A rainha Isabel é proprietária de grande parte do fundo do mar no Reino Unido – algo que abranda os trabalhos de conservação

A família real precisa de ajudar a recuperar a biodiversidade da Grã-Bretanha, começando pelas propriedades reais.

Por Matthew Ponsford
Publicado 17/06/2022, 11:25
águas costeiras da Grã-Bretanha

Rebentação de ondas no sul de Inglaterra. As águas costeiras da Grã-Bretanha já foram outrora o lar de prados exuberantes de ervas marinhas e florestas de algas.

Fotografia por Glyn Kirk, AFP, Getty Images

A rainha Isabel é conhecida por ser uma das maiores proprietárias de terras do mundo. Menos conhecido é o facto de as suas propriedades incluírem a maior parte do fundo do mar em torno do Reino Unido, até 12 milhas náuticas da costa.

Este pequeno – grande – detalhe da história monárquica está a ser visto de uma perspetiva diferente, à medida que o declínio da biodiversidade na Grã-Bretanha ganha mais atenção e a família real é instada a assumir uma liderança maior na restauração da natureza – começando pelas propriedades controladas pela própria realeza.

Porém, os esforços feitos recentemente para restaurar as águas costeiras têm encontrado obstáculos exclusivos desta monarquia – obstáculos que, por exemplo, afugentaram um criador de algas que foi bem acolhido no Sudeste Asiático, e que ameaçam inviabilizar o maior esforço de replantação de ervas marinhas alguma vez realizado na Grã-Bretanha.

Os defensores do ambiente afirmam que o Reino Unido não se pode dar ao luxo de perder estas oportunidades. Quase metade da vida selvagem e espécies de plantas do país desapareceram desde a Revolução Industrial, de acordo com uma iniciativa de monitorização de biodiversidade lançada no ano passado pelo Museu de História Natural de Londres. Em termos de biodiversidade, a Grã-Bretanha está agora entre os piores 10% a nível mundial e é a pior entre as nações do G7.

Os cientistas descrevem a perda dos prados de ervas marinhas e de florestas de algas que circundam a costa numa palavra: catastrófica. Quase 90% das ervas marinhas desapareceram, e grande parte desapareceu nos últimos 30 anos devido ao desenvolvimento costeiro, à sobrepesca, poluição e danos provocados por barcos e âncoras. Alguns cientistas preveem que a maior parte das 26.000 milhas quadradas de florestas de algas do Reino Unido pode desaparecer até ao ano de 2100.

Quando as ervas marinhas e as algas prosperam, também oferecem proteção contra a erosão costeira, atuam como berçários para a vida marinha e absorvem enormes quantidades de carbono. Porém, para restaurar estes ecossistemas é necessário passar por um processo de arrendamento, com taxas pagas à Crown Estate – a empresa imobiliária que gere as propriedades da rainha.

Os cientistas e as pessoas envolvidas nos esforços de restauração dizem que este conceito – o de que as pessoas devem pagar para tentar reparar os ecossistemas moribundos e servir os interesses da nação – está completamente errado. Não é isso que acontece noutros lugares. Na Flórida, por exemplo, o governo estadual é proprietário das águas costeiras, mas disponibiliza gratuitamente as áreas para os esforços de restauração e, em alguns casos, exige aos construtores o financiamento de projetos de restauração de habitats, diz Susan Bell, ecologista marinha da Universidade do Sul da Flórida.

Richard Unsworth, professor de ecologia marinha da Universidade de Swansea, no País de Gales, cujo Projeto Seagrass está integrado num dos esforços de restauração marinha mais proeminentes do Reino Unido, está incrédulo porque a Crown Estate “nos quer cobrar para plantar ervas marinhas no fundo do mar”.

Em parceria com o World Wildlife Fund e a organização Sky Ocean Rescue, Richard Unsworth desenvolveu um programa para replantar 3.000 hectares de ervas marinhas em centenas de locais em torno da costa do Reino Unido. O arrendamento de um local de teste de dois hectares na costa do País de Gales tem uma taxa de 2.500 libras, pelo que Richard Unsworth receia que as taxas para o resto da época possam inviabilizar financeiramente o programa.

