenção”, disse Katherine em entrevista.
 

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Já é tarde para impedir que alguns dos pontos de inflexão sejam ativados, dado que existem evidências de que pelo menos 9 já estão a decorrer, disse Katherine. O risco de acabarmos num ponto irreversível de inflexão global, com efeitos tremendos na civilização humana, devia ser o suficiente para se declarar uma emergência climática planetária.

Minimizar o risco requer manter o aquecimento global o mais próximo possível dos 1.5 graus, reduzindo as emissões de carbono a zero. Mas vamos demorar pelo menos 30 anos a alcançar a neutralidade de carbono, diz Richardson. "E esta é a nossa estimativa temporal mais otimista".

"Creio que as pessoas não têm noção do pouco tempo que resta", disse Owen Gaffney, analista de sustentabilidade global no Centro de Resiliência da Universidade de Estocolmo. "Podemos atingir os 1.5 graus dentro de uma década ou duas e, com apenas três décadas para atingir a descarbonização, é claramente uma situação de emergência”, diz Gaffney.

"Sem uma ação de emergência, os nossos filhos podem herdar um planeta perigosamente instável.”

Economias em primeiro lugar
Entretanto, um relatório divulgado recentemente pela ONU mostra que os Estados Unidos, a China, a Rússia, a Arábia Saudita, a Índia, o Canadá, a Austrália e outros países têm planos para aumentarem a sua produção de combustíveis fósseis em 120% até 2030. Foram estes mesmos governos que concordaram em manter o aquecimento global nos 1.5 graus ao abrigo do Acordo de Paris, mas parecem estar mais preocupados com o seu próprio crescimento económico.

Não será uma análise económica de custo-benefício que nos vai ajudar, sobretudo agora que enfrentamos uma ameaça existencial à civilização, escrevem Gaffney e os seus coautores. Os governos dependem muito do aconselhamento dos economistas, e salvo raras exceções, a economia têm afetado muito negativamente a humanidade, ignorando as alterações climáticas em todas as investigações e bolsas de estudos, diz Gaffney. “Os artigos e publicações das revistas de economia que debatem as alterações climáticas são muito poucos.”

Os riscos apresentados pelos pontos de inflexão não fazem parte de nenhuma análise económica sobre políticas de ação climática, reconhece Geoffrey Heal, economista na Columbia Business School, em Nova Iorque. "Se estas análises fossem incluídas, fariam uma enorme diferença... porque sugeriam que reforçássemos de forma colossal as nossas políticas climáticas", disse Geoffrey.

"Ultrapassar os pontos de inflexão... envolve um risco enorme em termos de ativos financeiros, estabilidade económica e na própria vida como a conhecemos atualmente", diz Stephanie Pfeifer, CEO do Grupo de Investidores Institucionais sobre Alterações Climáticas (IIGCC), um grupo de investidores que gere mais de 30 biliões de dólares em ativos. É significativamente mais barato prevenir o aquecimento global adicional do que enfrentar os seus impactos, diz Stephanie.

“Precisamos de ações mais amplas e urgentes para lidar com as alterações climáticas.”

Existe algo positivo
A descarbonização global acelerou desde 2010 e pode estar a caminho de manter o aquecimento global nos 2 graus, diz um novo relatório publicado na Environmental Research Letters. Apesar de as emissões gerais de carbono terem aumentado, a descarbonização manteve o aumento em níveis baixos e está pronta para acentuar o declínio das emissões.

“Os benefícios de uma descarbonização em grande escala, passando pela eficiência energética, juntamente com a energia solar e eólica, estão a possibilitar alcançar as metas climáticas de Paris, mas só se tomarmos ações agressivas em todos os setores da economia", disse Daniel Kammen, coautor do estudo e professor de energia na Universidade da Califórnia.

Também existem pontos sociais de inflexão, diz Gaffney, incluindo um ponto de inflexão económico onde o preço das energias renováveis está a cair abaixo do preço dos combustíveis fósseis, mercado atrás de mercado. “Os preços das energias renováveis continuam a cair e o seu desempenho a melhorar. É uma combinação imbatível.”

Há cada vez mais países, como o Reino Unido, que atingiram um ponto de inflexão política e adotaram metas líquidas de carbono zero até 2050. "Agora, existe a confiança de que é algo viável e acessível", disse Gaffney.

Nos Estados Unidos, os candidatos às eleições presidenciais de 2020 estão a anunciar planos ambiciosos de ação climática.

Gaffney diz que, “nos últimos 12 meses, parece que atingimos um ponto de inflexão muito abrangente em termos de consciência social – o efeito Greta Thunberg – com milhões de jovens grevistas e muitos outros que exigem ações climáticas urgentes”. Ao mesmo tempo, existem cada vez mais e mais empresas financeiras e cidades que estão a adotar as difíceis metas climáticas.

"Estes pontos de inflexão estão a convergir e podem fazer com que, na década de 2020, possamos assistir à transição económica mais rápida da história", diz Gaffney.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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