As vagas de calor marinhas estão a aumentar. O que são estas bolhas de água quente?

As alterações climáticas estão a provocar um aquecimento intenso dos oceanos da Terra com mais frequência e durante mais tempo, representando riscos enormes para os animais e plantas que vivem neste ambiente.

Por Kieran Mulvaney
Publicado 23/09/2022, 11:42
Corais branqueados na Baía de Kahala'u, no Havai

Peixes nadam perto de corais branqueados na Baía de Kahala'u em Kailua-Kona, no Havai, em 2019, quatro anos depois de uma enorme vaga de calor marinha ter matado quase metade dos corais desta linha costeira.

Fotografia por Caleb Jones, AP Images

A água começou a aquecer no Golfo do Alasca no final de 2013. Em poucos meses, as temperaturas da superfície do mar aumentaram em média 2,7 graus Celsius, e em alguns locais até 3,8 graus. Inicialmente isto afetou uma área de oceano de aproximadamente 800 quilómetros de diâmetro e 90 metros de profundidade, mas em meados de 2014 esta área já tinha mais do que duplicado de tamanho, acabando por se estender ao longo 3.200 quilómetros desde o Alasca ao México. Os cientistas chamam-lhe “bolha”, um fenómeno conhecido por vaga de calor marinha – e ao longo de três anos virou o ecossistema do Pacífico Norte do avesso.

Os números de plâncton e krill caíram. O número de bacalhau do Pacífico ao largo do Alasca diminuiu – levando eventualmente ao colapso da sua população. Leões-marinhos famintos começaram a chegar às praias aos milhares, e um grande número de aves marinhas morreu. Sem krill para comer, as baleias-jubarte viraram-se para as anchovas, acabando por nadar mais perto da costa para as encontrar e ficando enleadas nos materiais de pesca. Os nascimentos de baleias-jubarte também caíram 75% nos seis anos seguintes. A proliferação de algas tóxicas afetou a pesca de caranguejo. A cadeia alimentar mudou, deixando de ser sustentada por minúsculos crustáceos para ser dominada por uma de organismos gelatinosos nutricionalmente pobres chamados pirossomas que nunca tinham sido registados tão a norte.

As vagas de calor marinhas são definidas por picos acentuados de temperaturas anormalmente quentes que duram pelo menos cinco dias, embora muitos destes picos persistam durante semanas ou meses. Alimentadas pelo aquecimento dos oceanos provocado pelas alterações climáticas, estas vagas podem impactar os ecossistemas marinhos durante anos após a água arrefecer novamente. À medida que os efeitos das alterações climáticas vão ficando cada vez mais entranhados pelo mundo inteiro, as vagas de calor marinhas aumentam de frequência e intensidade – representando, segundo a oceanógrafa Hillary Scannell, “uma grande preocupação” para os ambientes oceânicos.

Vagas de calor marinhas estão a aumentar

Quando os cientistas estavam a começar a compreender estes acontecimentos no nordeste do Pacífico, um grupo de 15 especialistas em oceanos reuniu-se em Perth, na Austrália, para analisar a ciência emergente sobre as vagas de calor marinhas. Este encontro não foi motivado pela referida bolha, cuja natureza ainda estava a emergir, mas devido um evento de aquecimento durante o verão de 2010/2011, no qual as águas do oeste da Austrália aqueceram uns surpreendentes 6 graus, matando enormes faixas de algas e um grande número de animais, desde abalones e vieiras a pinguins.

Naquela altura, diz Eric Oliver, da Universidade Dalhousie em Nova Escócia, no Canadá, que estava na reunião, esta ciência estava relativamente na sua infância; desde então, porém, o interesse pelo tema explodiu.

“Creio que o primeiro uso do termo vaga de calor marinha foi em 2010, 2011, ou algo assim”, diz Eric Oliver. “Eu conhecia todos os estudos que saíam. Agora, não os consigo acompanhar.”

Este aumento nos estudos científicos reflete um aumento nos relatórios sobre eventos de vagas de calor marinhas. Em 2016, uma vaga de calor marinha no Chile desencadeou a proliferação de algas que devastaram produções de aquacultura. De 2015 até 2019, uma série de vagas de calor no Mar Mediterrâneo levou a diversas mortalidades em massa de ervas marinhas e corais, anunciando o que tem sido chamado de novo normal na região. Em 2021 e 2022, a Nova Zelândia testemunhou as suas temperaturas oceânicas mais elevadas de que há registo, resultando no branqueamento de “milhões” de esponjas do mar.

