Plantar árvores ajuda a combater as alterações climáticas – mas é preciso muito mais

De acordo com um novo estudo, é preciso mais do que duplicar a produção de mudas para os EUA atingirem as suas metas de reflorestação.

Por Kyla Mandel
Publicado 4/03/2021, 14:50 WET
Fotografia de Chip Somodevilla, Getty Images

Plantar árvores emergiu repentinamente como uma forma aparentemente simples de absorver as emissões de carbono. Todas as pessoas gostam: ambientalistas, políticos e empresas estão a exercer pressão para se expandir rapidamente os esforços de reflorestação que podem ajudar a atingir as metas climáticas.

Isto significa plantar árvores – muitas árvores – com a expectativa de que capturem e armazenem dióxido de carbono e ajudem a evitar que este aqueça o planeta para além da meta dos 2 graus Celsius estabelecida no Acordo de Paris.

Mas, de acordo com um novo estudo publicado na revista Frontier, não há mudas de árvores suficientes a serem atualmente cultivadas, pelo menos nos Estados Unidos, para atingir esse objetivo. O estudo conclui que, se os esforços de reflorestação ajudarem a combater as alterações climáticas, os viveiros de árvores nos EUA terão de aumentar a sua produção para pelo menos três mil milhões de mudas por ano – mais do que o dobro dos níveis atuais.

Isto tem de acontecer o mais cedo possível, diz o autor principal do estudo, Joe Fargione, diretor de ciências da The Nature Conservancy da Região da América do Norte. “Não podemos plantar uma árvore antes de a cultivarmos. E não a podemos cultivar num viveiro até termos a semente.”

No ano passado, para compreender melhor como é que se pode aumentar os níveis de produção de árvores nos EUA, Joe Fargione e mais de uma dezena de outros investigadores analisaram 181 viveiros e silvicultores federais, estaduais e privados, representando pelo menos metade de toda a produção de mudas nos EUA.

Os resultados, divulgados no mês passado, mostram que os viveiros do país estão atualmente a produzir 1.3 mil milhões de mudas por ano, que vão substituir as árvores existentes colhidas pelas empresas madeireiras ou perdidas nos incêndios florestais. Para expandir as florestas dos EUA com os 25 milhões de hectares adicionais identificados pelo estudo como maduros para a reflorestação – e armazenamento de carbono – seriam necessários outros 1.7 mil milhões de mudas por ano. Isto eleva o total necessário para os três mil milhões por ano, um aumento de mais de 130%.

De acordo com o estudo, aumentar assim tanto a produção de mudas e garantir que vivem o tempo suficiente para capturar as emissões de carbono pode custar dezenas de milhares de milhões de dólares. E irá exigir a formação de coletores de sementes especializados e investimento em novas infraestruturas, bem como um aumento na monitorização a longo prazo para garantir que as florestas sobrevivem a pragas, doenças, secas e incêndios florestais – ameaças que estão a aumentar devido às alterações climáticas.

Aumentar a produção

A pressão para recultivar e proteger as florestas nunca esteve tão elevada. Nos EUA, em agosto do ano passado, mais de duas dúzias de governos locais, empresas e organizações sem fins lucrativos comprometeram-se com a iniciativa do Fórum Económico Mundial para plantar globalmente um bilião de árvores até 2030. Em outubro, o então presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva comprometendo os EUA com a mesma meta. Com este tipo de apoio bipartidário, algumas organizações ambientais sem fins lucrativos esperam que o governo de Biden expanda esta iniciativa.

Para além das metas corporativas e dos objetivos individuais ao nível local, o cultivo de árvores pode contribuir para as metas climáticas dos EUA. O setor de terras – que inclui um pouco de tudo, desde o plantio de árvores, combate à desflorestação e o aumento da quantidade de carbono armazenado no solo – foi responsável por uma pequena parte do compromisso da era Obama em reduzir as emissões até 28% sob o Acordo de Paris. De acordo com uma estimativa, se os 25 milhões de hectares identificados pelo estudo fossem reflorestados, isso representaria cerca de 7.5% das reduções de emissões necessárias para cumprir os compromissos do Acordo de Paris.

Contudo, a atual taxa de reflorestação nem sequer consegue acompanhar a quantidade de terra queimada pelos devastadores incêndios florestais que assolaram todo o oeste americano nos últimos anos. É expectável que as alterações climáticas tornem os incêndios florestais ainda mais intensos, aumentando a quantidade de terreno por recuperar.

“Só agora é que estamos a começar a reconhecer as áreas que precisam de ser plantadas”, diz a coautora do estudo, Olga Kildisheva, ecologista de sementes e gestora de programa da The Nature Conservancy.

Plantar mais árvores para compensar as emissões de carbono vai aumentar ainda mais a demanda por mudas. Mas Joe Fargione diz que há boas notícias: “Apenas um terço dos viveiros públicos e privados presentes no estudo estão a operar na sua capacidade máxima.” Isto significa que há grandes possibilidades de expansão.

