A estação meteorológica mais alta dos Andes vai ajudar os cientistas a procurar respostas climáticas

A nova estação vai ajudar o Chile a compreender uma seca histórica que não dá sinais de abrandar.

Fotografias Por Armando Vega
Publicado 10/05/2021, 11:04 WEST, Atualizado 20/05/2021, 11:50 WEST
instalação da estação meteorológica

Com a estação instalada, Baker Perry certifica-se de que todos os componentes estão a funcionar corretamente. As informações recolhidas e transmitidas por esta nova estação vão proporcionar aos cientistas a capacidade de produzir previsões meteorológicas mais detalhadas e ajudar a compreender os impactos das alterações climáticas no reservatório de água mais importante do Chile.

A uma altitude de 5.790 metros acima do nível do mar, na montanha chilena de Tupungato, Baker Perry e os seus colegas alpinistas foram atingidos nas primeiras horas da manhã por uma tempestade inesperada que os prendeu nas suas tendas devido aos ventos fortes e neve. Baker Perry, cientista climático da Universidade Estadual Appalachian, diz que se sentiu filosófico.

“Estes desafios fazem parte da beleza das montanhas. É uma das razões pelas quais não há muitas estações ativas em lugares como estes”, diz Baker. “Queremos ver estes locais nos seus momentos mais tempestuosos e desafiadores também. Faz parte do clima. Precisamos de medir isto.”

Baker é um dos líderes de uma equipa que em fevereiro enfrentou uma pandemia global e uma caminhada de duas semanas pela neve densa para instalar uma estação meteorológica perto do cume de Tupungato, um vulcão adormecido no sul dos Andes, onde o Chile encontra a Argentina. Agora considerada a estação meteorológica mais alta dos hemisférios Sul e Ocidental, a ferramenta vai ajudar os cientistas a compreender a rapidez com que o clima da região está a mudar. A expedição foi organizada pela National Geographic Society e financiada pela Rolex.

Com dados sobre a temperatura, velocidade do vento e queda de neve, os cientistas podem compreender melhor como é que o Chile central e a capital do país, Santiago, podem ser afetados à medida que as alterações climáticas expõem a região a mais secas – como a seca histórica que está a atravessar neste momento – enquanto reduz os glaciares e a neve nas montanhas que atuam como torres de água.

“Os riscos são agora realmente elevados”, diz Tom Matthews, membro da equipa e cientista climático da Universidade de Loughborough, no Reino Unido. “Há milhões de pessoas a viver a jusante destas torres de água, que fazem parte de um sistema do qual sabemos muito pouco em termos de como pode responder à medida que o clima aquece.”

O que sabemos sobre alterações climáticas no Chile

Tupungato é o terceiro cume mais alto do Chile e a montanha mais alta da bacia do rio Maipo, a bacia hidrográfica que abastece os sete milhões de pessoas que vivem em Santiago e arredores. Com dados mais apurados sobre a quantidade de precipitação que a está cair no topo de montanhas como Tupungato, as autoridades governamentais conseguem saber a quantidade de água que têm para alocar num determinado ano.

“Eu estudo glaciares desde 1982. Durante a minha vida, assistimos a mudanças tremendas nos glaciares e cobertura de neve”, diz outro dos líderes da expedição, Gino Casassa, Explorador da National Geographic e chefe da unidade de glaciares do governo chileno.

Num ano seco, diz Gino, dois terços da água que alimenta o rio Maipo no final do verão vem dos glaciares que estão a diminuir.

A região centro do Chile é uma ecorregião mediterrânea, climaticamente semelhante a lugares como a Califórnia, e está logo abaixo do Deserto de Atacama, o deserto mais seco da Terra, entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico.

Historicamente, os chilenos estão habituados a uma periodicidade de anos secos; 2010 foi um desses anos. Depois vieram 2011 e 2012, e choveu pouco.

“Depois veio 2014”, que também foi seco, “e isso foi suspeito”, diz René Garreaud, climatologista da Universidade do Chile, que não esteve envolvido na expedição.

Em 2015, René e os seus colegas chilenos determinaram que a região estava a atravessar por algo que os cientistas chamam mega-seca, uma situação que se continua a verificar após uma década de condições secas. Em média, desde o início da seca houve menos um terço de chuva a cada ano do que em anos normais. Durante o ano mais seco até agora, 2019, houve menos 90% chuva.

Embora René diga que há alguma variabilidade natural que influencia as chuvas em escalas de tempo de décadas, não há dúvidas de que as alterações climáticas são responsáveis por esta mega-seca. Em geral, espera-se que as regiões secas fiquem ainda mais secas e as regiões húmidas mais húmidas.

São más notícias para a região centro do Chile, que depende das torres de água das montanhas na bacia do rio Maipo para obter água doce. De acordo com um artigo publicado na revista Nature em 2019, as torres de água pelo mundo inteiro, desde os Andes aos Himalaias, estão ameaçadas pelas alterações climáticas.

Há dois anos, Baker Perry e Tom Matthews instalaram uma estação meteorológica no Monte Evereste, a mais alta do mundo. A jornada no Chile foi a mais recente das Expedições Perpetual Planet da National Geographic Society, que financia a investigação e exploração de ecossistemas afetados pelas alterações climáticas.

Caminhada
A instalação da estação meteorológica a mais de 5.790 metros exigiu quase uma semana de caminhada por encostas íngremes e penhascos, rocha vulcânica solta e pelo topo de uma montanha nevada.

Esquerda: Marcelino Ortega Martinez prepara os cavalos e as mulas para transportar mantimentos do acampamento Aguas Blancas a 3.150 metros de altura. Foi aqui que o vulcão Tupungato se tornou visível pela primeira vez. Durante esta parte da expedição, os ventos atingiam quase os 130 quilómetros por hora.
Direita: Cavalos e mulas carregados com o equipamento usado durante a expedição cruzam Mal Paso, um trecho estreito e escorregadio da rota. A montanha Sierra Bella pode ser avistada ao longe.

Escalar uma torre de água

A equipa demorou quase uma semana para chegar ao topo de Tupungato, a mais de 6.000 metros, e outra para descer. Nos meses que antecederam a viagem, os membros da equipa treinaram extensivamente. Baker, que vive na Carolina do Norte, passou horas a escalar trilhos íngremes com uma mochila pesada.

A estação meteorológica transportada para o topo de Tupungato trata-se de um tripé relativamente leve feito de alumínio, embora ainda pese 55 quilos e tenha quase dois metros de altura. A estação foi projetada para ser leve o suficiente para ser transportada numa mochila, mas é robusta o suficiente para suportar alguns dos ventos mais fortes da Terra.

A fixação da estação no cume exigiu aproximadamente duas horas de aparafusamento e colocação de estacas com cabos de sustentação para a manter estável. A estação é alimentada por painéis solares e possui uma antena para comunicação via satélite.

A estação já registou velocidades do vento de mais de 180 quilómetros por hora, diz Baker.

Os cientistas instalaram sensores de temperatura a um metro de profundidade no pergelissolo do cume para rastrear as alterações na temperatura do solo congelado. A estação também vai medir a radiação, a profundidade da neve e o albedo, ou refletividade. À medida que cai menos neve e o gelo derrete, as rochas escuras ficam expostas, o solo reflete menos luz e absorve mais energia solar, potencialmente acelerando o degelo.

Voar sobre gelo
O vulcão Tupungatito, com 5.660 metros de altitude, é um dos quatro vulcões ativos perto de Santiago. É um sósia mais pequeno de Tupungato, onde a estação foi colocada. Durante um voo sobre o glaciar de Tupungatito, pode ser vista uma das duas línguas glaciares do vulcão.

Esquerda: Durante a noite, o acampamento Los Penitentes brilha a 4.415 metros acima do nível do mar. Ao fundo, em direção a norte, vemos a montanha Sierra Bella, com uma altitude de 5.275 metros; a noroeste (centro à esquerda), a montanha Polleras atinge os 5.993 metros de altura. Ambas estão entre as montanhas mais proeminentes dos Andes Centrais do Chile.
Direita: Hernán Puga Plaza e Manuel Mira, guias de uma equipa de escaladores chamada Asesores Andinos, transportam alimentos, equipamentos e mantimentos médicos para o acampamento que fica a 5.200 metros de altitude.

Tupungato, visto de cima. As imagens aéreas permitiram aos montanhistas saber exatamente a quantidade de neve que iriam encontrar na viagem. Nesta imagem vemos a rota que a expedição fez para chegar ao cume.

Preparar para o ‘pico de água’

“À medida que o clima aquece, os glaciares recuam rapidamente”, diz Tom Matthews. “Quão depressa? Não sabemos. A maioria das observações foi feita na montanha em elevações bastante baixas, pelo que não temos informações sobre o que está a acontecer na parte superior.”

Descobrir a quantidade de água doce que o Chile retém nas suas montanhas e perceber quando é que esta água pode atingir níveis criticamente baixos é uma previsão complexa de se fazer, diz Tom. A curto prazo, a subida das temperaturas pode libertar mais água, o que pode provocar inundações. “No entanto, à medida que o degelo acelera, os glaciares eventualmente ficam tão pequenos que, embora estejam a derreter muito depressa, já há menos para derreter.”

Os cientistas referem-se a este ponto de transição com o termo “pico de água”, quando o fluxo de água de curto prazo se transforma em escassez de longo prazo.

Embora os EUA e outros países pelo mundo inteiro, incluindo o Chile, se tenham comprometido em reduzir as emissões que alimentam as alterações climáticas, a região central do Chile deve preparar-se para os piores cenários.

René Garreaud é cauteloso ao dizer que Santiago pode atingir um “dia zero” em que fica sem água, tal como os habitantes da Cidade do Cabo, na África do Sul, receavam que pudessem ficar sem água em 2018. René está otimista de que a região se consegue adaptar, usando a água com mais eficiência e reduzindo o consumo. A cidade também está a construir a sua primeira central de dessalinização.

Só há mais três estações meteorológicas de alta altitude na bacia do rio Maipo, e Gino Casassa espera que esta nova estação se torne numa de muitas. Gino e a sua equipa planeiam instalar mais por todo o Chile.

A Expedição ao vulcão Tupungato foi organizada pela National Geographic Society e financiada pela Rolex como parte da sua iniciativa Perpetual Planet.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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