A proposta mineração em alto-mar pode vir a matar animais que ainda não foram descobertos

Estes trabalhos podem começar já em 2024. Os danos ecológicos podem ser vastos – mas os cientistas ainda não conseguem determinar se serão excessivos ou permanentes.

Por Sabrina Weiss
Publicado 8/04/2022, 11:08
Mineração em alto-mar

A milhares de metros de profundidade, no fundo do mar no Pacífico, um robô de investigação operado pelo instituto GEOMAR, um instituto oceanográfico alemão, recolhe um “nódulo polimetálico” – juntamente com a esponja do mar que está agarrada ao mesmo. Sabe-se pouco sobre a vida nesta área, uma vasta planície lamacenta chamada Zona Clarion-Clipperton, mas as empresas de mineração querem recolher os nódulos ricos em metal que estão aqui espalhados na lama.

Fotografia por ROV-Team, Geomar

Quando um robô de mineração de 27 toneladas chamado Patania II começou a aspirar minérios de metal no fundo do Oceano Pacífico em abril de 2021, não estava sozinho. A Global Sea Mineral Resources (GSR), a empresa belga que desenvolveu este dispositivo, tinha um grupo de cientistas a observar todos os movimentos – ou melhor, uma série de veículos controlados remotamente e equipados com câmaras e outros sensores.

A GSR é uma de várias empresas que espera começar a minerar o fundo do mar à escala industrial nos próximos anos, talvez já em 2024. Há quem apregoe que o fundo do mar é uma fonte sustentável para os metais necessários para produzir baterias para veículos elétricos ou telemóveis. Enquanto isso, os cientistas estão a tentar calcular os danos ecológicos provocados por esta mineração em alto-mar.

A resposta mais resumida é: muitos danos – de acordo com o consórcio europeu de cientistas que monitoriza os esforços da GSR e apresentou recentemente os seus resultados preliminares numa reunião online. Mas ainda é demasiado cedo para saber que tipos de danos seriam permanentes ou considerados excessivos.

Todas as operações de mineração como a da GSR no leste do Pacífico podem vir a remover anualmente da camada superficial “biologicamente ativa” cerca de 200 ou 300 quilómetros quadrados, diz Matthias Haeckel, bioquímico marinho do Centro Helmholtz de Pesquisa Oceânica do instituto GEOMAR em Kiel, na Alemanha. Matthias Haeckel supervisiona o “MiningImpact”, um projeto de investigação financiado pelos governos europeus.

“Se avançarem com a mineração, esta deve ser feita sem a perda de biodiversidade e funções do ecossistema”, diz Ann Vanreusel, bióloga marinha da Universidade de Ghent, na Bélgica, também membro deste consórcio.

Contudo, este padrão é difícil de definir, quanto mais de regular, porque sabe-se muito pouco sobre a ecologia no fundo do mar. Em duas expedições feitas à região do Pacífico que a GSR e outras empresas pretendem explorar, os investigadores identificaram milhares de espécies – 70 a 90% das quais eram desconhecidas da ciência.

“Isto por si só é um ótimo exemplo para mostrar que não temos uma boa compreensão sobre a forma como este ecossistema funciona”, diz Diva Amon, bióloga marinha e exploradora da National Geographic, que não participou no projeto MiningImpact. Numa revisão publicada este mês na Marine Policy, Diva Amon e os seus colegas argumentam que devíamos pelo menos perder uma década a preencher as lacunas na compreensão científica antes de a mineração comercial em alto-mar poder avançar.

Mas a indústria quer começar a operar o quanto antes.

“Uma espécie de bateria numa rocha”

A região que a GSR está a explorar, chamada Zona Clarion-Clipperton (ZCC), é uma vasta planície abissal que fica entre o Havai e o México, a profundidades que variam entre os quatro e os seis mil metros. A lama no fundo do mar está repleta de “nódulos polimetálicos”: rochas do tamanho de batatas que se formam quando os metais dissolvidos se acumulam em fragmentos de rocha ou em detritos marinhos, como em conchas ou dentes de tubarão. Estes nódulos são particularmente ricos em cobalto, níquel, cobre, manganês e elementos de terras raras – “são uma espécie de bateria numa rocha”, como afirma a The Metals Company (TMC), uma startup canadiana de mineração.