Nos EUA, a produção de mudas atingiu o auge há mais de 30 anos. No final da década de 1980, eram produzidas anualmente mais de 2.6 mil milhões de mudas. Quando a recessão económica de 2008 encerrou muitos dos viveiros por todo o país, este número caiu para os menos de mil milhões. “Imagine perder 75% da sua capacidade”, diz Dan Rider, diretor-adjunto do Serviço Florestal de Maryland, referindo-se ao impacto que a recessão económica e outros fatores tiveram no viveiro de árvores John S. Ayton do estado. “A nossa história não é um caso isolado.”

Vai ser muito árduo conseguir aumentar novamente a produção, diz Eric Sprague, vice-presidente do departamento de reflorestação da American Forests, uma organização de conservação que ajudou a elaborar este novo estudo e a iniciativa de um bilião de árvores. Mas, se o fizermos, diz Eric, isso vai representar um grande papel em relação aos EUA atingirem ou não as suas metas de reflorestação.

“Não se trata apenas de expandir e melhorar o que já temos, na verdade, temos de adicionar novos viveiros para atingir essa meta.”

Se todos os viveiros, públicos e privados, operassem na sua capacidade máxima, o estudo estima que podiam ser cultivadas anualmente mais 400 milhões de mudas. Os investigadores também esperam que mais 1.1 mil milhões de mudas possam ser produzidas anualmente caso a maioria dos viveiros se expanda para além da sua capacidade atual, algo que a maioria dos entrevistados no estudo disseram que estariam dispostos a fazer. Somando tudo isto aos 1.3 mil milhões que estão atualmente a ser cultivados, a produção ficaria quase no mínimo dos três mil milhões anuais recomendados pelo estudo.

Expandir as operações

Aumentar a produção de mudas e plantá-las significa aumentar os apoios e os investimentos em todo o processo. Como o estudo descobriu, tem havido um “desinvestimento crónico” em mão de obra especializada, infraestrutura e formação. “Os desafios na mão de obra”, diz Eric Sprague, “são o obstáculo número um na expansão das operações”.

Os coletores de sementes precisam de ter um conhecimento profundo, desde prever quando é que determinadas espécies libertam as suas sementes – tornando-as disponíveis para a coleta – até à forma como se deve limpar as sementes em segurança. Estas equipas precisam de formação para testar a qualidade das sementes e sobre como as devem armazenar, para permanecerem viáveis ao longo dos anos. “É um produto perecível; precisa de ser manuseado com cuidado”, diz o coautor do estudo, Greg Edge, ecologista da Divisão Florestal do Departamento de Recursos Naturais do Wisconsin. No entanto, o número de pessoas especializadas nestes trabalhos continua a diminuir

Os viveiros, por sua vez, dependem apenas de um punhado de funcionários durante o ano inteiro; os restantes são trabalhadores sazonais que ajudam a semear, a colher, a selecionar e a embalar. Porém, pode ser difícil atrair estes trabalhadores devido à localização remota de muitos dos viveiros, bem como pela competição com outros empregos agrícolas mais rentáveis. O estudo também refere que as políticas de imigração podem afetar o número de trabalhadores disponíveis.

Não só as sementes e a mão-de-obra são escassas, como as infraestruturas são velhas, diz Charles Eckman, horticultor do Viveiro J.W. Toumey, no Michigan. “E apesar da adição ou melhoramento de estufas poder ser uma ótima forma de expandir a capacidade para se cultivar mudas mais depressa do que no campo, isso deve ser planeado com anos de antecedência em relação ao momento em que as mudas são necessárias.”

O custo financeiro de entrada para os viveiros pode ser um grande risco. “Estamos a tentar prever hoje, literalmente neste momento, como é que vai ser o mercado daqui dois anos?”, questiona Dan Rider, de Maryland. “No ramo dos viveiros, temos de gastar todo o nosso dinheiro hoje em fertilizantes e em tudo o resto que vai para o solo para preparar o local... e não recebemos esse dinheiro de volta durante dois anos.”

Planear para a sobrevivência

Os especialistas concordam que uma campanha de plantio de árvores com financiamento estável a longo prazo – seja federal ou privado – poderia fornecer aos viveiros a estabilidade que necessitam para aumentar a produção.

O estudo da Frontier parte do pressuposto que o plantio de árvores é a principal forma de atingir as metas de reflorestação, diz Karen Holl, professora de estudos ambientais da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, que não participou no estudo. “Proteger as florestas existentes, bem como estimular a regeneração natural, não deve ser esquecido.”

E mesmo uma campanha de plantio de árvores pode estar condenada devido à ênfase que é erradamente colocada sobre a quantidade de árvores plantadas, em vez de na quantidade de árvores que sobrevivem. O estudo exige o desenvolvimento de diretrizes sobre quais são os tipos de sementes que prosperam em diferentes ambientes, sobretudo à medida que as alterações climáticas mudam as espécies de plantas para novas regiões.

“Não se trata apenas de plantar uma árvore. Isto tem de ser feito de forma ponderada e como deve de ser, porque não podemos simplesmente espetar uma árvore no chão, regressar passados 100 anos e ter uma floresta”, diz Greg Edge. “É preciso muito investimento, trabalho e paciência para transformar uma semente em muda. Não queremos estar a perder o nosso tempo a plantar uma muda que vai simplesmente morrer.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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