As alterações climáticas estão a ameaçar o molho das nossas pizzas

Calor, seca, doença – são mudanças forçadas pelo clima que estão a dificultar a produção de tomate na Califórnia. Mas as nossas futuras pizzas ainda não estão perdidas.

Por Alejandra Borunda
Publicado 21/06/2022, 11:22
tomate

As alterações climáticas estão a intensificar os problemas enfrentados pelos agricultores, dificultando o cultivo de alimentos muito cobiçados como é o caso dos tomateiros, que não dão fruto se a temperatura estiver demasiado elevada no início do seu desenvolvimento.

Fotografia por ac bnphotos, Getty Images

CONDADO DE FRESNO, CALIFÓRNIA – No início do verão passado, as temperaturas subiram bastante no Vale Central da Califórnia. Durante vários dias, os termómetros registaram temperaturas a rondar os 38 graus Celsius, muito acima da média registada nos últimos 30 anos.

No extremo sul deste vale, muitos agricultores tinham acabado de plantar a sua safra de tomate, mas a vaga de calor chegou exatamente no pior momento. Os tomateiros não são particularmente delicados, mas têm limites – sobretudo quando são jovens e mais macios, quando as suas flores amarelas e pontiagudas florescem. O resultado... muitas flores “abortaram” e murcharam. As plantas que já tinham sido polinizadas acabaram simplesmente por cair e não produziram tomates.

Os problemas climáticos afetam a agricultura desde sempre. Mas as alterações climáticas estão a intensificar os problemas, dificultando o cultivo de alimentos como é o caso do tomate. Os efeitos são muitas vezes óbvios, como as vagas de calor (cujas probabilidades aumentaram 150 vezes devido às alterações climáticas), mas também se manifestam de uma forma mais subtil – por exemplo, a seca em curso na Califórnia, que é exacerbada pelo clima, tem deixado os produtores com muito pouca água. Os invernos mais quentes estão a fazer com que as pragas e doenças se dirijam cada vez mais para norte, em direção aos novos territórios dos tomateiros.

As alterações climáticas não são necessariamente a maior pressão enfrentada pelos produtores da Califórnia, mas estão a desempenhar um papel que é familiar para os agricultores de todo o planeta – estão simplesmente a dificultar ainda mais as coisas.

“Geralmente, lidamos com um problema de cada vez”, diz Mike Montna, presidente da Associação de Produtores de Tomate da Califórnia. “Mas agora parece que estamos todos a lidar com muitas coisas ao mesmo tempo.”

Agora, os tomates – que culturalmente são um dos vegetais mais amados nos EUA – estão a começar a sentir os efeitos. A vaga de calor de 2021 teve consequências enormes: no final da época, os produtores de todo o estado californiano entregaram colheitas com uma redução de 10%. Pode não parecer muito, mas é um número extremamente elevado, porque a Califórnia produz 90% dos tomates enlatados do país – o segundo produto mais valioso exportado por este estado. E basta uma queda de 10% na produção para deixar os tomates enlatados – que se tornam no molho da nossa pizza e em ketchup – numa situação difícil. Este ano, enquanto a seca continua a varrer a região, todos esperam que o sucesso venha em forma de tomate.

Atrelados repletos de tomates maduros aguardam processamento para se transformarem em molho e puré em Lemoore, na Califórnia.

Fotografia por Universal Images Group, Getty Images

Um tomate por dia...

Nos Estados Unidos, a obsessão por tomates – o segundo vegetal mais consumido a seguir à batata – é enorme. Um consumidor come em média mais de 13 quilos de tomate por ano, ou cerca de 20% da sua ingestão total de vegetais anualmente. A estrutura agrícola que permite a disponibilidade de tomate durante o ano inteiro é impressionante.

“As pessoas adoram tomates”, diz Mike Montna.

Na maioria das vezes, as pessoas nem sequer estão a consumir tomates frescos –usam enlatados ou molho, quer seja para a pizza, para fazer sopa e todos os outros produtos à base de tomate. Nos EUA, quase todos os tomates enlatados – mais de 30% dos tomates enlatados de todo o mundo – vêm de uma extensão de quase 500 km na Califórnia, que vai desde Bakersfield até ao Condado de Yolo.

