Incêndios ‘zombie’ no Ártico estão ligados às alterações climáticas

Os verões mais quentes e as épocas mais longas de queima significam que os incêndios do ano anterior podem regressar na primavera seguinte.

Publicado 21/05/2021, 12:06 WEST
“incêndios zombie”

Incêndios florestais no norte da Rússia no início de maio de 2021. Quando os incêndios surgem tão cedo no início da época, os cientistas tentam descobrir se foram provocados por “incêndios zombie” que deflagraram no ano anterior.

Fotografia de Copernicus Sentinel/Sentinel Hub processado por Pierre Markuse

No extremo Norte, a época de incêndios geralmente só começa em junho, quando a neve derrete e as trovoadas de verão fustigam a região. Contudo, em maio de 2016, o cientista Sander Veraverbeke ficou confuso quando observou pequenas manchas de fogo em algumas imagens de satélite do Alasca e dos Territórios do Noroeste.

“Fiquei do género: mas que raio está a acontecer?” diz Sander, cientista da Terra da Universidade Livre de Amsterdão, nos Países Baixos.

O que Sander viu nas imagens de satélite eram “incêndios zombie”, resquícios de incêndios do ano anterior que de alguma forma permaneceram vivos a queimar no subsolo durante o frio e longo inverno.

Os incêndios zombie não são um fenómeno completamente novo no Ártico; os observadores de incêndios já detetaram fogos ocasionais nas últimas décadas. Mas a equipa de Sander Veraverbeke descobriu que as suas ocorrências estão intimamente ligadas às alterações climáticas, e estão a acontecer com mais frequência após longos e quentes verões com muitos incêndios, sugerindo que estes eventos raros podem tornar-se mais frequentes.

“O simples facto de isto estar a acontecer é uma evidência da rapidez com que a região está a mudar”, diz Sander.

Os incêndios no Ártico estão a mudar

Tal como acontece com todas as florestas, os trechos arborizados do Ártico também se incendeiam. Mas, ao contrário de muitas florestas nas latitudes médias, que prosperam ou precisam do fogo para preservar a sua saúde, as florestas árticas evoluíram para arder com pouca frequência.

Porém, as alterações climáticas estão a remodelar este regime. Na primeira década do novo milénio, os incêndios queimaram anualmente mais 50% de área no Ártico do que em qualquer década do século XX. Entre 2010 e 2020, a área queimada continuou a aumentar, sobretudo no Alasca, que teve o seu segundo pior ano de incêndios em 2015 e outro ano mau em 2019. Os cientistas descobriram que a atual frequência de incêndios é maior do que em qualquer momento desde a formação das florestas boreais, há cerca de 3.000 anos, e potencialmente mais elevada do que em qualquer momento nos últimos 10.000 anos.

Os incêndios nas florestas boreais podem libertar ainda mais carbono do que os incêndios semelhantes em lugares como a Califórnia, ou a Europa, porque os solos subjacentes às florestas de alta latitude costumam ser feitos de turfa antiga e rica em carbono. Em 2020, os incêndios no Ártico libertaram quase 250 megatoneladas de dióxido de carbono, cerca de metade do que a Austrália emite num ano de atividades humanas, e cerca de 2.5 vezes mais do que o recorde da época de incêndios florestais na Califórnia em 2020.

Em hibernação na turfa

A turfa é composta por vegetação morta – musgo, restos de árvores e de arbustos, e outras plantas árticas – que não se degrada por completo, e forma-se em regiões húmidas e frias do mundo onde a matéria orgânica se degrada lentamente. As reservas de turfa acumulam-se ao longo de séculos ou milénios; solos com apenas alguns metros de profundidade podem ter milhares de anos. Hoje, as turfeiras cobrem cerca de 1.6 milhões de hectares no Ártico e armazenam cerca de 415 mil milhões de toneladas de carbono, muito mais do que as florestas ainda mais a norte e a mesma quantidade que todas as árvores da Terra.

Noutras partes do mundo, os solos geralmente não contêm muito material orgânico incinerável, pelo que os incêndios se alimentam do que encontram à superfície – árvores, arbustos, casas. No Ártico, os incêndios geralmente começam na superfície, provocados pelas trovoadas de verão ou ocasionalmente por humanos. Mas sob os tipos de condições provocadas pelas alterações climáticas, que se estão a tornar mais comuns na região – verões quentes e longos com vagas de calor particularmente elevadas que sugam toda a humidade das plantas e do solo – a turfa subjacente pode incendiar.

“São solos antigos”, diz Jessica McCarty, cientista da Universidade de Miami em Ohio. “A turfa na Sibéria é muito antiga. Estes incêndios estão a começar a queimar solos que evoluíram ao lado do Homo sapiens.” A maior parte da turfa na América do Norte é mais jovem, apesar de ter uns milhares de anos.

Assim que pega fogo, a turfa pode fornecer um habitat para os incêndios persistirem durante muito tempo após as chamas superficiais se extinguirem – e pode durar dias, semanas, meses ou até anos.