Grande parte do financiamento para esta campanha tem de ser angariado localmente, com doações a partir das 5 ou 10 libras.

“Recebemos emails de crianças que querem saber como é que os seus amigos podem fazer doações nas festas de aniversário, em vez de darem presentes uns aos outros. E estamos a dar este dinheiro à rainha”, diz Richard Unsworth. “Sejamos sinceros, é um pouco desconcertante. Não houve um único momento em que eu pensasse realmente que eles nos estavam a tentar ajudar.”

Enquanto isso, a Carbon Kapture, uma empresa sediada em Hampshire, que planeava estabelecer uma rede de 58 pequenas quintas de algas por todo o país, na esperança de cultivar biomateriais para a produção de plásticos, cosméticos e ração para o gado, ao mesmo tempo que aumentava a biodiversidade marinha e armazenava carbono, enfrentou um ano de atrasos enquanto tentava obter uma licença de arrendamento por parte da Crown Estate e do governo. Quando os investidores perderam a paciência, Howard Gunstock, cofundador da Carbon Kapture, foi obrigado a transferir a produção de algas para o Sudeste Asiático.

“Se eu não apresentar resultados, a minha janela de oportunidade desaparece”, diz Howard Gunstock. “E depois, passados 18 meses, os contactos perdem a confiança.”

A rainha e o fundo do mar têm uma longa história

As vastas propriedades da rainha, incluindo o fundo do mar, datam da conquista normanda de 1066, quando Guilherme, o Conquistador, reivindicou toda a Inglaterra para a coroa. Hoje, a rainha continua a ser, por lei, a proprietária legal de todas as terras, embora isso não lhe confira poder sobre a maior parte dos terrenos. A rainha só tem o controlo total sobre as suas propriedades privadas, incluindo Balmoral e Sandringham.

Contudo, enquanto monarca, a rainha continua a possuir e a obter receitas do fundo do mar e de metade da costa – a terra entre as linhas de maré alta e baixa – devido a um conjunto eclético de ativos da coroa que também inclui todos os depósitos de prata e ouro e vários imóveis valiosos no centro de Londres.

Este portfólio de 14.4 mil milhões de libras é gerido em nome da rainha pela Crown Estate, como parte de um acordo que começou em 1760 entre o Parlamento e o rei Jorge III. No início do seu reinado, anos antes de enfrentar os revolucionários americanos, Jorge enfrentou uma crise financeira que o levou a entregar o controlo das propriedades da coroa em troca de uma taxa anual definida pelo rendimento gerado por essas propriedades.

Atualmente, esta “organização única – e peculiarmente britânica”, segundo a descrição do Parlamento do Reino Unido da Crown Estate, combina os dotes da realeza com um fundo de investimento público. Os rendimentos vão para o erário público, com um quarto a ser devolvido à realeza. Na última década, a Crown Estate faturou 3 mil milhões de libras para a família real e para o Tesouro.

A maioria destes rendimentos vem das propriedades urbanas, incluindo a maior parte da famosa Regent Street em Londres. Só mais recentemente é que o fundo do mar se tornou numa enorme fonte de lucro para a Crown Estate, com as receitas marítimas de 2021 a rondarem os 121 milhões de libras – de fontes como o arrendamento de locais para parques eólicos ao largo da costa, construção de oleodutos e instalação de cablagem.

O Parlamento tem repreendido a Crown Estate pela enfâse dada à geração de receitas, que “parece impedir que [os gestores da Crown Estate] levem em conta os potenciais interesses públicos mais abrangentes”. O anúncio de uma receita estimada em 8.8 mil milhões de libras para a próxima década, devido à venda de licenças para a construção de parques eólicos ao largo da costa, tem provocado uma onda de indignação no Parlamento. E tem feito com que os legisladores peçam a atualização desta instituição arcaica – ou que a instituição seja destituída das suas funções de gestão.