“A Califórnia é muito singular em termos de clima”, explica Tapan Pathak, especialista em agricultura e clima da Universidade da Califórnia em Davis. Os verões longos com pouca ou nenhuma chuva são um “ambiente perfeito para o cultivo de tomate”. (Os tomates não gostam de ter as folhas molhadas).

Este clima, juntamente com os solos historicamente ricos, atraiu a indústria para a região no início do século XX, época em que a água era fornecida abundantemente aos agricultores de todo o estado através de gigantescos projetos de infraestrutura federais e estaduais que transportavam água das regiões na metade norte do estado para o lado sul.

Mas esta água tem vindo cada vez mais a escassear, tanto por razões políticas – já que este estado (e toda a costa oeste dos EUA) enfrenta o roubo a descoberto dos seus inestimáveis recursos hídricos – como por motivos climáticos, já que o planeta em aquecimento “aridifica” a região, alterando as próprias expectativas sobre a quantidade de água que poderá cair do céu.

De facto, no ano passado, uma equipa de climatologistas determinou que a região já estava presa numa “megaseca” desde o ano 2000 – com breves intervalos de humidade historicamente acima do normal. Este período, segundo os investigadores, foi o mais intenso dos últimos 1200 anos. E é inegável que as alterações climáticas têm tornado esta seca mais intensa, duradoura e aumentado as suas probabilidades de ocorrência.

Tomates sobre pressão

A realidade da seca só ganhou contornos verdadeiramente preocupantes no verão passado, quando o calor bateu recordes – e a seca também quebrou recordes históricos. Muitos agricultores obtiveram apenas uma fração, se é que obtiveram alguma, da água a que estavam habituados vinda de fontes estaduais e federais.

Os produtores de tomate têm vindo a reduzir o consumo de água. Desde o início dos anos 2000, a maior parte da indústria mudou para a irrigação subterrânea, usando pequenos tubos que colocam água e fertilizante diretamente nas raízes sedentas das plantas. Esta nova estratégia usa um pouco menos de água e fez com que os rendimentos disparassem 30% em cerca de 10 anos – um ganho incrível na relação “colheita por gota”, diz Tapan Pathak.

Contudo, não há muitas outras formas de economizar água. E agora que há menos água disponível, os produtores enfrentam decisões difíceis sobre os locais para onde a devem dirigir.

Aaron Barcellos enfrenta exatamente este dilema. A sua família cultiva cerca de 3000 hectares de terrenos perto de Firebaugh, onde costumavam plantar mais de 800 hectares de tomate por ano com pedaços de terrenos para cultivar algodão, aspargos, amêndoas e muitas outras frutas e legumes.

Porém, no ano passado, a escassez de água assustou Aaron Barcellos. A sua família plantou apenas 360 hectares de tomate. E este ano não parecia que as coisas iam ser diferentes. A família de Aaron plantou apenas 215 hectares – o suficiente para honrar os contratos com os produtores de enlatados.

O labrador do seu filho, Moose, gosta de farejar as plantas novas num dos poucos campos de tomate plantados recentemente, que emitem um aroma herbal muito forte.

“Não sei se vou plantar mais no próximo ano”, diz Aaron Barcellos. Entre o stress hídrico e o enorme aumento nos outros custos agrícolas, como os preços do combustível para os tratores e os fertilizantes – sem esquecer a inflação no geral – a menos que os produtores de enlatados queiram pagar muito mais pelos tomates no próximo ano, Aaron não está convencido de que vale a pena plantar tomates.

“A situação da água é o que me preocupa mais.”

Aaron Barcellos não está de todo sozinho nesta situação. Em 2019 e 2020, os produtores colheram cerca de 92.000 hectares de tomate, resultando numa produção de 11 milhões de toneladas. No ano passado, a área planeada de plantação chegava aos 93.000 hectares, resultando numa produção estimada de 12 milhões de toneladas – contudo, à medida que a época avançava, as expectativas baixaram para os 11.6 milhões de toneladas e depois para os 10.7 milhões.

Ainda é demasiado cedo para perceber exatamente como vai ser esta época, mas R. Greg Pruett, diretor da Companhia de Embalamento Ingomar, em Los Banos, vai direto ao assunto: “A nossa meta para este ano era respeitar o contrato relativamente ao mesmo número de tomates que produzimos no ano passado, mas não vamos atingir essa meta. Os hectares de tomate simplesmente não estão lá.” R. Greg Pruett estima que cerca de 83.000 a 87.000 hectares estão agora a crescer – melhor do que nada (é aproximadamente a área da cidade de Nova Iorque) – mas estes valores estão longe de serem suficientes.

As fábricas da Ingomar funcionam 24 horas por dia, 7 dias por semana, durante cerca de 100 dias, entre julho e outubro, e precisam de cerca de 600 cargas no total – uma carga são dois reboques de camiões repletos com 28 toneladas de tomates vermelhos – para alimentar as suas necessidades diariamente. O plano para obter tomates vindos de produtores de todo o estado começa a ser desenvolvido assim que a época anterior termina; e é um exercício delicado de adivinhação para determinar quem pode ser seduzido a cultivar tomates e a que preço; incluindo saber quando é que os tomates irão amadurecer e quais as dezenas de variedades diferentes necessárias no local – no momento certo – para colocar no produto de cada cliente a mistura perfeita de doçura e acidez, suco e polpa.

E se houver outra vaga de calor como a do ano passado? Isso altera os planos. E uma seca tão intensa como a atual? Isso pode mudar ainda mais as coisas.

R. Pruett está num passadiço de aço sobre um tanque de vapor com cerca de quatro andares de altura, observa a vasta maquinaria que apanha os tomates frescos no campo e os transforma num dos vegetais de conserva mais populares do mundo. “O futuro desta colheita pode por vezes parecer sombrio, sobretudo quando pensamos na seca. Mas este continua a ser o melhor lugar do mundo para cultivar. Para além da Califórnia, não consigo imaginar outro local com tanta produção de tomate no mundo.”

Como é óbvio, não são apenas as alterações climáticas que estão a mudar os solos. A pandemia e a guerra da Rússia contra a Ucrânia continuam a afetar a cadeia de abastecimento.

De acordo com Cassandra Swett, investigadora especializada em tomates da Universidade da Califórnia em Davis, esta é geralmente a forma como as alterações climáticas se fazem sentir – não apenas através dos incêndios catastróficos ou dos violentos furacões, mas de formas mais lentas. Os efeitos de uma vaga de calor ou de uma seca contínua propagam-se desde a quinta até às instalações de processamento, e depois para os comerciantes, e dos comerciantes para os pizzaiolos locais – e daí para o consumidor.

“Mas as implicações gerais revelam que a saúde dos tomates não está a ser afetada apenas pelo impacto direto das alterações climáticas, como a subida das temperaturas, mas também através de efeitos indiretos, como as secas e doenças”, diz Cassandra Swett.

“Se não chover mais no próximo inverno, vamos ter ainda mais problemas”, diz Mike Montna. “Isto é simplesmente a realidade.”

O efeito tomate

Na Zachary's Pizza, uma mini-rede de estabelecimentos na Bay Area, os tomates são a estrela. Cada pizza de prato fundo usa até 680 gramas de molho à base de tomate. Isto significa que a qualidade e a quantidade do tomate são realmente importantes. “Os nossos tomates [da Califórnia] são os melhores do mundo para as coisas que fazemos”, diz Kevin Suto, proprietário da pizzaria.

Até agora, Kevin Suto ainda não sentiu o aumento dos preços (ou a disponibilidade de tomate), mas o futuro preocupa-o: “No nosso caso, não temos escolha. Vamos ter de sorrir e aguentar”, diz Kevin.

