Mais de 300 Plantas Nativas de Portugal Estão em Risco de Extinção

A Lista Vermelha da Flora Vascular revela que, das 630 plantas nativas de Portugal, 381 estão em risco de extinção devido às alterações climáticas e ao impacto da ação humana.

Publicado 25/11/2020, 13:15
pistorínia (Pistorinia hispanica)

A pistorínia (Pistorinia hispanica) encontra-se à beira da extinção em território nacional. Está categorizada como espécie Em Perigo (EN), de acordo com os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Fotografia de Paulo Ventura Araújo

A primeira Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental classifica que 60% das espécies analisadas se encontram em ameaça de extinção. A iniciativa partiu da Sociedade Portuguesa de Botânica e da Associação Portuguesa de Ciência da Vegetação (PHYTOS), em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e os resultados finais foram apresentados recentemente.

As plantas vasculares são as espécies com vasos "sanguíneos" que transportam seiva para alimentar as células, compreendendo quase todas as plantas, sendo os musgos uma das exceções.

A investigação foi lançada com a noção que se iam encontrar algumas plantas ameaçadas, porém a ausência de uma Lista Vermelha dedicada à flora vascular não permitia possuir certezas sobre o assunto. Os resultados revelaram-se impressionantes: das 110 plantas analisadas que não existem em mais nenhuma parte do mundo, 53 encontram-se ameaçadas. E das 630 espécies de plantas nativas de Portugal, 381 estão ameaçadas de extinção, sendo que 84 encontram-se criticamente em perigo, 128 em perigo e 169 em situação vulnerável.

Algumas espécies ameaçadas

A linária-dos-olivais (Linaria ricardoi), endémica do Alentejo está avaliada como Em Perigo (EN), a alcachofra-rasteira (Cynara tournefortii), endémica do sudoeste da Península Ibérica, mas com distribuição global concentrada no Alentejo, é classificada como Vulnerável (VU) e o jacinto-triste (Bellevalia trifoliata), descoberto para a flora nacional durante este projeto, é considerado Criticamente em Perigo (CR). Estes são apenas três exemplos de um conjunto de cerca de 30 espécies que estão intrinsecamente associadas aos olivais tradicionais de sequeiro, sobre solos básicos do Alentejo. Estas espécies encontram-se ameaçadas devido ao desaparecimento do seu habitat em virtude da intensificação agrícola, após a implementação de vários perímetros de rega na área de influência da barragem do Alqueva.

A construção de sucessivas barragens ao longo do século XIX e até ao início do século XX foi responsável pelo desaparecimento de extensas áreas ribeirinhas, deixando espécies como o junco-do-mato-azul (Aphyllantes monspeliensis) e a pistorínia (Pistorinia hispanica) à beira da extinção em território nacional, ambas avaliadas na categoria Em perigo (EN).

O miosótis-das-arribas (Omphalodes kuzinskyanae) e o alcar-do-algarve (Tuberaria globulariifolia var. major) são nativos do litoral de Portugal ameaçados pela expansão urbana e por outras atividades humanas que causam a degradação ou destruição do seu habitat. Foram avaliados como Criticamente em Perigo (CR) e Em Perigo (EN), respetivamente.

As espécies de alta montanha encontram-se entre as plantas que serão previsivelmente mais prejudicadas pelas alterações climáticas. Os efeitos combinados da diminuição da precipitação de neve e do aumento de temperatura irão provocar alterações significativas no habitat de várias espécies, sendo provável que deixe de haver condições para a sua sobrevivência. Entre estas destacam-se várias plantas que, em Portugal, ocorrem apenas em altitudes acima dos 1700 metros, na serra da Estrela, incluindo a endémica silene-da-estrela (Silene foetida subsp. foetida), avaliada como Em Perigo (EN) e as campainhas-da-estrela (Campanula herminii), avaliadas na categoria Vulnerável (VU).

Em acentuado declínio encontram-se as plantas aquáticas como o golfão-pequeno (Nymphoides peltata), ou as plantas associadas aos ambientes palustres, como a escabiosa-dos-pauis (Succisella carvalhoana), ambas classificadas como espécies Em Perigo (EN). Várias pressões incidem sobre estes habitats, incluindo a drenagem para instalação de explorações agrícolas, pecuárias ou florestais, a expansão de espécies invasoras, a poluição das massas de água. Algumas espécies, como a heleborina-dos-brejos (Epipactis palustris), não são registadas há várias décadas, pelo que é provável a sua extinção em Portugal, tendo sido avaliadas na categoria Regionalmente Extinta (RE).

Os incêndios recorrentes são a principal ameaça sobre as espécies arbóreas de crescimento lento, como o teixo (Taxus baccata), avaliado na categoria Em Perigo (EN), e também sobre as espécies associadas a ambientes florestais sombrios, como a orquídea-ninho-de-pássaro (Neottia nidus-avis), considerada Vulnerável (VU).

Estes são apenas alguns exemplos das espécies de plantas vasculares ameaçadas em Portugal.

Por outro lado, as espécies invasoras, tais como algumas espécies de acácias (a Acacia dealbata ou a Acacia saligna), a háquea-picante (Hakea sericea), a erva-das-Pampas (Cortaderia selloana) ou o jacinto-de-água (Eichhornia crassipes) representam uma ameaça crescente à flora nacional. 

Atualmente, 17% das espécies ameaçadas estão legalmente protegidas, contudo várias problemáticas associadas à extinção estão também a ocorrer nas áreas preservadas. A Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental está disponível online e inclui a referência a 19 espécies extintas em Portugal, sendo que duas delas estão extintas mundialmente.

Esta Lista Vermelha é mais do que um alerta para a necessidade urgente de conservação. É uma ode à diversidade vegetal portuguesa.

A comissão coordenadora do projeto esteve a cargo de André Carapeto - que deu um importante contributo a esta peça - e de Carlos Neto, Carlos Pinto Gomes e Miguel Porto. A coordenação executiva foi realizada por Ana Francisco e Paulo Monteiro.

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