Conforme a maré sobe, uma aldeia indonésia tenta desesperadamente salvar os seus mortos

O cemitério de Timbulsoko, na costa norte de Java, está a afundar-se debaixo das ondas. Mas os aldeões não estão prontos para o deixar partir.

Por Kurt Mutchler
Publicado 20/06/2022, 10:47
inundação

Mulyono, de 61 anos, segura na lápide do seu pai depois de a ter removido do cemitério em Timbulsloko, uma aldeia na Regência Demak, na costa norte de Java Central, na Indonésia. À medida que a terra foi cedendo e o mar subindo, o cemitério começou a inundar. Mulyono e a sua família perderam as terras agrícolas e agora são pescadores.

Fotografia por Aji Styawan

Este artigo foi produzido e publicado pela National Geographic através de uma parceria de reportagem com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

REGÊNCIA DEMAK, INDONÉSIA – O fotógrafo indonésio Aji Styawan passou mais de quatro anos a cobrir o afundamento da costa na Regência Demak, em Java Central, para a sua reportagem publicada na edição de julho da revista National Geographic. Durante este tempo, Aji visitou dezenas de vezes a aldeia de Timbulsloko, que não fica muito longe da sua própria casa. A extração de águas subterrâneas está a provocar o rápido afundamento da costa na Regência Demak, sem esquecer as alterações climáticas, que estão a elevar o nível do mar. Para Aji Styawan, o cemitério da comunidade de Timbulsloko é uma ilustração particularmente forte desta situação. O cemitério ficava regularmente alagado durante a maré alta, impossibilitando os habitantes de visitar ou sepultar os seus entes queridos.

Depois, em setembro do ano passado, os aldeões conseguiram elevar o cemitério cerca de um metro e meio. Uma escavadora fornecida pelo governo local raspou a lama necessária do fundo do mar circundante, mas os aldeões fizeram a maior parte do trabalho à mão – removendo e depois recolocando as lápides, nivelando a lama recém empilhada e construindo uma vedação de bambu para a manter no lugar. O objetivo era preservar a ligação com o passado e as lembranças dos seus antepassados durante mais algum tempo.

“Para mim, pessoalmente, continuo a ficar surpreendido porque, mesmo quando estão vivas, estas pessoas vivem com a água do mar à sua volta, incluindo no interior das suas casas”, escreveu Aji Styawan num email enviado naquela época. “Quando morrerem, vão ser enterradas abaixo do nível do mar. Mesmo que o cemitério tenha sido elevado, os buracos que cavaram continuam a ter água do mar no seu interior.”

No final do Ramadão, em maio deste ano, os habitantes de Timbulsloko visitaram os túmulos dos seus familiares no cemitério inundado, chegando ao local através de um longo passadiço de madeira. Estas pessoas vivem rodeadas pela água do mar, que inunda regularmente as suas casas. E quando morrerem, vão ser enterradas durante a maré baixa.

Fotografia por Aji Styawan

Enquanto se preparam para adicionar lama ao topo do cemitério, para o elevar novamente acima da linha de maré alta, os habitantes marcam os locais das campas originais com varas de bambu.

Fotografia por Aji Styawan

Mulyono escreve o nome de um familiar na lápide temporária que vai substituir a lápide original enquanto o cemitério está a ser elevado.

Fotografia por Aji Styawan

Uma das pessoas que o fotógrafo conheceu no cemitério foi Mulyono, de 61 anos, que estava a cuidar das lápides da sua família. O pai de Mulyono foi enterrado neste cemitério em 1982; a irmã, Masriah, faleceu em 1988, e a mãe, Kharsanah, em 2008. Mulyono e a família eram agricultores nestas terras, e ele lembra-se de quando a aldeia estava rodeada de árvores e terras agrícolas férteis. Agora está cercada pela água do mar. No cemitério resta apenas uma árvore morta.

Quando o cemitério foi elevado em setembro do ano passado, Aji Styawan perguntou aos aldeões quanto tempo é que eles achavam que a lama fresca ia aguentar. “Eles disseram que podia aguentar até dois anos.”

Oito meses depois, o líder da aldeia de Timbulsloko disse a Aji Styawan que o cemitério já estava a ser levado pela água. A vedação de bambu que rodeava o cemitério desabou no final de 2021, e o cemitério perdeu mais de dois metros de solo no geral. Em fevereiro, um doador ofereceu aos habitantes da aldeia cerca de 980 pneus usados para espalhar pelo perímetro como uma forma de barreira improvisada – para adiar o inevitável durante mais algum tempo.

Como se não bastasse, o passadiço de madeira que vai desde a aldeia até ao cemitério fica quase submerso durante a maré alta. E a água continua a subir.

Esquerda: Superior:

Ao longo das décadas, foram enterradas neste cemitério cerca de 500 pessoas em 150 sepulturas.

Direita: Inferior:

Uma escavadora enviada pelo governo local começa a retirar lama do fundo do mar para elevar o cemitério. Para os habitantes de Timbulsloko, salvar o cemitério preserva a sua ligação com o passado – e é um símbolo de respeito pelos antepassados.

fotografias de Aji Styawan

Os aldeões instalam uma vedação de bambu para prender a lama adicionada ao cemitério, para evitar que esta seja levada pelo mar. A escavadora trabalhou três dias, mas os aldeões fizeram a maior parte do trabalho à mão para elevar o cemitério.

 

Fotografia por Aji Styawan

Misbah segura na lápide de um familiar antes de o cemitério ser elevado.

Fotografia por Aji Styawan

Sularso transporta a lápide de um familiar para longe do cemitério. Mais tarde, Sularso acabou por lhe dar uma boa limpeza.

Fotografia por Aji Styawan

Com o recurso a ferramentas manuais, os aldeões espalharam e nivelaram a lama desenterrada do fundo do mar pela escavadora.

Fotografia por Aji Styawan

No final de uma operação que se arrastou durante 25 dias, o cemitério havia sido elevado um metro e meio e as lápides devolvidas ao local. Mais tarde, a vedação de bambu foi fustigada pela maré e começou a desmoronar. Os aldeões substituíram a vedação por outra reforçada com redes, mas agora estão preocupados – depois de todo o trabalho árduo – sem saberem quanto tempo é que o cemitério irá permanecer seguro.

Fotografia por Aji Styawan

Com a operação de elevação terminada, Sundari, de 48 anos, reza no túmulo do marido. Antes dos trabalhos de elevação, os aldeões só podiam visitar os túmulos dos seus familiares durante a maré baixa ou de barco. A árvore morta é um testemunho do que existia antes de a terra ter começado a desaparecer.

Fotografia por Aji Styawan

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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