‘Uma floresta sob o efeito de cafeína’? Como o café pode ajudar as florestas a crescer mais depressa.

Os resíduos que sobejam do processo de fabrico de café podem fazer com que as florestas destruídas regressem à vida.

Publicado 9/04/2021, 12:16
cerejas de café recém-colhidas

Vistos de cima, trabalhadores levam cerejas de café recém-colhidas para um contentor em Aquires, na Costa Rica. Uma experiência feita recentemente numa antiga quinta de café descobriu que a polpa de café, um resíduo do processo de cultivo de café, pode ajudar as florestas a crescer novamente em terras desenvolvidas.

Fotografia de Edwin Remsberg, VW PICS, UIG, Getty Images

Tal como acontece connosco, as florestas também ficam mais agitadas com um pouco de café no seu sistema.

Uma experiência feita recentemente testou se a polpa do café, um resíduo do processo de cultivo de café, conseguia ajudar a trazer de regresso à vida as florestas tropicais da Costa Rica. Investigadores da Universidade do Havai em Manoa testaram dois lotes para observar como é que os resíduos de café afetariam as terras desflorestadas, cobrindo uma parcela com cerca de 50 centímetros de polpa de café e deixando o outro lote intocado.

Em ambos os locais, a terra tinha sido explorada durante anos, tanto para o cultivo de café como para a criação de gado, e acabou abandonada. Os terrenos tinham sido dominados por gramíneas invasoras, essencialmente uma espécie africana que é usada para alimentar o gado. Estas gramíneas, se não forem devastadas pelo gado durante o pasto, podem atingir os cinco metros de altura, impedindo que as florestas tropicais nativas voltem a crescer.

Passados dois anos, o terreno que recebeu um reforço do café apresentava uma melhoria dramática. Cerca de 80% deste terreno estava coberto por copas de árvores jovens, algumas já com 4,5 metros de altura – incluindo espécies tropicais que podem crescer até aos 18 metros. No lote que não recebeu o tratamento, os valores rondavam os 20%. No lote com a polpa de café, as árvores também eram em média quatro vezes mais altas, as amostras de solo eram mais ricas em nutrientes e as gramíneas invasoras tinham sido eliminadas.

Os resultados foram publicados na revista Ecological Solutions and Evidence.

Este processo, para além de dar aos produtores de café uma forma sustentável para se descartarem dos resíduos, também acelera o regresso das florestas destruídas.

“É uma situação espantosa onde todos saem a ganhar”, diz Rebecca Cole, autora do estudo e ecologista na Universidade do Havai em Manoa. “A floresta tropical demora centenas de anos a voltar a crescer. Ter [este tipo de] árvores altas em apenas dois anos é realmente espetacular.”

Rebecca reconhece que são necessários mais estudos para compreender os impactos a longo prazo da polpa de café e se este processo pode provocar alguma poluição imprevista.  

“Ainda assim, parecia mesmo uma floresta sob o efeito de cafeína. Eu acredito que é realmente promissor”, diz Rebecca.

Esquerda: Uma camada recém-adicionada de polpa de café num terreno invadido por gramíneas.
Direita: Para o estudo, os cientistas estabeleceram um lote de controlo onde podiam ver se as florestas recuperavam naturalmente. Nesta imagem, anos após a experiência, as gramíneas permanecem dominantes.

Fotografia de REBECCA COLE

À procura de uma solução

Os grãos de café são as sementes de um fruto chamado cereja de café que, quando colhido, parece uma cereja vermelha ou amarela. Para obter os grãos de café, os produtores removem a casca, a polpa e outros pedaços de película da fruta. Depois, secam e torram o restante para fazer a base que vai parar às nossas chávenas todas as manhãs. Cerca de metade do peso de uma colheita de café acaba como resíduo.

Rakan Zahawi, um dos autores do estudo e diretor do Lyon Arboretum da Universidade do Havai em Manoa, diz que na Costa Rica os produtores de café normalmente levam todos os resíduos de café para lotes de armazenamento, onde ficam a decompor.

No início dos anos 2000, Rakan Zahawi visitou um projeto de restauração semelhante que usava cascas de laranja.

“A diferença era da noite para o dia”, diz Rakan sobre as florestas tratadas com casca de laranja e as não tratadas. “A diferença era enorme.”

Quando Rakan começou a trabalhar na Costa Rica e percebeu a quantidade de resíduos gerados pela enorme indústria cafeeira do país, a ideia surgiu. Tanto Rebecca como Rakan pensaram que, se o excesso de polpa de café pudesse ser de alguma forma utilizado, todos os envolvidos – os produtores de café, proprietários de terras e ambientalistas – poderiam beneficiar.

“Basicamente, são muitos resíduos cujo processamento é dispendioso, e são distribuídos de graça”, diz Rebecca. Assim, em vez de os investigadores pagarem a compostagem e armazenamento dos resíduos, limitaram-se a alugar camiões basculantes para transportar a polpa.

