A ansiedade climática é generalizada entre os jovens – será que a conseguem superar?

A chamada geração do milénio, ou millennials, e a geração Z cresceram num planeta diferente, com escolhas mais difíceis do que as dos seus pais. Aceitar esta realidade é o primeiro passo para evitar o desespero.

Por Richard Schiffman
Publicado 5/07/2022, 11:36
Alteração climática

A chamada geração do milénio, ou millennials, e a geração Z cresceram num planeta diferente, com escolhas mais difíceis do que as dos seus pais. Aceitar esta realidade é o primeiro passo para evitar o desespero.

Fotografia por Illustration by Simone Noronha

O casal Katie Cielinski e Aaron Regunberg são millennials. Mas consideram-se filhos das alterações climáticas. Ambos atingiram a maioridade quando o mundo estava a despertar para os impactos catastróficos que as pessoas estavam a provocar no meio ambiente.

Antes de se casarem em 2017, ambos lidaram quase uma década com o dilema ético de trazer outro humano para um planeta já de si sobrelotado. Katie queria criar um aliado climático, alguém que lutasse por um planeta saudável, mas Aaron receava pelo futuro que o filho poderia enfrentar.

“Estamos a sair das condições climáticas estáveis que abrangeram e têm suportado todo o desenvolvimento da civilização humana”, diz Aaron. “Esta é uma catástrofe completamente única na vida da nossa espécie, diferente de tudo o que tivemos de enfrentar no passado.”

Aaron e Katie não estão sozinhos neste dilema. Aproximadamente 60% dos americanos entre os 27 e os 45 anos estão preocupados com a pegada de carbono implicada em trazer uma criança ao mundo, de acordo com uma sondagem de 2020 publicada na revista Climatic Change. Esta mesma sondagem descobriu que mais de 96% dos entrevistados disseram estar preocupados com o bem-estar de uma criança num mundo climaticamente alterado.

A ansiedade climática é generalizada

Ter filhos é apenas uma de várias decisões definitivas, escolhas que afetam o futuro dos que nasceram nas últimas décadas de formas que os seus pais e avós nunca imaginaram. Será que um jovem de vinte e poucos anos deve tomar conta da quinta da família na região oeste do Kansas, à medida que a seca prolongada e o declínio do abastecimento de água subterrânea alteram a agricultura nos Estados Unidos? Será que um recém-formado em Phoenix, cidade que lidou com 103 dias de temperaturas acima dos 37 graus em 2019 e em 2050 vai parecer-se mais com Bagdad, deve mudar-se para norte para uma região mais fria? Será que um casal em Virginia Beach deve fazer uma hipoteca a 30 anos para uma casa que fica numa planície de inundação?

Estas decisões importantes, juntamente com a ansiedade crescente em relação à forma como a Terra se poderá comportar à medida que vai aquecendo, têm criado uma preocupação cada vez maior entre os jovens, que veem o seu futuro à luz das enormes perturbações climáticas que se avizinham, e entre as gerações mais velhas, que não irão viver para testemunhar as piores consequências.

“As pessoas dizem-me que tenho apenas 16 anos e que não preciso de me preocupar com essas coisas com 16 anos”, diz Seryn Kim, que vive em Brooklyn, Nova Iorque. “Mas eu cresci com os meus amigos à sombra do tique-taque do relógio.”

Os chamados filhos das alterações climáticas irão em breve superar em número aqueles que cresceram antes de esta crise se manifestar. As sondagens mostram que os jovens estão muito mais preocupados do que os mais velhos, mas é difícil prever se esta população em rápida expansão consegue forçar o mundo a agir de forma decisiva a tempo de reduzir as emissões.

Os níveis de ansiedade podem ser esmagadores. Mais de metade dos 10.000 jovens entrevistados para um estudo global, que foi publicado em dezembro do ano passado no The Lancet, concorda com a afirmação de que “a humanidade está perdida”. Quase metade dos entrevistados disse que as suas preocupações com o estado do planeta interferiam no sono, na sua capacidade de estudar, brincar e divertir.

“Creio que esta é uma resposta ao facto de testemunharmos catástrofes ambientais, ao mesmo tempo que vemos adultos extremamente poderosos a colocarem repetidamente os seus interesses pessoais e mesquinhos à frente da sobrevivência coletiva”, diz o ativista climático e escritor Daniel Sherrell, de 31 anos.