Porém, esta planície abissal também abriga formas de vida que não existem noutros lugares – desde pepinos-do-mar a crustáceos que rastejam na superfície de outras criaturas que vivem nos próprios sedimentos. Durante os testes, o Patania II removeu tudo isto, juntamente com os nódulos, até uma profundidade de quase um metro.

Uma anémona entre os nódulos ricos em metal no fundo do mar no Pacífico. Esta imagem foi captada por um robô do instituto GEOMAR numa das expedições que os investigadores europeus fizeram para avaliar o impacto que a mineração dos nódulos pode ter na Zona Clarion-Clipperton.

Fotografia por ROV-Team/GEOMAR

Ann Vanreusel, Matthias Haeckel e dezenas de outros cientistas estão a investigar as formas de vida que habitam em torno dos nódulos e se estes animais conseguem recuperar das atividades de mineração. Diva Amon, que visita a ZCC desde 2013, diz que a remoção de nódulos levará inevitavelmente a uma redução na abundância e diversidade de espécies.

“Os nódulos demoram milhões de anos a formar-se e são uma parte central deste ecossistema. Portanto, ao removê-los, estamos a danificar irreversivelmente este ecossistema”, diz Diva Amon. Os polvos, por exemplo, põem os seus ovos nos caules mortos das esponjas marinhas que crescem nos nódulos.

A mineração em alto-mar também acarreta outros riscos. Os veículos submarinos de recolha emitem ruído e luz num ambiente que está perpetuamente na escuridão. À medida que estes dispositivos vão arando o fundo do mar, também levantam plumas de sedimentos. Uma das grandes preocupações é saber até que ponto as correntes no fundo do mar poderão dispersar estas plumas. À medida que estes sedimentos se instalam no fundo do mar, mesmo a grandes distâncias da própria operação de mineração, podem sufocar as criaturas vivas.

Os investigadores europeus do projeto MiningImpact operaram um robô em forma de torpedo com uma câmara e sensores acústicos através da água para rastrear as plumas levantadas pelo Patania II a uma profundidade de mais de 4.500 metros. As imagens preliminares mostram que os sedimentos cobriram o fundo do mar até cerca de 500 metros de cada lado dos trilhos de mineração. E pareciam espalhar-se por vários quilómetros, embora em concentrações menores. O Patania II, que tem este nome em homenagem à lagarta mais rápida do mundo, é o protótipo inicial. Para avançar com a mineração comercial, a GSR planeia construir um coletor quatro vezes maior.

Através de um comunicado publicado no seu site, a GSR diz que “só se candidatará a um contrato de mineração se a ciência mostrar que, do ponto de vista ambiental e social, o fundo do mar pode ser uma fonte sustentável para os metais primários necessários para o crescimento populacional, urbano e transição para energias limpas”.

Ainda é demasiado cedo para perceber se os organismos que vivem em torno dos nódulos recolhidos pelo Patania II sobreviveram ou não às perturbações – outra expedição aos locais de teste agendada para o final de 2022 vai investigar exatamente isso. Mas há um local semelhante, na costa do Peru, que pode oferecer algumas pistas. Em 1989, investigadores alemães arrastaram um arado projetado especificamente para operar no fundo do mar, cortando e trabalhando os sedimentos. Os rastos desta máquina, quase 30 anos depois, ainda são claramente visíveis e as populações de esponjas, corais moles e anémonas do mar ainda não regressaram.

Uma grande pressão de um pequeno país

A indústria de mineração no fundo do mar já enfrenta dores de crescimento há meio século. A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), a agência afiliada à ONU que promove e regula a mineração em águas internacionais sob o Direito do Mar, tem vindo a desenvolver regulamentos e um processo de licenciamento desde 2014. Supostamente, este processo garante que qualquer mineração é para “o benefício da humanidade como um todo”. Até agora, estes regulamentos permitem às empresas de mineração explorar apenas os recursos no fundo do mar, mas não a sua exploração comercial.

Uma anémona pousa numa esponja que está presa a um nódulo polimetálico.