“A turfa tem tudo o que um fogo precisa para se sustentar”, diz Rebecca Scholten, da Universidade Livre de Amesterdão, autora principal da nova investigação. “Pode queimar com intensidade suficiente para se sustentar durante o inverno, hibernando até à primavera seguinte, quando a neve derrete e dá novamente ao fogo uma oportunidade para emergir na superfície.

A longa queima

A existência de incêndios zombie – chamados “hibernantes” ou “remanescentes” pela maioria dos especialistas – já é conhecida há algum tempo. Em 1941, por exemplo, um incêndio provocado por humanos ao longo de uma linha férrea no Alasca queimou mais de 160.000 hectares. No mês de maio seguinte, o incêndio reapareceu; e quando finalmente foi extinto, já tinha consumido outros 120.000 hectares. Nas décadas mais recentes, as autoridades do Alasca e dos Territórios do Noroeste têm acompanhado dezenas de incêndios que as suas equipas de prevenção encontram durante o inverno.

Mas os cientistas não sabiam se havia mais incêndios zombie que não tinham sido registados, ou se estavam a ficar mais frequentes conforme o clima do Ártico aquecia rapidamente – embora suspeitassem que isso fosse provável.

“Há cerca de dez anos, alguém me perguntou com que frequência é que isto acontecia. Eu disse que eram incêndios interessantes, mas que não aconteciam com muita frequência”, diz Randi Jandt, ecologista da Universidade do Alasca, em Fairbanks.

Mas a opinião de Randi mudou. “Aparentemente, estamos a ver mais do que vimos nos meus 30 anos de observação, e pelo que sei ao perguntar às pessoas na região.”

A realidade só se abateu sobre Randi em 2019, quando incêndios enormes queimaram mais de 1.1 milhões de hectares no Alasca. As equipas de bombeiros trabalharam sem parar para conter fogo atrás de fogo, e no final da época de incêndios pensaram que tinham seguramente apagado todas as chamas.

Mas na primavera seguinte, com o degelo da neve, plumas de fumo começaram a surgir no início de maio, muito antes do suposto início da época de incêndios.

“Comparamos imagens de uma zona que um dia está completamente branca, e depois olhamos para o mesmo lugar dois dias depois e tem um pequeno ponto com fumo a sair”, diz Mark Parrington, investigador do Serviço de Monitorização Atmosférica de Copérnico, um grupo do Centro Europeu de Previsão do Tempo a Médio Prazo.

Mark mantém um registo detalhado dos incêndios em todo o Ártico, procurando pontos de foco em imagens de satélite. Nos últimos anos, nos quais o Alasca, a Sibéria e o norte do Canadá arderam agressivamente, a comunidade de investigadores que acompanha os incêndios normais e os “remanescentes” aumentou.

“Não havia muito foco na atividade de incêndios no Ártico porque não havia muitos incêndios”, diz Mark, mas isso está rapidamente a mudar.

Para criar um registo mais detalhado sobre os incêndios zombie na América do Norte, e para perceber se estavam ligados às alterações climáticas, Sander Veraverbeke, Rebecca Scholten e a sua equipa perscrutaram 20 anos de imagens de satélite das regiões de florestas boreais do Alasca e dos Territórios do Noroeste. Os investigadores construíram um algoritmo que conseguia detetar as pequenas manchas de fogo que surgiam perto das cicatrizes de incêndios de verões anteriores.

Como os incêndios de turfa subterrâneos geralmente se movem lentamente, um pouco mais de 2.5 centímetros por hora no máximo – apenas cerca de 100 vezes mais depressa do que um cabelo demora a crescer – era possível excluir incêndios que estivessem muito distantes da queima do ano anterior. A equipa limitou a sua investigação às chamas que surgiam no início do ano, antes de as trovoadas começarem novos incêndios.

De 2002 a 2018, os investigadores encontraram evidências de 20 grandes incêndios durante o inverno que não tinham sido previamente detetados pelas equipas de prevenção. Ao todo, os incêndios zombie representam menos de 1% de toda a área queimada na região – uma pequena fração. Como diz Randi Jandt, “isso não vai manter as equipas de prevenção acordadas à noite”.

Mas estes incêndios “remanescentes” mostram uma relação preocupante, embora pouco surpreendente, com as alterações climáticas. Os verões quentes geram incêndios enormes que geralmente duram até ao final da época, e os restos destes fogos têm muito mais probabilidades de sobreviver durante o inverno. Nos Territórios do Noroeste, os incêndios zombie surgem após cada um dos seis verões mais quentes de que há registo, ao passo que nenhum sobreviveu ao inverno após os verões mais frios.

“Havia uma relação muito clara entre os incêndios ‘remanescentes’, as temperaturas  elevadas e a área queimada”, diz Rebecca. Estes padrões provavelmente irão aumentar no futuro, à medida que as alterações climáticas intensificam o potencial de incêndios na região do Ártico.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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