Como e porque é que funciona

A ideia funciona da seguinte forma: Espalha-se uma camada de 45 centímetros de polpa de café numa área coberta por ervas daninhas, e a folhagem por baixo começa a sufocar e a cozinhar até morrer asfixiada e se decompor.

“Basicamente, matamos todas as raízes e rizomas das ervas”, diz Rakan.

Rebecca e Rakan descobriram que, à medida que os restos decompostos das ervas se misturam com a camada rica em nutrientes do café, é criado um solo fértil. Isso, por sua vez, atrai insetos, que atraem aves, que depois espalham sementes no terreno, assim como o vento.

Depois, surge o renascimento.

“Parece uma confusão nos primeiros dois ou três anos, mas depois temos uma explosão de novas plantas”, diz Rakan. “É tão rico em nutrientes que as plantas crescem como se tivessem a tomar esteroides.”

A equipa descobriu que o segredo é empilhar a polpa – usando uma camada espessa numa área plana, e num clima com um período de seca que permita ao café realmente cozinhar. Basicamente, transforma-se numa pilha de compostagem de alto rendimento.

“Se colocarmos a nossa mão nesta pasta, está realmente quente – não está a escaldar, mas está quente o suficiente para sufocar as ervas”, diz Rakan.

Uma lona de plástico espalhada por cima de um campo também mataria as ervas. “Mas aí teríamos todo aquele lixo plástico”, diz Rakan. E continuaria a ser necessário solo novo e fértil para atrair novas plantas.

Rebecca diz que a forma mais comum de restaurar florestas é através da plantação de árvores. Mas esse trabalhoso é intensivo e dispendioso, sobretudo quando comparado com um simples descartar de um subproduto de café e deixar a natureza fazer o plantio.

“Eu estava um pouco cética de que isto ia funcionar. Achava que íamos ficar apenas com uma mancha mais verde de ervas”, diz Rebecca. Em vez disso, a equipa conseguiu o início de uma nova floresta tropical.

Obstáculos e mais investigação

Embora a experiência de Rebecca e Rakan com a polpa de café tenha impulsionado o crescimento florestal, também há contratempos.

“A polpa do café cheira muito mal”, diz Rebecca, que foi criada numa quinta de café na Costa Rica. “Eu cresci com este cheiro, mas muitas pessoas acham-no demasiado intenso.”

A polpa também atrai muitas moscas e outros insetos que, apesar de atraírem aves que dispersam sementes, são pragas para os humanos nas proximidades.

“Também existe receio de que isto tenha efeitos negativos nas bacias hidrográficas. Pode haver alguma contaminação”, diz Rebecca. A polpa de café contém nutrientes como nitrogénio e fósforo que podem impactar negativamente riachos e lagos, provocando o crescimento excessivo de algas, por exemplo. A polpa também pode conter vestígios de pesticidas usados durante a produção.

Embora esta experiência tenha sido realizada longe de fontes de água, Rebecca diz que as suas futuras investigações vão examinar o potencial impacto nas áreas circundantes.

Os trabalhos feitos anteriormente com cascas de laranja para regenerar florestas na Costa Rica depararam-se com alguns obstáculos. Quando a fabricante de sumo de laranja, a Del Oro, iniciou uma parceria com uma área protegida local para espalhar cascas de laranja em antigas zonas de pastagem de gado, a sua concorrente local, a TicoFrut, alegou que o processo era simplesmente uma forma para despejar resíduos. O programa foi interrompido pelas autoridades da Costa Rica, que tomaram o partido da TicoFrut.

Futuro promissor para as florestas?

Dan Janzen e Winnie Hallwachs, uma equipa ecologistas tropicais da Universidade da Pensilvânia, não ficaram surpreendidos com o sucesso ecológico da experiência de reflorestação de Rebecca Cole e Rakan Zahawi. Em 1996, Dan Janzen foi o responsável pelo estabelecimento da relação entre a Del Oro e a área protegida para esse mesmo propósito, e foi ele que apresentou o conceito a Rakan.

Há duas décadas, Dan observou resultados semelhantes.

“Seis meses após a distribuição das cascas de laranja, o pequeno lote de um hectare parecia e tinha um cheiro horrível”, diz Dan.

“[Um ano e meio] depois estava tudo acabado, mas no seu lugar já não havia espécies invasoras de gramíneas africanas, mas sim um trecho maravilhoso rico em espécies de plantas de folhas largas, plantas que cresciam num solo negro e argiloso. Basicamente, tínhamos fertilizado o local de uma forma muito intensa. Estávamos rendidos à ideia”, escreve Dan por email.

Dan acredita que o projeto da polpa de café pode ter um destino diferente do projeto fracassado das cascas de laranja, “porque está menos emaranhado em questões políticas” e a polpa é mais cultivada por pequenos produtores do que por duas enormes empresas concorrentes.

Rebecca Cole, para além de querer investigar os impactos a longo prazo, também está interessada em testar outros subprodutos agrícolas. Desde que os resíduos das colheitas sejam ricos em nutrientes e não sejam prejudiciais à saúde humana, Rebecca espera que os resultados sejam semelhantes.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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