As reduções no metano acordadas na COP26 podem ser vitais para cumprir as metas climáticas

Este compromisso, liderado pelos EUA e pela UE, visa reduzir as emissões de um gás com efeito de estufa extremamente potente em 30% até 2030.

Publicado 4/11/2021, 12:44
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Na terça-feira, mais de uma centena de países reunidos na cimeira do clima COP26 em Glasgow, na Escócia, comprometeram-se a reduzir as emissões de metano com o objetivo de limitar o aquecimento atmosférico provocado por fugas de gás em locais como este, na Reserva Indígena Fort Berthold de Dakota do Norte em 2018.

Fotografia de Gabriella Demczuk,The New York Times/Redux

Na terça-feira, na cimeira do clima COP26 em Glasgow, os líderes mundiais anunciaram que mais de 100 países tinham assinado um compromisso para reduzir as suas emissões de metano em 30% até 2030.

Se o mundo inteiro atingisse esta meta, as temperaturas durante as próximas décadas subiriam menos de 0,2 graus Celsius – uma redução potencialmente enorme que, em teoria, poderá manter os níveis do aquecimento global abaixo dos 1,5 graus.

Mas muitos dos grandes emissores, casos da China, Rússia e Índia, ainda não aderiram ao Compromisso Global do Metano. Estes países são responsáveis por cerca de 35% de todas as emissões de metano de origem humana.

Reduzir as emissões de metano “não só responde às futuras alterações climáticas, como também mitiga as alterações climáticas que já estão a acontecer agora”, diz Ilissa Ocko, especialista em metano do Fundo de Defesa Ambiental.

Os Estados Unidos e a União Europeia, que são respetivamente o terceiro e o sexto maiores emissores de metano do mundo, anunciaram o compromisso em setembro. Desde então, obtiveram o apoio de muitos outros grandes emissores, como o Brasil, a Indonésia e a Nigéria, o suficiente para equivaler a mais de 40% das emissões globais deste gás com efeito de estufa extremamente potente, de acordo com as estimativas de emissões da Agência de Proteção Ambiental dos EUA.

Apesar de ser muito potente, o metano dura pouco tempo na atmosfera. Portanto, qualquer ação que reduza rapidamente a sua concentração pode trazer enormes benefícios para o clima nas próximas décadas. Para além disso, as emissões de metano podem muitas vezes ser reduzidas com poucos ou nenhuns custos.

Na terça-feira, a administração de Joe Biden anunciou planos para regular as fugas de metano em mais de um milhão de plataformas de petróleo e gás nos EUA.

“É uma situação onde todos ganham”, diz Lena Höglund Isaksson, especialista em metano do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados na Áustria.

Agir rapidamente sobre o metano pode ter grandes impactos

Os resultados de uma ação rápida dependem da física.

Quando é lançado na atmosfera, o metano absorve calor de uma forma extraordinariamente poderosa: retendo cerca de 100 vezes mais calor do que o dióxido de carbono. Mas enquanto o dióxido de carbono persiste durante séculos na atmosfera, a maior parte do metano converte-se em dióxido de carbono ou é eliminado da atmosfera em cerca de uma década. Quando calculamos os efeitos das emissões de metano da atualidade e aplicamos esses resultados aos próximos 20 anos – uma estrutura comum que é utilizada para analisar a potência de diferentes gases de efeito estufa – o metano provoca cerca de 80 vezes mais aquecimento do que a mesma quantidade de dióxido de carbono. Ao longo de 100 anos, este efeito resulta num aquecimento do planeta cerca de 30 vezes superior.

“É uma realidade assustadora, mas também é uma realidade que oferece uma grande oportunidade”, diz Kathleen Mar, química atmosférica do Instituto de Estudos Avançados de Sustentabilidade da Alemanha. Como o metano é tão poderoso, reduzir a sua carga atmosférica, mesmo que ligeiramente, pode reduzir drasticamente a subida da temperatura. E como dura tão pouco, se reduzirmos as suas emissões, a sua concentração na atmosfera cai com relativa rapidez. No espectro oposto, a concentração atmosférica de dióxido de carbono só irá começar a descer quando o mundo reduzir as emissões para quase zero.

“Se for cumprido, o Compromisso Global do Metano é o suficiente para aplanar a curva das emissões... para começar realmente a baixar, e isso é uma mudança verdadeiramente importante”, diz Kathleen Mar.

No início deste ano, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) divulgou a Avaliação Global do Metano, um relatório que concluiu que, até 2030, com relativamente pouco esforço e tecnologias já disponíveis, as emissões de metano podem ser reduzidas em 45%.

Os cientistas descobriram que uma redução com esta escala evitaria que as temperaturas subissem cerca de 0,3 graus. Mesmo uma redução de 30%, uma fração do que é sugerido no compromisso, pode reduzir o futuro aquecimento em cerca de 0,2 graus.

“A curto prazo, o metano pode ajudar-nos a ficar abaixo das metas [do Acordo de Paris] enquanto resolvemos o problema do CO2”, diz Lena Höglund Isaksson. 

Como é que se coloca em prática?

A forma de decretar cortes no metano é uma questão que ainda permanece em aberto. Os detalhes vão ficar ao critério de cada país que aderir ao compromisso.

Mas há muitas emissões para reduzir, já que os humanos são responsáveis por cerca de dois terços de todo o metano presente na atmosfera, elevando as suas concentrações mais depressa do que nunca – atingindo níveis que o planeta não sentia há 800.000 anos.

Reduzir todas estas emissões é difícil, mas existem alguns lugares óbvios para começar, diz Lena Höglund Isaksson. A indústria do petróleo e gás é anualmente responsável por cerca de 35 a 40% de todas emissões, maioritariamente devido a fugas em poços, ao longo de condutas e em estações de transferência. (As minas de carvão são outra das fontes.)

Estes problemas são mais comuns ao longo de toda a cadeia de combustíveis fósseis do que se pensava anteriormente. Nos EUA, a exploração de petróleo e gás na Bacia do Permiano do Texas e Novo México é uma fonte importante e crescente de emissões; na Rússia, as fugas de metano dos oleodutos aumentaram 40% em 2020 e continuaram a aumentar este ano. Um estudo recente sobre as fugas de gás natural em Boston também sugere que as emissões das redes de distribuição urbanas podem ser muito mais elevadas do que se estimava.

O relatório do PNUMA estima que a indústria do petróleo e gás pode reduzir até 75% das suas fugas de metano com poucos custos, ou até sem custos adicionais – o que significa que esta indústria pode até lucrar a fazer algo que ajudaria o planeta.

A tecnologia de deteção de fugas está a progredir rapidamente. Os novos satélites de alta resolução conseguem localizar fugas num raio de centenas de metros, e muitos mais satélites devem ser lançados nos próximos anos. Estes dados podem ajudar as empresas que estão interessadas a acabar com as suas fugas de gás – e permitir que os grupos ambientais acompanhem quem corrige ou não os seus problemas. Neste âmbito, o Observatório Internacional de Emissões de Metano é uma nova colaboração que visa fornecer dados de monitorização independentes.

“O mais importante é que a indústria já sabe como pode reduzir as suas emissões – em alguns casos num fator elevado a dez”, diz Steven Hamburg, especialista em metano do Fundo de Defesa Ambiental. “É muito bom quando temos problemas que sabemos que podemos resolver.”

Em 2016, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA estabeleceu regras que exigiam às novas infraestruturas de petróleo e gás a monitorização cuidadosa das fugas de metano. Estas regras, enfraquecidas durante a administração de Donald Trump, foram restabelecidas em junho de 2021, mas cobriam apenas uma fração das fontes potenciais. Agora, Biden pretende expandir os regulamentos para incluir as infraestruturas já existentes, cobrindo assim uma faixa muito mais vasta de fontes de metano. Uma “taxa” sobre a fuga excessiva de metano, que cobraria aos produtores as emissões para além de um determinado limite, também está a ser considerada nas negociações sobre o orçamento que estão a decorrer no Congresso norte-americano.

Também existem formas relativamente simples de reduzir as emissões de metano de uma das suas fontes principais: o lixo. O metano é produzido quando as bactérias decompõem o material orgânico em resíduos – alimentos, águas residuais e muitas outras coisas – e pode ser capturado em estações de tratamento e aterros sanitários. A Europa já fez um progresso significativo, reduzindo as suas emissões de resíduos em cerca de 20% desde 2010. Outros países provavelmente teriam de investir bastante para fazer grandes reduções.

A agricultura, outra fonte importante, é um desafio mais difícil. A produção de gado, laticínios e arroz gera enormes quantidades de metano, mas há soluções em desenvolvimento para estas emissões.

“Apesar do sucesso do Compromisso Global do Metano ser inestimável, nunca poderemos usar a redução do metano como desculpa para abrandar a ação sobre o dióxido de carbono”, enfatiza Lena Höglund Isaksson. “Mas, dado que o aquecimento global já atingiu um estado tão terrível”, acrescenta Ilissa Ocko, “precisamos destas duas estratégias: reduzir o CO2 e o metano…. porque andam de mãos dadas”.

Uma opção poderosa

O britânico Alok Sharma, líder da cimeira COP26, estabeleceu como objetivo da conferência “manter os 1,5 vivos”, forçando os países a acelerar as suas reduções nas emissões para evitar que a temperatura suba para além dos 1,5 graus, uma meta que foi inicialmente articulada no Acordo de Paris em 2015.

A importância desta meta tem aumentado desde 2015, à medida que os cientistas refinam a sua compreensão sobre os custos físicos, sociais e económicos que as alterações climáticas já estão a exercer. Em 2018, um relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) mostrou que os riscos aumentam para muitos dos sistemas humanos e ecológicos quando o aquecimento excede os 1,5 a 2 graus Celsius – com estas temperaturas, cerca de 400 milhões de pessoas ficam expostas ao perigo de vagas de calor extremo. Os recifes de coral “podem desaparecer quase por completo”. Com a meta dos 1,5 graus, alguns recifes podem sobreviver.

Outro relatório do IPCC, divulgado em agosto, reforçou a mensagem de que por cada 0,1 graus de aquecimento extra, as consequências vão-se intensificando. Uma vaga de calor brutal que no passado aconteceria, em média, uma vez a cada 50 anos, poderá ter uma frequência 8.6 vezes mais elevada num mundo com 1,5 graus de aquecimento e quase 14 vezes mais num mundo de 2 graus, tornando a possibilidade de vagas de calor mortais como a deste verão no noroeste do Pacífico muito mais comuns.

Porém, até agora, os países nem sequer apresentaram planos – quanto mais ações – que os aproximem de manter o aquecimento abaixo dos 2 graus, quanto mais dos 1,5 graus. Quando somadas, as “Contribuições Nacionalmente Determinadas” (ou NDC), que os países enviaram antes da cimeira COP26, ainda colocam a Terra a caminho de aquecer mais 2,7 graus.

Portanto, qualquer ação que consiga controlar rapidamente o aumento da temperatura, enquanto se trabalha arduamente para reduzir todas as emissões de combustíveis fósseis, é algo inestimável. O metano, diz Ilissa Ocko, “é um lugar incrível para começar”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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