O aquecimento e fogões a gás estão a aquecer o clima. Será que as cidades deviam começar a bani-lo?

Os edifícios são responsáveis por muitas das emissões de carbono. Retirar os combustíveis fósseis dos edifícios é uma parte fundamental da solução climática.

Publicado 16/04/2021, 14:35
Alguns chefs profissionais defendem acerrimamente o lume a gás – e juntamente com a indústria do ...

Alguns chefs profissionais defendem acerrimamente o lume a gás – e juntamente com a indústria do gás, estão a resistir aos esforços para exigir uma transição para edifícios completamente elétricos.

Fotografia de Charli Bandit, Getty Images

No verão de 2019, o conselho municipal de Berkeley, na Califórnia, fez uma ação ousada e sem precedentes: baniu as ligações de gás natural da maioria das novas construções.

A vereadora Kate Harrison, responsável por este novo decreto, queria encontrar formas de reduzir as emissões de carbono da cidade. “Nós tentámos perceber de onde é que as nossas emissões vinham, e descobrimos que o gás natural nos edifícios desempenhava um papel significativo”, diz Kate – os edifícios representam 37% das emissões totais da cidade. Os automóveis são outra grande fonte, mas a cidade não tem autoridade para regular as emissões dos veículos. “Os edifícios são uma área que conseguimos alterar”, diz Kate.

O decreto pioneiro de Berkeley estimulou uma onda de esforços semelhantes. Desde 2019, mais de 40 cidades da Califórnia aprovaram medidas semelhantes. As propostas para proibir as ligações de gás estão agora em consideração no Colorado, no estado de Washington e em Massachusetts.

Os especialistas climáticos há muito que afirmam que os edifícios, tanto novos como antigos, precisam de se livrar dos combustíveis fósseis. Atualmente, os edifícios são responsáveis por mais de um quarto das emissões de gases de efeito estufa dos EUA – um número que terá de descer rapidamente se o país quiser atingir as metas de redução de emissões delineadas no Acordo de Paris.

Mas este movimento crescente para restringir as ligações de gás natural também desencadeou uma campanha agressiva por parte da indústria do gás natural, que quer travar preventivamente as proibições.

A Associação Americana do Gás, um grupo comercial do setor, declarou por email que se iria opor por completo a quaisquer esforços para banir o gás natural, ou a ações que visem marginalizar as infraestruturas em qualquer local em que esses esforços se materializem. Até agora, seis estados, incluindo o Arizona, Kansas, Louisiana, Oklahoma, Tennessee e Utah, aprovaram legislação que proíbe este tipo de interdições. Noutros 14 estados estão a ser consideradas legislações semelhantes.

Os edifícios são glutões de energia

Como os edifícios usam muita energia, têm o potencial para desempenhar um papel importante em qualquer solução para a crise climática.

De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Ambiente, a nível mundial, os edifícios são responsáveis por quase 30% de todas as emissões de CO2 relacionadas com energia – e podem chegar aos 40% se forem incluídas as emissões durante a construção. Esta contribuição está a crescer à medida que a construção aumenta nos países desenvolvidos e nos países em desenvolvimento. Algumas projeções sugerem que, na ausência de esforços para se construir de forma mais sustentável, as emissões dos edifícios podem duplicar ou até triplicar até 2050.

Os 95 milhões de edifícios residenciais e comerciais nos Estados Unidos são responsáveis por cerca de 28% das emissões de gases de efeito estufa do país. Dois terços deste total são “emissões indiretas” – carbono que sai das centrais que geram a eletricidade usada na iluminação, ar condicionado e aquecimento elétrico dos edifícios. Os restantes 12% – valores praticamente equivalentes aos das emissões do Brasil, ou um pouco mais elevados do que os da Alemanha – são “emissões diretas”, sobretudo vindas do gás natural ou petróleo usados pelos próprios edifícios para aquecimento central ou da água.

O desafio passa pela limpeza destes tipos de emissões. O setor da eletricidade dos EUA já está a ficar mais ecológico: as suas emissões caíram quase 30% desde que atingiram o pico em 2005, em grande parte devido à implementação de fontes de energia renováveis, como eólica e solar, que substituíram o carvão e o gás natural nas centrais elétricas. Esta tendência vai acelerar nos próximos anos, à medida que são implementadas mais fontes de energia renovável.

Contudo, para se descarbonizar por completo os edifícios dos EUA, é preciso abordar as emissões diretas – e a melhor forma de o fazer, de acordo com os especialistas, é converter os edifícios para dependerem apenas de eletricidade. Se todas as novas construções nos EUA fossem completamente elétricas a partir de 2022, as emissões gerais do setor de construção cairiam 11% até 2050, de acordo com análises do Instituto Rocky Mountain (RMI), uma organização sem fins lucrativos sediada no Colorado que se especializa em eficiência energética e questões de sustentabilidade.

O RMI também descobriu que a adaptação dos edifícios já existentes para componentes completamente elétricos, começando em 2030, reduziria as emissões em 90% até 2050, diz Mike Henchen, do RMI. Naquele que pode ser o esforço mais ambicioso para enfrentar as emissões dos edifícios, a cidade de Nova Iorque aprovou uma lei de 2019 que exige que a maioria dos seus edifícios, tanto comerciais como residenciais, reduzam as suas emissões em 40% até 2030. (O Empire State Building já atingiu essa meta.)

Embora as vitórias climáticas que se atingem com as novas construções sejam relativamente pequenas, porque são construídos poucos edifícios novos todos os anos, acabar com a utilização de combustíveis fósseis nas novas construções altera a paisagem de uma forma que irá trazer enormes dividendos climáticos no futuro, dizem os especialistas.

“Já estamos demasiado fundo no buraco, não podemos simplesmente continuar a cavar”, diz Sara Baldwin, especialista em edifícios da Energy Innovation, um centro de pesquisa do clima e energia.

Gás natural a perder terreno

O gás natural chegou a ser publicitado como uma alternativa limpa ao carvão e ao petróleo, apregoado como um “combustível-ponte” que poderia ajudar a reduzir as emissões gerais de carbono, ao mesmo tempo que fornecia energia segura e barata. Mas o seu papel num futuro de baixo carbono está agora em questão.

O gás natural é composto maioritariamente por metano, ou CH4, mas quando é queimado, converte-se principalmente em CO2, contribuindo – embora menos do que a queima de carvão ou petróleo – para a acumulação atmosférica a longo prazo daquele que é o principal gás de efeito estufa. Mas, para além disso, o próprio metano é um gás de efeito estufa extraordinariamente potente que, nos 10 ou 20 anos que demora para se converter naturalmente em CO2 na atmosfera, é 84 vezes mais forte na retenção de calor perto da superfície da Terra.

Assim, quando o gás natural é libertado por um fogão ou algures ao longo dos quase cinco milhões de quilómetros de gasodutos que cruzam os EUA, pode contribuir fortemente para o aquecimento global. Muitas das linhas ao longo da vasta rede de distribuição de gás são antigas e precisam de manutenção ou substituição. Alguns estudos recentes sugerem que a infraestrutura de gasodutos de gás natural dos EUA tem até cinco vezes mais fugas do que o estimado anteriormente. Estas fugas de gás podem ter efeitos potencialmente perigosos para a saúde e segurança, bem como para o clima.

Para além de tudo isto, os custos de manutenção dos sistemas de distribuição de gás triplicaram desde 2009, de acordo com as análises do Instituto Rocky Mountain, e os custos de manutenção provavelmente irão continuar a subir. Estes custos também são suportados pelos consumidores. Na Califórnia, a comissão estadual de energia estima que os consumidores podem vir a pagar mais do dobro pelo gás que consomem até 2050.

Segundo os dados da Associação Americana do Gás, o gás natural é fornecido a quase seis milhões de empresas e 180 milhões de pessoas, fornecendo aquecimento para cerca de metade das residências nos EUA. Perto de 12% de todas as casas nos EUA usam petróleo para o aquecimento e as restantes usam eletricidade.

Num relatório de 2018, a associação dizia que, em média, havia um novo cliente de gás natural a cada minuto. Isto significa cerca de 500.000 novos clientes por ano, um consumo que podia ser evitado com sistemas elétricos, diz Sara Baldwin.

“Assim que se constroem casas novas e são colocados canos de gás natural, as pessoas tendem a ficar com isso”, diz Ken Gillingham, economista de energia ambiental da Universidade de Yale.

“Retirar [o gás] teria impactos devastadores sem os benefícios ambientais que alguns afirmam”, alerta a associação do gás no seu comunicado enviado por email.

A revolução pode ser complicada

Atualmente, um em cada quatro americanos vive numa casa completamente elétrica, sobretudo no sul do país, onde o ar condicionado é mais procurado do que o aquecimento. Mas, a construção completamente elétrica está a expandir-se nos climas mais frios, à medida que os custos de instalação e construção diminuem e a tecnologia melhora. O desempenho das bombas térmicas elétricas melhorou tanto que o estado do Maine, que depende mais do petróleo para o aquecimento do que qualquer outro estado norte-americano, aprovou uma lei em 2019 a exigir a instalação de bombas térmicas em 100.000 residências até 2025.

Um dos desafios mais complicados em passar do gás para a eletricidade é manter os custos dos serviços acessíveis. Por exemplo, 70% dos habitantes de comunidades de baixo rendimento são arrendatários que podem ser prejudicados em várias frentes. Se as suas habitações forem convertidas em estruturas completamente elétricas, as despesas podem aumentar se essa conversão não levar em consideração as outras alterações necessárias, como melhorias no isolamento ou a adição de eletrodomésticos eficientes. A melhoria da habitação, por sua vez, pode encorajar a gentrificação, expulsando as pessoas de salários mais baixos dos seus bairros. E, a longo prazo, à medida que mais clientes cancelam o seu serviço de gás, os que permanecem podem ser sobrecarregados com contas mais avultadas, porque os custos fixos do sistema de distribuição são suportados por um grupo mais pequeno de clientes.

“A questão de converter um edifício sai do reino do desempenho e torna-se numa matéria de justiça ambiental”, diz Carmelita Miller, especialista jurídica do Instituto Greenlining. O instituto diz que uma transição equitativa para a eletricidade só pode ser alcançada através da inclusão de comunidades afro-americanas no planeamento e formulação de políticas desde o início do processo.

As preferências pessoais também podem afetar a conversão para a eletricidade. “As pessoas ficam muito ligadas aos seus fogões a gás”, diz Fei Wang, especialista em construções da empresa de análise energética Wood Mackenzie. Alguns chefs profissionais, em particular, expressaram o seu amor pelo lume a gás – embora outros tenham adotado os fogões de indução, a vanguarda na tecnologia de cozinha elétrica. No ano passado, seis semanas antes da nova lei entrar em vigor em Berkeley, a Associação de Restaurantes da Califórnia processou a cidade. E algumas cidades, como Denver, criaram exceções para as pessoas poderem manter os seus fogões a gás.

Todos estes problemas contribuem para uma transição mais lenta de sistemas a gás para eletricidade. Embora as leis locais tenham a vantagem de permitir que as cidades ajustem as suas metas climáticas de acordo com as vontades dos seus constituintes, o resultado é uma transição que não está a acontecer com a velocidade desejada, diz Ted Lamm, especialista do Centro de Direito, Energia e Ambiente da Universidade da Califórnia em Berkeley.

A legislatura do Estado de Washington está a considerar um projeto ambicioso para evitar o uso de combustíveis fósseis nos novos edifícios a partir de 2027, e a Califórnia está no processo de atualização dos códigos de construção, que provavelmente irão exigir que todas as novas construções estejam “aptas para eletricidade” até 2023. Mas sem uma legislação estadual ou federal mais abrangente, diz Ted, as alterações não têm o ritmo suficiente para alcançar os benefícios que a eletricidade promete.

“É ótimo fazer alterações. Mas já não é assim tão bom quando temos um prazo muito difícil para cumprir”, diz Ted, referindo-se à urgência dos problemas climáticos. “Simplesmente não está a acontecer depressa o suficiente para o que precisamos.”

A interdição do gás em algumas cidades já gerou conflitos. A cidade de Windsor, no condado de Sonoma, a norte da baía de São Francisco, revogou a sua proibição após ter sido processada. Em Brookline, no Massachusetts, um subúrbio de Boston que aprovou uma regra que abrangia tanto as novas construções como profundas renovações nas antigas, o estado suspendeu a proibição, dizendo que a cidade não podia estabelecer padrões diferentes dos do próprio estado.

Pequenos passos

Quando Berkeley começou a considerar a sua interdição ao gás, a cidade já tinha procurado arduamente novas formas de reduzir a sua pegada de carbono. E também já tinha instalado lâmpadas LED nos 76.000 candeeiros da cidade e adicionado ciclovias e estações de recarga para veículos elétricos. Mas estava longe de atingir as metas de redução de emissões que tinha estabelecido em 2009.

Kate Harrison, a vereadora da cidade, sabia que a urgência em resolver o problema só estava a aumentar, já que os habitantes viram as suas casas cobertas pelo fumo dos incêndios florestais, fogos que foram intensificados pelo clima, e a sufocar devido às vagas de calor que bateram recordes. Depois de fazer uma revisão ao código de construção da cidade, os membros do conselho concluíram que o podiam ajustar legalmente.

Kate, que também já tinha convertido a sua própria casa para 100% elétrica depois de a sua caldeira a gás se ter avariado, fez uma demonstração de um fogão de indução para reforçar as vantagens em abandonar o gás. Em julho, a medida foi aprovada por unanimidade e com o apoio dos habitantes, incluindo da Pacific Gas & Electric, a quinta maior distribuidora de gás natural e eletricidade do país.

O novo decreto não aborda para já a questão de como se deve tirar o gás de todos os edifícios já existentes em Berkeley. Mas para Fei Wang, a analista da Wood Mackenzie, é muito melhor do que nada.

“Não precisa de ser tudo de uma vez”, diz Fei. “Basta começar algures.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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