Os desastres climáticos de 2021 colocaram a nu a realidade das alterações climáticas

As vagas de calor, inundações e secas extremas deste ano mostraram-nos que as alterações climáticas já chegaram – e que são mortíferas.

Por Sarah Gibbens
Publicado 15/12/2021, 12:56
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Membros das Forças Canadianas enchem sacos de areia para criar um dique improvisado atrás das casas em Abbotsford, na Colúmbia Britânica, onde as chuvas do mês passado deram origem a inundações catastróficas.

Fotografia por Darryl Dyck, The Canadian Press, Ap

Desde o calor abrasador na América do Norte às inundações que bateram recordes na Europa e na Ásia, o clima deste ano mostrou-se como é viver num mundo que aqueceu 1.1 graus Celsius ao longo do último século.

“O perigo das alterações climáticas já chegou. Esta é uma dura realidade que devemos reconhecer”, diz Michael Wehner, investigador de condições meteorológicas extremas do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley.

O clima extremo já está a destruir habitações, negócios e vidas. As inundações recentes no Canadá podem ser as mais dispendiosas da história do país, com danos avaliados em cerca de 7.5 mil milhões de dólares. Juntos, os 18 desastres climáticos que atingiram os Estados Unidos em 2021 provocaram estragos no valor de 100 mil milhões de dólares, de acordo com as estimativas mais recentes.

Em agosto, Michael Wehner e outros cientistas do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas publicaram um relatório onde indicavam que agora estão mais confiantes do que nunca de que as alterações climáticas estão a influenciar os piores eventos climáticos do mundo, incluindo os cinco eventos que se seguem.

Vaga de calor no noroeste do Pacífico

No dia 27 de junho, os habitantes de Portland enchiam o Centro de Convenções de Oregon, que se tornou num centro de refrescamento temporário quando uma vaga de calor recorde atingiu o noroeste do Pacífico. Nas regiões que não estão habituadas ao calor intenso, muitas das casas não têm ar-condicionado, deixando as pessoas vulneráveis às doenças relacionadas com o calor.

Fotografia por Nathan Howard, Getty Images

O noroeste do Pacífico e o sudoeste do Canadá – uma região com uma população de 13 milhões de pessoas que é conhecida pelo seu clima ameno e chuvoso – registaram temperaturas mortais neste verão. Cidades importantes como Portland, Seattle e Vancouver, onde muitas habitações não têm ar-condicionado, registaram temperaturas historicamente elevadas que ultrapassaram os 38 graus.

Este calor intenso resultou de um fenómeno climático chamado “cúpula de calor”, no qual uma área de pressão alta atua como a tampa de uma panela e mantém o calor retido sobre uma região específica.

As investigações feitas sobre esta vaga de calor descobriram que a sua intensidade teria sido “virtualmente impossível” sem os gases de efeito estufa que aquecem o planeta, e que foram emitidos para a atmosfera nos últimos 120 anos. Devido ao calor, centenas de pessoas morreram na região. Um estudo publicado neste verão concluiu que mais de um terço de todas as mortes relacionadas com o calor em todo o mundo podem ser atribuídas às alterações climáticas. Infelizmente, as pessoas com salários mais baixos, problemas de saúde ou idade avançada são as mais afetadas pelo calor.

As plantas e os animais também têm dificuldades em lidar com o calor extremo. No noroeste do Pacífico, morreram milhões de animais marinhos, assim como muitos em terra. Os agricultores chegaram até a ver frutos a assar ainda nas árvores.

Seca extrema na costa oeste dos EUA

No lago Oroville, na Califórnia, os barcos de habitação ficaram numa secção estreita do lago quase vazio. Uma seca extrema assola a costa oeste dos EUA desde 2000 e, neste ano, as condições de seca geraram restrições na utilização de água para os agricultores que dependem do rio Colorado.

Fotografia por Josh Edelson, AFP/Getty Images

Em agosto, os EUA declararam escassez de água no rio Colorado – um acontecimento inédito para este rio. O lago Mead, um dos reservatórios mais importantes deste rio, atingiu níveis historicamente baixos. Embora a declaração de escassez de água tenha provocado cortes para os agricultores no Arizona e em partes do Nevada – com cerca de 40 milhões de pessoas parcialmente dependentes do rio para obter água – as futuras secas podem levar a reduções ainda mais generalizadas sobre o uso de água.

A costa oeste dos EUA já é afetada por uma seca extrema desde 2000. Apesar desta região poder sofrer com períodos de seca independentemente da influência humana, os cientistas dizem que as alterações climáticas estão a piorar as coisas de forma bastante acentuada.

A seca pode criar ciclos perigosos. À medida que o ar aquece, suga mais humidade dos rios, lagos, plantas e até do solo, algo que, por sua vez, pode tornar o solo ainda mais quente e seco.

Embora a seca no oeste dos EUA seja histórica, as alterações climáticas provavelmente irão agravar as secas pelo mundo inteiro, com as regiões historicamente áridas de África e do Médio Oriente a serem as mais afetadas.

Incêndios florestais

No dia 30 de agosto, bombeiros da unidade de Santa Clara tentavam proteger a região de Echo Summit, uma parte montanhosa da Califórnia a leste de Sacramento. O calor intenso e a vegetação seca rasteira criam condições para haver incêndios florestais de maiores dimensões e com maior frequência.

Fotografia por Lynsey Addario, National Geographic

Este ano, o chamado incêndio Dixie na Califórnia foi o segundo maior na história deste estado norte-americano. Mais de 200.000 hectares e cerca de 400 casas foram consumidos pelo fogo, contribuindo para uma época intensa de incêndios que atormentaram a região. Mas América do Norte não está sozinha. Enormes incêndios florestais também deflagraram na Turquia, Grécia e – talvez o mais surpreendente – na Sibéria.

Quando o calor extremo e a seca coincidem, eliminando a humidade do solo e criando campos de vegetação seca, basta uma pequena faísca para dar origem a um incêndio mortal. À medida que as alterações climáticas agravam o calor e a seca, criam condições para que haja mais incêndios de maiores dimensões. Em algumas partes da costa oeste dos EUA, a época de incêndios estende-se agora durante o ano inteiro.

Todos os incêndios florestais deste ano ameaçaram diretamente habitações e empresas – e também produziram poluição atmosférica que é prejudicial para a saúde e ameaçaram espécies em extinção, incluindo as famosas sequoias da Califórnia.

Inundações extremas... em todo o lado

No dia 16 de julho, a região alemã da Renânia do Norte-Vestfália foi inundada devido a chuvas intensas.

Fotografia por David Young, picture alliance/Getty Images

O Canadá, os EUA, a Alemanha e a China foram assolados por chuvas intensas que resultaram em inundações. Em cada um destes locais, o volume de precipitação atingiu níveis históricos.

Na Colúmbia Britânica, os níveis de precipitação bateram recordes em 20 cidades; Nashville teve o quarto dia mais chuvoso da sua história; no Central Park caiu mais chuva numa hora do que nunca; cidades alemãs foram inundadas com mais chuva em dois dias do que num mês normal; e um dia de chuva em Zhengzhou, na China, excedeu o valor de um ano de precipitação média anual.

As tempestades com chuva mais intensa resultam do aquecimento das temperaturas; por cada aumento de 1 grau Celsius, a atmosfera pode reter mais 7% de humidade. Com mais água à sua disposição, as tempestades têm o potencial para despejar chuva suficiente para provocar inundações.

Muitas das inundações deste ano revelaram como os centros populacionais e as rotas de trânsito foram projetadas para um clima que pode em breve vir a desaparecer. Por exemplo, as mercadorias de e para a Ásia ficaram paradas no porto de Vancouver devido às inundações. Nas grandes cidades, os túneis subterrâneos do metro foram inundados e as ruas transformaram-se em rios.

Furacão Ida – de Nova Orleães até Nova Iorque

No dia 29 de agosto, um grupo de pessoas caminhava pelo distrito francês de Nova Orleães durante o furacão Ida. Esta tempestade de categoria 4 atingiu ventos de 240 quilómetros por hora e foi a tempestade mais forte a atingir o Louisiana desde a década de 1850, deixando um rasto de destruição enquanto se deslocava para leste, inundando a cidade de Nova Iorque.

Fotografia por Brandon Bell, Getty Images

As chuvas extremas são uma das principais formas pelas quais as alterações climáticas estão a piorar os furacões. O furacão Harvey, que atingiu Houston em 2017, foi um dos exemplos mais extremos. Esta tempestade despejou 1.5 metros de chuva em algumas partes do Texas.

Mas foi o furacão Ida que evidenciou outra característica perigosa dos furacões alimentados pelas alterações climáticas: a sua rápida intensificação. Isto acontece quando os ventos de um furacão aumentam de velocidade em 55 quilómetros por hora em menos de 24 horas. O furacão Ida ultrapassou bastante esta taxa, atingindo ventos de 95 quilómetros por hora em apenas um dia, passando de uma tempestade de categoria 1 para uma tempestade de categoria 4, com ventos máximos de 240 quilómetros por hora.

Apesar do furacão Ida se ter movido com relativa rapidez, os cientistas esperam que os futuros furacões se movam mais lentamente sobre terra, despejando mais chuva num local e provocando inundações mais extremas. O furacão Harvey fez exatamente isso em Houston e, em 2020, o furacão Sally moveu-se lentamente sobre o Alabama. Os investigadores prevêem que as futuras tempestades mais intensas, mais chuvosas e mais lentas vão provocar ainda mais destruição. À medida que o nível do mar continua a subir, as tempestades trazidas pelos furacões também pioram.

Apenas o começo

Os cientistas ainda estão investigar de que forma as alterações climáticas irão influenciar o clima de inverno, e estão cada vez mais convencidos de que o aquecimento do Ártico está a produzir tempestades de inverno mais severas.

Um estudo publicado recentemente descobriu uma possível ligação entre as temperaturas que congelaram o Texas em setembro e as alterações climáticas, sugerindo que a barreira entre o ar frio do Ártico e o ar quente tropical está a ficar mais instável e que o vórtice polar – o fluxo de ar que se move através da estratosfera – está a ficar com mais propensão para causar tempestades intensas de inverno.

Conforme o clima mundial se torna mais agitado, as pessoas podem começar a ter noção das alterações climáticas de forma diferente.

Nos Estados Unidos, a atualização feita recentemente a uma sondagem nacional descobriu que 70% dos americanos acreditam que as alterações climáticas já estão a influenciar o clima. Nos 14 anos de história desta sondagem, este ano registou a crença mais alta de sempre nas alterações climáticas : 76% dos americanos inquiridos acreditam que as alterações climáticas já são uma realidade e 52% acreditam que já estão a ser pessoalmente afetados pelas mesmas.

As temperaturas vão continuar a subir e, portanto, as condições meteorológicas extremas podem continuar a moldar as crenças sobre as alterações climáticas, diz, Edward Maibach, um dos autores da sondagem e especialista em comunicação sobre alterações climáticas na Universidade George Mason.

“A dura realidade é a de que a maioria das comunidades irá quase certamente testemunhar eventos climáticos mais extremos nas décadas vindouras.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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