Furacões Estão a Perdurar Mais e a Ficar Mais Fortes em Terra

Um novo estudo verifica pela primeira vez como as alterações climáticas podem estar a tornar os furacões mais destrutivos, mesmo depois de atingirem terra.

Friday, November 13, 2020
Por Sarah Gibbens
Em 2018, o furacão Michael, visto aqui em tempestade de Categoria 4, provocou danos estimados em ...

Em 2018, o furacão Michael, visto aqui em tempestade de Categoria 4, provocou danos estimados em mais de 25 mil milhões de dólares. Um novo estudo descobriu que os furacões perduram agora mais tempo em terra, um efeito das alterações climáticas que pode provocar mais danos nas comunidades do interior.

Fotografia de NOAA

Os furacões podem estar a subsistir mais tempo depois de atingirem a costa e a provocar mais danos no interior, sugere um novo estudo – um efeito que ainda não tinha sido atribuído às alterações climáticas.

O estudo, publicado no dia 11 de novembro na revista Nature, analisou furacões que atingiram a América do Norte entre 1967 e 2018. Os resultados indicam que os furacões que atingiam o continente americano na década de 1960 perdiam 75% da sua energia no primeiro dia após chegarem à costa. Agora, de acordo com o estudo, um furacão que atinge a costa perde normalmente cerca de 50% da sua energia no primeiro dia.

A época de furacões de 2020 tem batido recordes, com 29 tempestades nomeadas até agora, e ainda faltam algumas semanas para o fim oficial da temporada, apontada para o dia 30 de novembro. A Costa do Golfo sofreu milhares de milhões de dólares em danos, e o furacão Eta, atualmente uma tempestade de Categoria 1, dirige-se agora para a costa oeste da Flórida, depois de já ter atingido as ilhas de Flórida Keys. À medida que as comunidades costeiras aprendem a lidar com as tempestades mais fortes, esta nova investigação sugere que as comunidades mais afastadas da costa podem vir a ser mais afetadas no futuro.

Os autores do estudo afirmam que o aquecimento dos oceanos é a força motriz responsável por esta longevidade prolongada dos furacões. Os investigadores acrescentam que, se o aquecimento do clima provocado pelo homem continuar, o poder destrutivo dos furacões – alguns com ventos de quase 200 quilómetros por hora e chuvas torrenciais – pode estender-se mais para o interior e impactar comunidades que não estão preparadas para lidar com a força destas tempestades.

Como é que sabem?
A descoberta de uma ligação entre furacões de maior longevidade em terra e o aquecimento dos oceanos aconteceu por acaso, dizem os autores do estudo.

Ondas do furacão Leslie fustigam a costa portuguesa perto de Lisboa, no dia 13 de outubro de 2018.

Fotografia de Patricia de Melo Moreira, AFP, Getty Images

“Estávamos a simular a evolução dos furacões que atingem a costa e continuávamos a encontrar características que não podiam ser explicadas com os modelos predominantes”, diz Pinaki Chakraborty, chefe de mecânica de fluidos do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa, no Japão.

Pinaki diz que os modelos não levavam em consideração um elemento: o aumento da humidade que os furacões armazenam.

O ar quente retém mais humidade do que o ar frio, e vários estudos feitos anteriormente demonstraram uma ligação evidente entre as alterações climáticas e os furacões com mais chuva. Se pensarmos num furacão como se fosse um motor, a água quente do oceano por baixo do furacão atua como combustível. Quando a água do oceano está particularmente quente, como acontece nas Caraíbas e no Golfo do México, pode sobrecarregar os furacões.

À medida que um furacão se move para terra, fica subitamente privado do seu combustível; o furacão começa a desfazer-se e a enfraquecer. Mas se a água do oceano agir como combustível, os autores do estudo acreditam que a humidade extra que um furacão pode transportar – à medida que a atmosfera aquece – pode agir como uma bateria extra.

Para testar a taxa mais lenta de decomposição dos furacões observada nos registos históricos, Pinaki Chakraborty e o seu coautor executaram quatro modelos que simulam um furacão a mover-se sobre terra. Em cada um dos modelos, a equipa ajustou a temperatura das águas do oceano. Os investigadores descobriram que, quanto mais elevada for a temperatura da superfície do mar, mais humidade a tempestade carrega sobre terra, e mais tempo demora a decompor-se.

James Kossin, cientista climático da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA, que não participou nesta investigação, diz: “Eles apresentam argumentos convincentes de que isto está relacionado com as temperaturas mais elevadas do oceano, e que estas, por sua vez, podem estar ligadas às alterações climáticas”.

Precisamos de nos adaptar?
O novo estudo não cita um furacão em específico dos últimos 50 anos como exemplo para esta longevidade mais prolongada. Em geral, os cientistas concordam que uma só tempestade, e até mesmo uma época inteira de furacões, não se pode relacionar diretamente às alterações climáticas provocadas pelo homem.

“Se as conclusões forem sólidas, e parecem ser, então pelo menos na região do Atlântico podemos argumentar que as apólices de seguros precisam de começar a subir e os códigos de construção precisam de ser melhorados no interior, para compensar este vento adicional e o poder destrutivo da água”, diz Brian McNoldy, meteorologista da Universidade de Miami.

Nas comunidades do interior, para além das estruturas físicas, as evidências de furacões carregados com mais chuva podem influenciar quem se deve proteger antecipadamente de uma tempestade.

“Esta é uma questão prática importante, pois afeta potencialmente as decisões de evacuação de pessoas”, diz por email Kerry Emanuel, cientista climático do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

A ser confirmado
Os cientistas salientam que são necessárias mais investigações para confirmar a existência deste novo fenómeno e compreender melhor o seu impacto.

“Estou convencido de que este problema é importante, mas não considero os resultados como definitivos; são necessárias mais investigações para confirmar ou refutar as descobertas”, diz Kerry Emanuel, sugerindo que existem várias formas de analisar os dados.

“Eu acredito que isto pode definitivamente acontecer. Acho que a combinação entre os dados e as experiências simples de modelagem são muito convincentes”, diz Dan Chavas, cientista atmosférico da Universidade Purdue e um dos revisores do estudo. “Creio que este efeito é bastante real, mas a questão passa por determinar o quão forte é esse efeito.”

Pinaki Chakraborty diz que são necessárias mais investigações para quantificar até que ponto uma determinada alteração na temperatura pode afetar um furacão, e a física detalhada de como a humidade ajuda um furacão a permanecer intacto. Embora a América do Norte tenha geralmente os melhores registos históricos de furacões, os cientistas ainda precisam de aplicar esta teoria a outras bacias de ciclones tropicais, diz Dan Chavas. O trabalho preliminar de Pinaki Chakraborty sugere que esta teoria também pode ser válida para o Pacífico.

Mas, para já, esta pesquisa feita no Atlântico é um primeiro olhar importante sobre um efeito pouco conhecido das alterações climáticas, diz Dan Chavas.

“Quando recebi este estudo pela primeira vez, fiquei surpreendido por não termos pensado nisto antes.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler