A relação entre tornados e alterações climáticas ainda não é completamente compreendida

Ao contrário das vagas de calor e das grandes inundações, as investigações sobre alterações climáticas e tornados ainda estão na sua infância.

Publicado 16/12/2021, 12:00 , Atualizado 16/12/2021, 16:43
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Caçadores de tempestades param perto de um tornado formado sob uma tempestade supercelular. Embora os cientistas tenham uma compreensão clara sobre a forma como as alterações climáticas irão influenciar desastres como inundações e incêndios, as influências que exercem sobre os tornados ainda estão a ser investigadas.

Fotografia de Mike Theiss, Nat Geo Image Collection

Os tornados que atingiram recentemente os EUA foram alguns dos mais destruidores e mortais da história. O número de mortos no Kentucky, o estado mais afetado, chegou aos 80 na segunda-feira, com dezenas de pessoas ainda desaparecidas.

A escala de destruição e o momento em que os tornados surgiram, já perto do final do ano – a maioria dos tornados surge na primavera e no verão – está a fomentar debates sobre a forma como as alterações climáticas podem ter influenciado este evento dramático.

“Nos meus 40 anos de carreira enquanto meteorologista, este foi um dos eventos climáticos mais chocantes que já testemunhei”, diz Jeff Masters, meteorologista da Yale Climate Connections. “Ao ver estas tempestades na noite de sexta-feira, o meu pensamento foi o de que nenhuma estação do ano é segura. Tornados extremos em dezembro? Para mim, foi uma coisa inesperada.”

Ao contrário das vagas de calor e inundações, a ligação entre um mundo em aquecimento e os tornados é complicada e inconclusiva. Os cientistas têm várias teorias sobre a forma como o comportamento de um tornado pode mudar. É possível virmos a assistir a mais tornados em dezembro e a uma mudança em direção ao sudeste dos Estados Unidos. Ainda não se sabe exatamente como é que as alterações climáticas irão tornar os tornados mais intensos ou frequentes.

Apesar do aumento registado no número geral de tornados observados desde 1950 – de acordo com dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA – os especialistas dizem que estes registos devem-se, em grande parte, aos avanços feitos na tecnologia, como o radar Doppler. Porém, ao longo do tempo, não se observou um aumento na frequência de grandes tornados.

Por exemplo, os 59 tornados de categoria F5 mais severos que atingiram os Estados Unidos só foram registados desde 1950. Contudo, se for confirmado que a tempestade que devastou agora o Kentucky era F5, terá sido a primeira desde 2013 – encerrando o período mais longo de que há registo sem um tornado verdadeiramente catastrófico.

No entanto, dada a influência generalizada do aquecimento global na atmosfera, faz sentido que as alterações climáticas também tenham um impacto sobre os tornados, diz Victor Gensini, especialista em climas extremos da Universidade Northern Illinois.

“Em vez de perguntarmos se foram as alterações climáticas que provocaram estes tornados, devemos partir do pressuposto que as alterações climáticas desempenharam um papel. Devemos começar com a premissa de que todos os eventos extremos estão a ser afetados pelas alterações climáticas.”

Como os tornados estão a mudar

Para compreender as teorias dos cientistas de que as alterações climáticas estão a afetar os tornados, é importante perceber como é que o ar quente e húmido, que flui sob o ar frio e seco, cria condições atmosféricas mais instáveis.

À medida que o ar quente sobe para o ar mais frio, o cisalhamento do vento – uma mudança repentina na velocidade ou direção do vento – pode fazer com que esse ar se mova para cima em espiral, criando assim um tornado.

O aquecimento global coloca mais calor na atmosfera e cria mais energia, podendo alimentar os tornados. Os tornados de grandes dimensões em dezembro são raros porque é uma altura do ano com tendência para estar mais frio, mas os EUA registaram um calor invulgar neste ano, incluindo no Golfo do México, a fonte de origem da humidade que alimenta as tempestades que geram tornados.

“É como se o Golfo do México estivesse febril”, diz Victor Gensini. “Na sexta-feira de manhã, olhámos para os mapas meteorológicos e parecia um dia de primavera.”

Nesse mesmo dia em Memphis, no Tennessee, foram registadas temperaturas recorde; e o tornado percorreu partes deste estado norte-americano

Ainda não se sabe exatamente como é que as alterações climáticas irão afetar os ventos que alimentam os tornados.

Pode dar-se o caso de as temperaturas mais quentes poderem estar a diminuir o cisalhamento do vento que acelera os tornados: o Ártico está a aquecer mais depressa do que as latitudes mais baixas, reduzindo a diferença de temperatura entre ambos os locais e enfraquecendo os ventos produzidos pela corrente de jato – reduzindo assim a força de cisalhamento do vento.

“Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer”, diz Jeff Masters. “Contudo, quando as condições estão propícias para o aparecimento de um tornado, mais calor significa que podemos ter eventos mais destruidores, porque há mais energia armazenada.” Isto significa que pode haver mais tempo entre o aparecimento de tornados, mas depois resulta numa espécie de surto de tornados. De facto, um estudo encontrou um aumento no número médio de tornados por surto ao longo das décadas.

As investigações sobre tornados são desafiadoras porque estes eventos geralmente acontecem em escalas muito mais pequenas do que acontece com outros tipos de climas extremos, dificultando a obtenção de dados suficientes para se chegar a uma conclusão. Embora o tornado que atingiu o Kentucky tenha viajado mais de 320 quilómetros em cerca de três horas, os tornados pequenos têm sido historicamente mais difíceis de observar, levando a uma base de dados incompleta para comparar com os tornados da atualidade.

Alteração geográfica

Um estudo publicado em 2018, que analisava as observações de tornados desde 1979, revelou uma mudança nas localizações dos tornados, que passaram ligeiramente da região oeste do rio Mississippi para a margem leste do rio, para estados mais populosos como o Kentucky e Arkansas.

“Pensamos que isto se pode dever às alterações climáticas. Mas também pode ser uma variabilidade natural”, diz Victor Gensini, um dos autores do estudo. “É o mesmo que acontece quando nos pesamos e percebermos que engordámos 7 quilos, mas não sabemos se foi devido a uma dieta pobre ou à falta de exercício.”

No entanto, uma ligeira mudança geográfica pode ter consequências importantes se as tempestades se tornarem mais comuns em partes mais densamente povoadas dos EUA. Um tornado que atinge um milheiral é menos perigoso do que um tornado que atravessa uma região habitada.

“O mais assustador é que no sudeste dos EUA [há] cada vez mais casas pré-fabricadas”, diz Stephen Strader, geógrafo que estuda os riscos climáticos extremos na Universidade Villanova. “Nestes locais, as probabilidades não jogam a nosso favor.”

De um modo geral, os americanos fizeram vários progressos na proteção contra tornados: quando se leva em consideração o aumento da população, a taxa de mortalidade devido aos tornados diminuiu drasticamente nos últimos cem anos, em grande parte devido às melhorias na previsão do tempo e aos sistemas de alerta.

Mas a forma como construímos as nossas comunidades – e a fragilidade que temos perante os tornados – terá um grande impacto na quantidade de mortes e destruição.

“Podemos salvar inúmeras vidas se melhorarmos a forma como as casas são ancoradas ao solo”, acrescenta Stephen Strader.

Apesar da relação entre tornados e alterações climáticas ainda não ser evidente, os meteorologistas preveem que as condições favoráveis para a formação de tornados irão persistir durante este mês.

“Para ser sincero, estou preocupado com o que vai acontecer até ao final do ano. Creio que ainda não estamos livres de perigo”, diz Victor Gensini.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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