Rob DiNapoli, um dos proprietários da Bianco DiNapoli, uma marca de tomate enlatado muito valorizada na indústria de pizzas, concorda com a afirmação de Kevin Suto. “Os tomates são como a gasolina. Quando os preços sobrem, as pessoas sofrem mais, pagam mais – mas não deixam de a usar.”

Tony Montagnaro é um dos gestores do Pinyon, um pequeno restaurante em Ojai, na Califórnia, especializado em pizza e ingredientes de origem californiana. “Os tomates são um alimento básico”, diz Tony. “Se no futuro não houver tomates suficientes, talvez a pizza esteja a correr o risco de se tornar num alimento sazonal.”

Há esperança para as pizzas

Os produtores de tomate não têm ilusões – é praticamente certo que o cultivo desta fruta vermelha vai ser mais complicado. Nos últimos 30 anos, o Vale Central da Califórnia devia ter registado entre cinco a sete dias com temperaturas acima dos 37.7 graus, um limite fisiológico para além do qual os tomateiros começam a stressar demasiado, diz Tapan Pathak – mas o trabalho deste investigador mostra que, até ao final deste século, a região pode vir a registar entre 40 a 50 dias com estas temperaturas por ano.

Sarah Smith, investigadora da Universidade da Califórnia em Davis, descobriu que basta um dia muito quente – acima dos 43.3 graus – para provocar uma queda tanto na colheita como na qualidade do tomate, custando ao produtor cerca de 1% da sua receita total.

“Isto não significa uma colheita fraca – não são valores enormes”, diz Sarah, “mas quando cultivamos e operamos com margens demasiado reduzidas, todas as perdas fazem a diferença.”

Encontrar soluções está a ficar cada vez mais difícil. Cassandra Swett e Tom Turini, da Universidade da Califórnia em Davis, estão constantemente a trabalhar para ajudar os produtores a anteciparem os problemas relacionados com o clima e as doenças.

Uma das ideias promissoras passava pela chamada “irrigação deficitária”. Tom Turini testou a quantidade de água que os produtores conseguiam economizar ao reduzir um pouco nas quantidades ideais de água durante os últimos meses de crescimento das plantas, quando estas já estão fortes e bem estabelecidas. Os testes iniciais, realizados há cerca de uma década, pareciam promissores – parecia que os produtores podiam dar apenas metade da água que as plantas queriam e manter as colheitas em valores mais ou menos equilibrados.

Porém, ao longo dos anos tem havido cada vez mais pragas e doenças a infiltrarem-se nos campos de tomateiros, muitas vezes impulsionadas pelos invernos aquecidos pelo clima.

Agora, Tom Turini está a repetir a experiência – dado que os tomates stressados, com pouca água, parecem ser particularmente vulneráveis a pragas e doenças, assim como as pessoas exaustas ficam mais suscetíveis às constipações.

Tom Turini examina uma planta cheia de pequenos tomates verdes que estão duros como pedra. Estes tomates foram plantados há cerca de dois meses atrás; mas em julho, Tom vai começar a reduzir a sua irrigação.

Ainda assim, mesmo que Tom venha a descobrir que o projeto de irrigação deficitária não funciona, irão continuar a haver tomates a crescer por todo o Vale Central – mas em menores quantidades.

“Se calhar agora vamos ter de economizar água e plantar menos.”

É pouco provável que os cientistas encontrem novos avanços que tornem os tomates completamente à prova do clima ou que os façam produzir colheitas acima da média. Contudo, os geneticistas da Universidade da Califórnia em Davis e de outras instituições estão arduamente a trabalhar para criar um tomate mais resistente à seca, que combata as doenças de forma mais eficaz e cresça com mais eficiência – obtendo ganhos onde possível. Mas os agricultores também são muito criativos e vão adaptar-se. É apenas uma questão de saber se nós [o público] vamos ter de pagar mais – para manter a indústria a funcionar.

Por outro lado, o pizaiolo Kevin Suto está extremamente confiante. “As pessoas adoram pizza, e vão continuar a comer pizza independentemente do que acontecer.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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