“O que nos surpreendeu foi o quão assustados estavam”, diz a britânica Caroline Hickman, psicoterapeuta e autora principal do estudo publicado no The Lancet. “As crianças encaram isto de uma forma pessoal. Sentem que o que estamos fazer com a natureza, estamos a fazer com elas.”

Não é o típico dia do juízo final

Russell Behr, de 17 anos, estudante na Escola Saint Ann’s em Brooklyn, reflete esta linha de pensamento. Russell deixou de acreditar que os líderes mundiais vão responder a tempo.

“Eu ouço os professores e outras pessoas a dizer que a geração deles estragou tudo e agora cabe à nossa geração consertar as coisas”, diz Russel. Isto incomoda-o, porque Russel acredita que os jovens só irão estar em posições de poder para mudar as coisas quando já for demasiado tarde.

Num esforço para o consolar, a mãe de Russel Behr, Danielle Ausrotas, disse-lhe que cada geração enfrentou os seus próprios desafios. As guerras e tempos difíceis aconteceram regularmente ao longo da história americana. Quando era criança, Danielle viveu com a ameaça de um possível ataque nuclear e participou regularmente nos simulacros “duck and cover”, que envolviam esconder-se debaixo da secretária na escola.

Porém, Russell sublinha uma diferença fundamental entre o passado e agora. “Durante a Guerra Fria, as pessoas tinham de agir para piorar as coisas, alguém tinha de lançar um ataque. Mas agora, o problema é a nossa inação.”

Russel Behr deixou de comer carne porque o gado produz o potente gás metano, e usa cada vez mais os transportes públicos. E também participa ocasionalmente em comícios ou greves escolares climáticas. Russel está a pensar em adotar um filho no caso de se casar, em vez de ter um. Mas também diz que, se pensar muito sobre o que está por vir, isso pode mudar.

“Eu quis sempre estudar história e ser professor. Mas depois penso – o que irei dizer a estas crianças no futuro sobre o que está a acontecer agora e porque não fizemos nada?”

Transformar a ‘eco-ansiedade’ em ação

Emily Balcetis, professora de psicologia na Universidade de Nova Iorque, tem observado esta divisão geracional a aumentar na sua própria casa de maneiras que revelam claramente uma diferença – e isso surpreendeu-a. Com 42 anos, Emily Balcetis é dois anos mais velha do que o millennial mais velho, mas lembra-se de quando era estudante e ouviu falar sobre ursos-polares famintos na televisão. Emily “não aguentou” o programa e desligou a televisão. “Acho que estava em negação.” Agora, o seu filho Matty ouviu falar – no infantário – sobre estas mesmas ameaças aos ursos-polares.

Se na década de 1990 o tema das alterações climáticas parecia demasiado abstrato, os tempos mudaram, tal como Emily Balcetis veio a perceber quando colocou o jantar na mesa num recipiente descartável. “O Matty começou a chorar e perguntou se não podíamos reutilizar ou reciclar o recipiente.”

“Aquilo teve impacto. Sou da geração mais velha que não sente este receio.” O seu filho Matty tem quatro anos.

Em resposta aos jovens americanos que se sentem sobrecarregados com estas preocupações, a Universidade de Washington Bothell tem um curso sobre eco-luto, gerido por Jennifer Atkinson, que fornece aos alunos ferramentas como rituais de luto e exercícios de atenção plena para os ajudar a lidar com as suas emoções. O primeiro passo, diz Jennifer Atkinson, é reconhecer completamente a própria dor.

“Nesta região, o verão costumava ser a grande recompensa após o cinzento interminável do inverno”, diz Jennifer. “Agora, essa expectativa foi substituída pela época de incêndios florestais, onde não podemos respirar fora de casa.” Para piorar as coisas, no verão passado, uma enorme cúpula de calor pairou sobre a região, resultando em várias semanas com as temperaturas mais elevadas de que há registo no noroeste do Pacífico.

Os alunos de Jennifer sentem um misto de “tristeza, medo e indignação” com as mudanças que viram nos seus vinte e poucos anos de vida. Jennifer não diz aos alunos para evitarem estas “emoções negativas” – que na realidade não são negativas, diz Jennifer, mas sim uma resposta saudável à perda.

“O luto oferece-nos clareza sobre o que amamos e não queremos perder, e a raiva motiva-nos a lutar contra as injustiças. Eu peço aos meus alunos para encararem estes sentimentos intensos como se fossem uma espécie de superpoder que eles podem canalizar para ajudar a criar um mundo melhor.”

Uma das alunas de Jennifer Atkinson que abraçou pessoalmente esta mensagem é Tara Fisher, que decidiu dedicar a sua vida profissional a ajudar pessoas traumatizadas por desastres climáticos. No verão do ano passado, Tara Fisher voluntariou-se para ajudar os sem-abrigo de Seattle a encontrar casa, para evitarem o fumo e o calor. Se existir um lado positivo nestes tipos de eventos, diz Tara Fisher, é as pessoas nos países mais ricos perceberem que, quando se trata de clima, estamos todos no mesmo barco.

“Isso ensina-nos a ter empatia pelas pessoas nos países em desenvolvimento, pessoas cujas vidas já estão a ser devastadas pelas alterações climáticas.”

Jovens e comprometidos

Contudo, também há algumas boas notícias no meio de tanta ansiedade. Nos Estados Unidos, os jovens que mais sofrem com esta ansiedade também são os que estão mais confiantes de que podem fazer algo a esse respeito, diz Alec Tyson, diretor-adjunto do Centro de investigação PEW, um laboratório de ideias em Washington D.C. Tanto os millennials como os adultos da Geração Z — pessoas nascidas depois de 1996 — têm demonstrado elevados níveis de envolvimento com esta matéria online e estão a fazer mais para levar uma vida ecológica.

E também construíram um movimento formidável de protesto num esforço para levar os governos a agir. Em 2019, milhões de jovens participaram em protestos no mesmo dia pelo mundo inteiro, incluindo em Sydney, Nova Iorque e Mumbai – a maior cidade da Índia.

“A greve é mais importante do que a educação se não tivermos uma razão para usar essa educação no futuro”, diz Anna Grace Hottinger, de 19 anos, que dá formação aos seus colegas sobre como se podem envolver nos trabalhos de justiça climática. Anna Hottinger fez campanha para aprovar a primeira legislação estatal do New Green Deal dos EUA no seu estado natal, o Minnesota, e também está a fazer uma investigação com os seus colegas para descobrir de que forma os jovens estão a ser afetados emocionalmente. Anna Hottinger diz que, ao fazer os jovens falar sobre os seus sentimentos, sem os pressionar, faz com que eles se sintam mais capacitados e menos sozinhos.

A esperança vem com fraldas

Enquanto isso, Katie Cielinski e Aaron Regunberg seguem as suas vidas. O casal  resolveu o seu dilema e teve um filho, Asa, que nasceu em março de 2021. Esta família vive em Providence, Rhode Island. Katie é advogada e trabalha no ministério público. Aaron, que trabalhou quatro anos na legislatura estatal, formou-se na Escola de Direito de Harvard no mês passado. Depois de fazer um estágio com um juiz federal, Aaron pretende agora exercer advocacia ambiental.

“Quero ter pessoas boas nesta geração para lutar pelo que está correto”, diz Katie, explicando as razões pelas quais o casal decidiu ter um filho.

“O que me convenceu foi compreender que a luta por um futuro habitável não se pode cingir apenas à sobrevivência e estabilidade”, diz Aaron. “Também tem de ser uma luta para evitar que o nosso mundo se torne num lugar mais pobre, mais sombrio e mais solitário. Para a Katie e para mim, abraçar este conceito significava ter este bebé e ensiná-lo sobre todas as coisas que há para amar neste mundo e comprometer as nossas vidas para lutarmos pelo mesmo e, algures no tempo, ao lado do nosso filho e ao lado de todas as outras crianças que enfrentam o mesmo futuro incerto .”

Segundo o casal, o filho Asa deu-lhes uma nova perspetiva de futuro.

“Eu costumava ter dificuldades em lidar com o desespero em torno do ativismo climático”, diz Aaron. “Mas nunca mais senti isso desde que o Asa nasceu. Assim que decidimos apostar que temos um futuro que vale a pena viver, o niilismo deixa simplesmente de ser uma opção.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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