Fotografia por ROV-Team/GEOMAR

Mas o despertar da mineração industrial em alto-mar pode estar para breve, graças em parte à demanda por minerais para alimentar a transição para energias verdes. No dia 25 de junho de 2021, Nauru, uma pequena nação do Pacífico, exerceu o seu direito enquanto membro da ISA para acionar uma contagem decrescente, forçando basicamente a agência a concluir os regulamentos necessários dentro de dois anos. A TMC, empresa contratada por Nauru, entrou recentemente no mercado de ações públicas e está a dizer aos potenciais investidores que espera começar a recolher nódulos já em 2024. Esta startup canadiana também possui licenças de exploração concedidas por Tonga e Kiribati, dois outros estados insulares do Pacífico. A TMC estima que as suas três áreas de contrato hospedam nódulos suficientes para eletrificar 280 milhões de veículos.

A pressão de Nauru para acelerar as regras de mineração fez com que ambientalistas e cientistas soassem o alarme de forma ainda mais urgente. Mais de 620 cientistas marinhos e especialistas em política de 44 países assinaram uma declaração a pedir a suspensão de todos os esforços de mineração até que as consequências ecológicas sejam melhor compreendidas. Dezenas de agências governamentais e o Parlamento Europeu apoiam a criação de uma moratória, e várias empresas mundiais, incluindo a Ford, Samsung e Google, disseram que não vão obter minerais vindos do fundo do mar.

Por outro lado, uma moratória sobre a mineração em alto-mar também pode abrandar ou interromper investigações cruciais. O projeto MiningImpact teve um orçamento de 9.7 milhões de euros, financiado pelos governos europeus, para realizar estudos independentes de linha de base e monitorizar os testes do coletor da GSR na Zona Clarion-Clipperton. As empresas de mineração também estão a investir milhões de dólares na realização das suas próprias investigações ambientais.

“O meu receio é o de que o financiamento não continue ao mesmo nível dos últimos anos. Portanto, a questão é saber o quanto conseguimos aprender durante uma fase de moratória”, diz Matthias Haeckel.

Os investigadores do projeto MiningImpact ainda estão a avaliar os dados e as milhares de amostras recolhidas. Mas vão ser necessários anos, senão décadas, até que os cientistas consigam determinar a fronteira a partir da qual a mineração industrial pode provocar “danos graves” – que a ISA deve evitar – sobretudo nos locais para além das zonas de mineração.

Em dezembro de 2021, Pradeep Singh, investigador jurídico da Universidade de Bremen, na Alemanha, publicou um artigo na revista Marine Policy, sublinhando que a ISA e os seus 168 estados membros não tinham chegado a um consenso sobre o que significam termos como “proteção efetiva” e “ efeitos nocivos”. Porém, quando a contagem decrescente terminar em julho de 2023, a ISA terá de começar a aprovar ou a reprovar os pedidos de licenças de exploração. Todos os países, mesmo os que não têm acesso ao oceano, têm o direito de se inscrever para obter uma licença.

Uma das abordagens que a ISA pode adotar, segundo Matthias Haeckel, é permitir apenas um pequeno número de operações ao início, em vez de uma dezena de cada vez. Os regulamentos poderiam depois ser adaptados à medida que mais evidências científicas estivessem disponíveis. Mas este tipo de abordagem seria difícil de implementar legalmente.

“Há muitas preocupações de que esta indústria possa avançar”, diz Pradeep Singh, que também apoia uma moratória. “Uma atividade de mineração pode não ser assim tão prejudicial por si só, mas se permitirmos uma, teremos de permitir todas as outras e, cumulativamente, os impactos serão desastrosos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Meio Ambiente
Ameaças oceânicas
Meio Ambiente
Conforme os veículos elétricos ganham tração, vamos ter de reciclar as suas baterias
Meio Ambiente
Maior Área Marinha Protegida do Atlântico Quase Oficial
Meio Ambiente
O Mundo Mortífero da Máfia de Mineração de Areia na Índia
Meio Ambiente
Buraco Azul da Grande Barreira de Coral Filmado Pela Primeira Vez

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados