Existe um novo oceano – consegue nomear os 5?

No Dia Mundial dos Oceanos, os cartógrafos da National Geographic afirmaram que a rápida corrente que circula a Antártida mantém as suas águas distintas e dignas de um nome próprio: Oceano Antártico.

Publicado 2/07/2021, 14:07 WEST
Quinto oceano

O Estreito de Gerlache fica na costa oeste da Península Antártica, na grande faixa de oceano que rodeia a Antártida e que foi reclassificada como Oceano Antártico pelos cartógrafos da National Geographic. Este estreito já foi considerado parte do Pacífico.

Fotografia de Jasper Doest, Nat Geo Image Collection

Quem está familiarizado com o Oceano Antártico, o corpo de água que circunda a Antártida, sabe que este oceano é diferente de qualquer outro.

“Qualquer pessoa que já esteve na região tem dificuldade em explicar o que há de tão hipnotizante sobre ela, mas todos concordam que os glaciares são mais azuis, o ar mais frio, as montanhas mais intimidantes e as paisagens mais cativantes do que em qualquer outro lugar que possamos visitar”, diz Seth Sykora-Bodie, cientista marinho da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) dos EUA e Explorador da National Geographic.

Desde que a National Geographic começou a fazer mapas em 1915, foram reconhecidos quatro oceanos: os oceanos Atlântico, Pacífico, Índico e Ártico. Desde o dia 8 de junho, Dia Mundial dos Oceanos, a National Geographic reconhece o Oceano Antártico como o quinto oceano mundial.

“O Oceano Antártico é reconhecido pelos cientistas há muito tempo, mas como nunca houve um acordo internacional, nunca o reconhecemos oficialmente”, diz  Alex Tait, geógrafo da National Geographic Society.


Os geógrafos têm questionado se as águas em torno da Antártida possuem características únicas o suficiente para merecer o seu próprio nome, ou se são simplesmente extensões frias a sul dos oceanos Pacífico, Atlântico e Índico.

“É uma espécie de curiosidade geográfica em alguns aspetos”, diz Alex. Tanto este geógrafo como o comité de normas de mapas da National Geographic Society consideram esta mudança há anos, percebendo que os cientistas e a imprensa usam cada vez mais o termo Oceano Antártico.

Esta alteração, acrescenta Alex, está alinhada com a iniciativa de conservação dos oceanos mundiais da National Geographic Society, que tem como foco a consciencialização pública sobre uma região que necessita particularmente de conservação.

“Nós atribuímos-lhe sempre um rótulo, mas fazíamo-lo de maneira um pouco diferente [da dos outros oceanos]”, diz Alex. “Esta mudança é o passo que faltava e mostra que o queremos reconhecer devido à sua distinção ecológica.”

Sylvia Earle, bióloga marinha e Exploradora da National Geographic, elogiou esta atualização cartográfica.

“Embora seja apenas um oceano interligado, parabéns à National Geographic por reconhecer oficialmente o corpo de água que circunda a Antártida”, escreveu Sylvia num comunicado enviado por email. “Rodeado pela formidavelmente veloz Corrente Circumpolar Antártica, este é o único oceano a tocar três outros oceanos e a abraçar por completo um continente, em vez de ser abraçado por continentes.”


Um oceano definido pela sua corrente

Enquanto os outros oceanos são definidos pelos continentes que os rodeiam, o Oceano Antártico é definido por uma corrente.

Os cientistas estimam que a Corrente Circumpolar Antártica (CCA) se estabeleceu há cerca de 34 milhões de anos, quando a Antártida se separou da América do Sul. Esse evento permitiu um fluxo desimpedido de água na parte inferior da Terra.

A CCA flui de oeste para leste em torno da Antártida, numa ampla faixa flutuante que se centra aproximadamente em torno da latitude 60 graus sul – a linha que agora é definida como o limite norte do Oceano Antártico. Dentro da CCA, as águas são mais frias e um pouco menos salgadas do que as águas oceânicas mais a norte.

A circulação oceânica define o Oceano Antártico.

Estendendo-se desde a superfície da água até ao fundo do oceano, a CCA transporta mais água do que qualquer outra corrente oceânica. Esta corrente atrai águas dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico, ajudando a impulsionar um sistema de circulação global conhecido por correia transportadora, que transporta calor em torno do planeta. A água fria e densa que desce para o fundo do oceano na Antártida também ajuda a armazenar carbono nas profundezas do mar. Portanto, o Oceano Antártico tem um impacto crucial no clima da Terra.

Os cientistas estão a atualmente a estudar como é que as alterações climáticas provocadas pelo homem estão a alterar o Oceano Antártico. Sabe-se que a água do oceano que se move através da CCA está a aquecer, mas não se sabe de que forma está a afetar a Antártida. Algum do degelo mais rápido dos mantos e plataformas de gelo do continente foram em locais onde a CCA está mais perto de terra.

Um ambiente como nenhum outro

Por enquanto, com as águas geladas bloqueadas a sul, a CCA ajuda a manter a Antártida fria e o Oceano Antártico ecologicamente distinto. Milhares de espécies que aqui vivem não existem em mais lado nenhum.

“O Oceano Antártico tem ecossistemas marinhos únicos e frágeis que abrigam uma vida marinha maravilhosa, como baleias, pinguins e focas”, diz Enric Sala, Explorador da National Geographic.

Para além de tudo isto, o Oceano Antártico também tem efeitos ecológicos noutros lugares. As baleias-jubarte, por exemplo, alimentam-se de krill ao largo da Antártida e migram para norte para passar o inverno em ecossistemas muito diferentes dos da América do Sul e Central. Algumas aves marinhas também migram para dentro e para fora destes ecossistemas.

Ao chamar a atenção para o Oceano Antártico, a National Geographic Society espera promover a sua conservação.

Os impactos da pesca industrial sobre espécies como o krill e a pescada-negra (comercializada como robalo do Chile) são há décadas uma preocupação no Oceano Antártico. Em 1982, foram impostos limites de captura na região. A maior área marinha protegida (AMP) do mundo foi estabelecida em 2016 no Mar de Ross, ao largo da Antártida Ocidental. Várias organizações estão a trabalhar para reservar mais zonas de AMP para proteger as áreas de alimentação mais críticas do Oceano Antártico, como por exemplo a zona ao largo da Península Antártica.

“Muitas nações de todo o mundo apoiam a proteção de algumas destas áreas”, diz Enric Sala.

Mapear o mundo como ele é

Desde o final dos anos 1970 que a National Geographic Society emprega um geógrafo que supervisiona as mudanças e ajustes em todos os mapas publicados. Alex Tait está nesta função desde 2016.

Alex diz que adota uma abordagem jornalística para este processo. Isto envolve ficar a par dos eventos atuais e monitorizar quem controla quais áreas do mundo.

“É importante sublinhar que se trata de uma norma de mapas, não de uma norma sobre a posição da National Geographic em relação a disputas [geopolíticas]”, diz Alex. Por exemplo, os mapas da National Geographic mostram que o Reino Unido controla as Ilhas Malvinas, embora a Argentina também as reivindique. Em áreas disputadas, Alex trabalha com uma equipa de geógrafos e editores para determinar o que representa com mais precisão uma determinada região.

Existem pequenas mudanças que acontecem semanal ou quinzenalmente. Mas as mudanças grandes, como rotular o Oceano Antártico, são mais raras.

Geralmente, a National Geographic segue as diretrizes da Organização Hidrográfica Internacional (OHI) sobre os nomes marinhos. Embora não seja diretamente responsável pela sua determinação, a OHI trabalha com o Grupo de Peritos em Nomes Geográficos das Nações Unidas para padronizar os nomes à escala internacional. A OHI reconheceu o Oceano Antártico nas suas diretrizes em 1937, mas revogou essa designação em 1953, citando controvérsias. A organização tem deliberado sobre o assunto desde então, mas ainda não tem o consenso total dos seus membros para reintegrar o Oceano Antártico.

Contudo, o Conselho sobre Nomes Geográficos dos EUA usa esta designação desde 1999. Em fevereiro deste ano, a NOAA reconheceu oficialmente o Oceano Antártico como sendo distinto.

Alex diz que a nova norma da National Geographic terá um impacto sobre a forma como as crianças que usam mapas na escola irão aprender a ver o mundo.

“Acho que um dos maiores impactos acontece através da educação”, diz Alex. “Os alunos aprendem informações sobre os oceanos através do que estão a estudar. Se não incluirmos o Oceano Antártico, não aprendemos detalhes sobre o mesmo e não sabemos como é importante.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados