Novo relatório da ONU revela que as alterações climáticas já são piores do que o esperado

Os efeitos do aquecimento, incluindo a subida do nível do mar, já estão a afastar as pessoas dos seus lares, para além de destruírem árvores e espécies animais. Conseguimos adaptar-nos, mas também precisamos de fazer cortes profundos nas emissões.

Publicado 10/03/2022, 15:03
Impacto - relatório IPCC

A cratera de Batagaika, no leste da Sibéria, com 800 metros de diâmetro e que continua a aumentar, é a maior das inúmeras crateras que pontilham o Ártico. À medida que as alterações climáticas derretem o pergelissolo, o solo desmorona, formando crateras ou lagos.

Fotografia por Katie Orlinsky, Nat Geo Image Collection

As alterações climáticas estão a provocar impactos maiores do que o esperado com uma subida da temperatura inferior à prevista, perturbando os sistemas naturais e afetando a vida de milhares de milhões de pessoas pelo mundo inteiro, de acordo com o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) das Nações Unidas.

Os mais pobres, os muito jovens e os muito velhos, as minorias étnicas e os povos indígenas são as populações em maior risco. E embora existam medidas para limitar o impacto das alterações climáticas, o único passo verdadeiramente significativo é a redução das emissões de gases com efeito de estufa o mais depressa possível.

De acordo com Kelly Levin, da Bezos Earth Fund, uma fundação que financia esforços de combate às alterações climáticas, “este relatório mostra claramente o quanto precisamos de mudar de rumo, porque uma ação adiada corre o risco de desencadear impactos catastróficos capazes de mudar irreconhecivelmente o nosso mundo”.

O relatório, Alterações Climáticas 2022: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade, foi publicado na segunda-feira após a aprovação de 195 governos. Este trabalho tem 3.675 páginas. Seguem-se as descobertas com maior destaque.

Os impactos das alterações climáticas são piores do que o esperado

Até ao momento, as emissões de gases com efeito de estufa resultaram num aumento médio da temperatura global a chegar perto dos 1,1 graus Celsius. De acordo com Camille Parmesan, do Instituto Marinho da Universidade de Plymouth, coautora do relatório com 35 páginas chamado “Resumo para Legisladores”, “uma das conclusões mais marcantes do nosso relatório é a de que estamos a observar impactos adversos que estão muito mais difundidos e muito mais negativos do que o esperado com este nível de subida da temperatura”.

De particular preocupação, acrescenta Camille Parmesan, é o facto de esta quantidade relativamente pequena de aquecimento ter sido suficiente para começar a derreter o pergelissolo, secar turfeiras e danificar florestas através de surtos de pragas de insetos e incêndios florestais.

O relatório também constata que as alterações climáticas já estão a ter impacto na agricultura, silvicultura, pesca e aquicultura, inclusive na América do Norte. “Por toda a América do Norte, as alterações climáticas já reduzem a produtividade agrícola desde 1961”, diz Rachel Bezner-Kerr, da Faculdade Cornell de Agronomia e Ciências da Vida, que também é coautora do resumo oficial do relatório.

Os cientistas também já conseguem vincular diretamente os eventos climáticos extremos às alterações climáticas. De facto, argumenta Michael Mann, diretor do Earth System Science Center da Universidade da Pensilvânia e autor de The New Climate War: The Fight to Take Back Our Planet, “os modelos atuais continuam a subestimar o impacto que as alterações climáticas já têm nos climas extremos e subestimam o agravamento destes impactos com um aquecimento adicional”.

O relatório conclui que “o aumento das vagas de calor, secas e inundações já está a exceder os limites de tolerância para plantas e animais, provocando uma mortalidade em massa em espécies como árvores e corais. Estes extremos climáticos estão a acontecer em simultâneo, provocando impactos em cascata que são cada vez mais difíceis de gerir”.

A necessidade de agir é urgente

O reconhecimento de que os impactos climáticos já se estão a fazer sentir aumenta a urgência de limitar ainda mais o aquecimento. Em terra, com níveis de aquecimento global a rondar os 1,5 graus, cerca de 14% das espécies provavelmente irão enfrentar um “risco muito elevado de extinção”, diz o relatório. Este valor aumenta para até 18% com 2 graus e até 48% com um aumento de 5 graus. (Uma análise feita recentemente descobriu que, se as nações mundiais cumprirem os seus compromissos atuais na redução de emissões, o aquecimento será mantido abaixo dos 2,5 graus.)

Com 2 graus ou mais de aquecimento, os riscos para a segurança alimentar humana devido às alterações climáticas serão mais graves, levando a deficiências nutricionais e desnutrição, particularmente na África Subsaariana, Sul Asiático, América Central e do Sul e pequenos estados insulares. Para além disso, à medida que as temperaturas continuam a subir, os impactos e os riscos das alterações climáticas provavelmente tornar-se-ão “cada vez mais complexos e difíceis de gerir”, com vários perigos – desde secas e incêndios florestais à subida do nível do mar e inundações – a acontecer simultaneamente.

É por esta razão que o objetivo do Acordo de Paris passa por limitar o aquecimento  “bem abaixo dos 2 graus, e de preferência abaixo dos 1,5 graus”. No entanto, muitos dos países comprometidos com a meta dos 1,5 graus esperam que a temperatura média global suba acima desse nível antes de começar a descer, um processo conhecido por “ultrapassar o limite”. Com os impactos severos que já se fazem sentir agora, este tipo de abordagem pode ser perigoso.

“Como todas estas mudanças já estão em andamento, concluímos que, com o chamado ‘ultrapassar o limite’… temos um risco mais elevado de impactos irreversíveis, como a extinção de espécies, e alguns destes processos que já estamos a observar podem ficar cada vez mais difíceis de reverter”, diz Camille Parmesan.

“Eu diria que temos de tentar limitar o aquecimento aos 1,5 graus sem ultrapassar o limite, e idealmente ficar dentro do limite”, diz Michael Mann. “Mas o que precisamos realmente de fazer é bastante simples. Precisamos de reduzir as emissões de carbono o mais depressa possível.”

As alterações climáticas afetam mais uns do que outros

“As alterações climáticas afetam-nos a todos, mas não afeta todos da mesma forma”, explica Katharine Hayhoe, cientista-chefe da The Nature Conservancy. “As pessoas que já vivem abaixo da linha da pobreza, os muito jovens e muito velhos, as minorias étnicas e os povos indígenas, são as populações desproporcionalmente afetadas pelos impactos climáticos. E, em muitos casos, também são os que menos contribuíram para o problema. É por isso que as alterações climáticas são profundamente injustas.”

O relatório refere que a vulnerabilidade às alterações climáticas é maior nos locais e entre as populações que têm menos resiliência a mudanças extremas; por exemplo, as populações afetadas pela pobreza e conflitos violentos. Apesar de até agora existirem poucas evidências de que as alterações climáticas já estão diretamente a provocar conflitos, a realidade é que podem aumentar o risco disso acontecer, exacerbando também os problemas sociais, económicos e ambientais. Entre 2010 e 2020, as mortes humanas devido a inundações, secas e tempestades foram 15 vezes superiores nas regiões mais vulneráveis, em comparação com as regiões com uma vulnerabilidade baixa. A insegurança alimentar e a desnutrição relacionadas com enchentes e secas também têm aumentado em África e na América Central e do Sul.

Os extremos do clima e climáticos estão cada vez mais a levar ao deslocamento de populações em algumas regiões; os pequenos estados insulares ameaçados pela subida do nível do mar são os mais afetados desproporcionalmente. A perda de serviços ecossistémicos tem efeitos particularmente graves sobre aqueles que dependem diretamente dos ecossistemas para responder às suas necessidades básicas, incluindo os povos indígenas.

Conseguimos adaptar-nos; a natureza é vital

À medida que as temperaturas sobem, os humanos precisam de se adaptar. Uma das principais descobertas do relatório, diz Camille Parmesan, é a de que esta adaptação é mais dependente dos ecossistemas naturais do que o constatado pelos relatórios anteriores. Agora temos mais evidências dessa dependência.

O risco de inundação junto aos rios pode ser reduzido com a restauração de zonas húmidas e outros habitats naturais nas planícies aluviais, ou devolvendo os rios aos seus cursos naturais. A conservação de pantanais protege as linhas costeiras das tempestades e da erosão. Ao reduzir a sobrepesca, as áreas marinhas protegidas proporcionam resiliência contra as alterações climáticas. As cidades podem ser arrefecidas por parques e lagos, ou com a plantação de zonas verdes nas ruas e telhados. Os agricultores podem aumentar a resiliência climática e os seus rendimentos se melhorarem a saúde do solo.

Uma adaptação que se concentre na manutenção dos sistemas naturais também ajuda a evitar a “má adaptação”, segundo o relatório. A irrigação de campos com águas subterrâneas pode proporcionar um alívio imediato para a seca, por exemplo, mas se as secas se tornarem mais frequentes ou duradouras, o lençol freático pode acabar por desaparecer. Da mesma forma, os quebra-mares podem proteger as áreas costeiras a curto prazo, mas a sua construção pode destruir os ecossistemas costeiros, como os recifes de coral, que também contribuem para a proteção costeira.

“A pior adaptação possível”, argumenta Michael Mann, seria “colocar demasiados trunfos no saco da adaptação, e não os suficientes no saco da mitigação” – por outras palavras, uma adaptação aos impactos das alterações climáticas sem tomar as medidas adequadas para eliminar as emissões de gases com efeito de estufa que as provocam. De certa forma, continua Michael, “o relatório é um resumo do que já sabemos: o perigo das alterações climáticas já se abateu sobre nós, e trata-se apenas do quão dispostos estamos a deixar que as coisas piorem ainda mais”.

Sobre o relatório do IPCC
O relatório reflete as descobertas do Grupo de Trabalho II do IPCC, um dos três grupos que publicam descobertas atualizadas aproximadamente a cada oito anos. Chris Field, da Universidade de Stanford, que foi copresidente deste grupo desde 2008 até 2015, explica que o relatório abrange um “vasto portfólio que aborda a forma como as alterações climáticas interagem com as pessoas, as economias e o meio ambiente”.
O relatório tem 3.675 páginas que detalham o impacto das alterações climáticas nas regiões continentais e polares, ecossistemas terrestres e marinhos, alimentação e saúde. O relatório também explora a interseção entre aquecimento global e pobreza, e examina caminhos para o desenvolvimento que sejam tão resilientes quanto possível às alterações climáticas e respetivos impactos. O relatório é precedido por um “Resumo para Legisladores” de 35 páginas que, segundo Chris Field, “é meticulosamente aprovado, frase a frase, por unanimidade”.
Este processo significa que os relatórios do IPCC são por vezes criticados por serem demasiado abrangentes, mas Chris Field argumenta que isso dá ao relatório uma força que os estudos individuais não conseguem igualar, “pois todos os países do mundo concordam que cada frase no resumo para os legisladores é uma descrição exata da literatura técnica subjacente”.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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