“O fundo do mar não é apenas uma mina de ouro para a Crown Estate e o Tesouro”, diz Luke Pollard, membro do Parlamento da cidade costeira de Plymouth. “No meio de uma crise climática e ecológica, precisamos que a Crown Estate dê a mesma importância à natureza e ao carbono que dá às receitas vindas das atividades ao largo da costa.”

Chegou o momento de mais reformas?

Algumas pessoas afirmam que a raiz do problema reside na antiguidade da Crown Estate. Duncan McCann, especialista em economia, diz que ninguém teria projetado intencionalmente este tipo de instituição financeira, que nem é propriedade privada da monarca nem é um órgão público gerido pelo governo. Em vez disso, acrescenta Duncan McCann, a Crown Estate é uma coisa híbrida que “emergiu ao longo de centenas de anos através de reformas incrementais”.

Agora, alguns críticos afirmam que são necessárias mais reformas. A Sociedade Zoológica de Londres e a Sociedade de Conservação Marinha recomendam reformas para as licenças que possam ajudar na restauração de habitats marinhos e o reconhecimento do seu valor. Um estudo feito pela Fundação New Economics concluiu que a simples restauração de uma floresta de algas numa pequena parte West Sussex, ao longo da costa sul de Inglaterra, pode render à comunidade local mais de 3 milhões de libras por ano.

Os penhascos brancos das Sete Irmãs erguem-se sobre o mar em Cuckmere Haven, em East Sussex.

Fotografia por Jeff Overs, BBC News & Current Affairs, Getty Images

Em 2017, o Parlamento escocês fez uma votação para transferir a gestão dos ativos da Crown Estate na Escócia para uma nova organização sucessora, a Crown Estate Scotland (CES), para ganhar maior autonomia de Westminster. O País de Gales propôs um esforço semelhante.

Os líderes do partido liberal Os Verdes sugeriram a substituição da Crown Estate por um “fundo soberano de riqueza ecológica” como uma das possíveis soluções. Molly Scott Cato, membro deste partido e economista, diz que muitas das pessoas no Reino Unido ficam surpreendidas quando descobrem que as iniciativas ambientais podem ser afetadas por esta espécie de “ressaca bizarra dos tempos medievais”.

“Se fizéssemos uma sondagem com mil pessoas, creio que nenhuma diria que estava tudo bem! Que a rainha pode ficar com isto. Ninguém diria que a rainha nos podia impedir de plantar ervas marinhas”, diz Molly Cato. “A esmagadora maioria diria que isto é uma loucura.”

‘Espero que estejamos a retificar as coisas’

Na realidade, nem a rainha nem os membros da família real desempenham qualquer papel na administração da Crown Estate. Essa parte fica a cargo de uma comissão constituída por oito membros. Huub den Rooijen, diretor marítimo da Crown Estate, diz que a empresa tenta “encontrar o equilíbrio certo” entre os benefícios ambientais e sociais e as receitas comerciais.

Nesta estrutura de trabalho, as indústrias “maduras” com fluxos comprovados de receitas geralmente têm precedência, diz Huub den Rooijen – embora Huub concorde que os projetos inovadores de restauração não devem pagar para além das taxas administrativas mais básicas.

“Não sabemos ao certo quais serão as tecnologias corretas daqui para frente”, diz Huub den Rooijen. “Portanto, se temos uma instituição de caridade, ou uma universidade, que afirma que tem um projeto que pode funcionar e pode ser ampliado, é claro que não devem ser cobrados por isso.”

Para se envolver mais nestes “empreendimentos inovadores”, diz Huub den Rooijen, a empresa iniciou um processo para reexaminar a sua relação com o ambiente natural. “Espero que estejamos acertando as coisas”, diz ele. “E se o feedback é que não, então adoraríamos ouvir esse feedback.”

Para se envolver com estes “novos empreendimentos inovadores”, diz Huub den Rooijen, a empresa iniciou um processo para reexaminar a sua relação com o ambiente natural. “Espero que estejamos a retificar as coisas. Mas se as críticas forem negativas, então adoraríamos ouvir o que as pessoas têm para dizer.”

Um sinal de esperança parece estar a surgir na costa sul de Inglaterra, onde os Conselhos Adur & Worthing em Sussex estão a negociar o primeiro arrendamento do país por “capital natural” com a Crown Estate. Este plano visa a criação de uma floresta de algas com potencial para capturar o equivalente às emissões de carbono de mais de 7 mil lares de habitação, ao mesmo tempo que fornece habitat para cavalos-marinhos, lagostas, chocos e robalos.

A ecologia da rainha

Nos últimos anos, a rainha Isabel tem cultivado a reputação de chefe de estado ambientalmente consciente. Através dos seus gestos pessoais, a rainha tem rejeitado casacos de peles e instalou colmeias no Palácio de Buckingham, para além de ter usado a sua plataforma pública para chamar a atenção dos políticos para a necessidade de ações na cimeira climática realizada no outono passado em Glasgow. E o jubileu do seu reinado foi assinalado com um programa de plantação de árvores.

Os herdeiros reais também têm demonstrado que querem um planeta mais ecológico, com o príncipe Carlos a defender o meio ambiente desde a década de 1970 e o príncipe William a estabelecer o novo Earthshot Prize, que premeia as soluções para as alterações climáticas e outros problemas ambientais.

Em parte, foi o compromisso da rainha com a proteção do ambiente que levou um grupo de mais de 120 cientistas e líderes proeminentes a pedir à família real para “liderar o caminho na cura da nossa terra” e na restauração das florestas, rios, pântanos e outros ecossistemas. “Temos uma oportunidade única e histórica para abordar radicalmente o estado degradado da natureza nestas terras”, escreveu o grupo numa carta aberta enviada à realeza no ano passado.

Os prados de ervas marinhas pareciam ser um excelente exemplo, mas a sua replantação era desafiante. Quando Richard Unsworth e os seus colegas cientistas começaram a trabalhar em 2019, só havia apenas alguns testes de pequena escala no Reino Unido. Contudo, o maior projeto de restauração de ervas marinhas do mundo, na baía de Chesapeake em Maryland, nos EUA, mostrou que a plantação em grande escala era a chave para o sucesso.

No início de março de 2020, Richard Unsworth e a sua equipa navegaram para a frente e para trás num pequeno barco insuflável sobre um terreno de 2.2 hectares que tinham alugado à Crown Estate em Dale, uma vila no sudoeste do País de Gales. A equipa estendeu mais de 15 km de corda com milhares de bolsas em miniatura com um milhão de sementes recolhidas manualmente uma a uma por mergulhadores em torno da costa britânica. As pequenas bolsas foram projetadas para evitar que as sementes escoassem ou fossem comidas por caranguejos.

Quando os mergulhadores regressaram ao local no final do ano passado, um novo prado tinha começado a emergir. Este prado marinho é irregular em alguns locais, mas mede mais de meio metro a partir fundo arenoso do mar, e é um prado saudável que a comunidade local espera que em breve abrigue bacalhau, solha e outros peixes, bem como chocos, raias e caracóis do mar.

O Project Seagrass está agora à procura de áreas no fundo do mar onde não tenha de lidar com os protocolos da Crown Estate, diz Richard Unsworth. Cerca de 20 comunidades locais já entraram em contacto com Richard depois de o projeto piloto em Dale ter sido notícia nacional. Um dos planos agora em desenvolvimento fica numa propriedade privada em Solent, no estreito entre a costa sul de Inglaterra e a ilha de Wight. Há outros locais que pertencem a proprietários dispersos, incluindo membros da aristocracia britânica.

Em março, ao largo da cidade de Plymouth, na região sudoeste, foram semeadas ervas marinhas num trecho de um hectare no fundo do mar que é propriedade do Ducado da Cornualha, a propriedade real que pertence ao príncipe Carlos. Este terreno não é gerido pela Crown Estate e o local foi disponibilizado gratuitamente.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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