As causas exatas destas vagas de calor variam, embora o aquecimento do clima as esteja a tornar mais frequentes. O evento na Austrália foi motivado por um fortalecimento da Corrente Leeuwen, que flui para sul, e trouxe maiores quantidades de água quente vinda do Oceano Índico. Da mesma forma, uma vaga de calor em 2015-16 no Mar da Tasmânia, entre a Austrália e a Nova Zelândia, foi desencadeada por um fortalecimento da Corrente da Austrália Oriental, que passa pelo sul do Mar de Coral.

Por outro lado, um estudo feito em 2019 descobriu que 60% das vagas de calor marinhas no sudoeste do Atlântico, incluindo uma vaga de calor no Brasil em 2013-14, tiveram origem em sistemas de alta pressão sobre o Oceano Índico. Esta bolha foi precipitada pelo que se chamou de “cume ridiculamente persistente” de alta pressão estacionado sobre o Pacífico Norte, impedindo que o ar frio gerasse tempestades que poderiam agitar a água. Consequentemente, a água estratificou e uma camada anormalmente quente estabeleceu-se à superfície.

Alterações climáticas impulsionam vagas de calor marinhas

Mas há um elemento subjacente que torna estas vagas de calor mais frequentes e intensas – as alterações climáticas. O oceano absorve 90% do calor extra adicionado à atmosfera pela queima de combustíveis fósseis e, como resultado, os 700 metros superiores dos oceanos mundiais – onde a maior parte deste calor absorvido está concentrado – aqueceram cerca de 0,8 graus em média desde 1901. Um oceano mais quente poderia razoavelmente ser mais suscetível às vagas de calor marinhas, e de facto é isso que parece estar a acontecer.

Um estudo feito em 2020, publicado na revista Science, concluiu que as vagas de calor marinhas aumentaram mais de 20 vezes devido ao aquecimento global. Os autores do estudo descobriram que, na primeira década após os satélites começarem a registar as temperaturas do oceano (ou seja, após 1981), registaram-se 27 grandes vagas de calor marinhas, com uma duração média de 32 dias e anomalias médias de pico de temperatura a rondar os 4,7 graus; na década de 2010, registaram-se 172 vagas de calor marinhas, que duraram em média 48 dias e com um pico médio de temperatura de quase 5,5 graus acima do normal.

No entanto, falta descobrir muitas coisas sobre as vagas de calor marinhas. Por exemplo, explica Nicholas Bond, cientista de investigação da Universidade de Washington e climatologista do estado Washington, falta perceber porque é que tantas vagas de calor marinhas persistem durante semanas ou meses. “Deve haver algo mais a acontecer que ajuda na sua persistência”, diz Nicholas Bond, acrescentando que uma das explicações pode passar pelo facto de, quando a superfície do oceano aquece, irradia calor para a atmosfera – impedindo assim a formação de nuvens e expondo a água do mar a mais luz solar e ao aquecimento adicional.

Porém, o que se conhece sobre as vagas de calor marinhas é suficiente para os cientistas estarem seriamente preocupados com os seus possíveis impactos. Destaca-se o facto de estes impactos poderem durar muito tempo após o desaparecimento das vagas de calor. Três anos depois da chamada bolha, as águas do nordeste do Pacífico começaram a arrefecer em 2016; mas anos depois, os cientistas ainda estão a tentar determinar até que ponto o ecossistema da região poderá regressar ao seu estado pré-bolha. Da mesma forma, diz Hillary Scannell, que é cientista de dados da Jupiter Intelligence Inc., após o evento de 2010-2011 na Austrália, “muitas florestas de algas morreram e são necessárias literalmente décadas para estes ecossistemas recuperarem”.

Eric Oliver está particularmente preocupado com o potencial impacto das vagas de calor marinhas nas águas tropicais.

“Penso que é aí que é realmente preocupante”, diz Eric. “A vida nos trópicos está adaptada a uma faixa bastante estreita de temperaturas. Portanto, as coisas podem ficar realmente complicadas nestes locais. Podemos vir a ter mudanças completas nos sistemas tropicais. É por isso que as pessoas estão tão preocupadas com os recifes de coral.”

As vagas de calor marinhas isoladas podem ser disruptivas para os ecossistemas marinhos, mas Nicholas Bond salienta que estas se estão a multiplicar e a intensificar ao mesmo tempo que o oceano enfrenta uma série de outras pressões, tornando os potenciais impactos das vagas de calor ainda mais severos.

“Em muitas partes do oceano global, a pesca já pode ter atingido níveis insustentáveis”, diz Nicholas Bond. “Há uma pressão incrível sobre estes ecossistemas. E quando juntamos a isto as mudanças que estão a ocorrer devido a eventos como as vagas de calor marinhas, mudanças que irão reduzir a produtividade destes sistemas, é muito perturbador. É algo que devemos reconhecer antes de testemunharmos colapsos que podem ter impactos tremendos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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