O degelo destes cumes montanhosos pode matar milhares. A ciência pode ajudar?

Nos Alpes, os cientistas estão a tentar implantar sistemas que alertem as pessoas para fugir dos deslizamentos de terras e inundações impulsionadas pelas alterações climáticas – que provocam o desmoronamento dos glaciares.

O Maciço do Monte Branco, com o pico mais alto da Europa, está a mudar fundamentalmente devido às alterações climáticas, juntamente com as montanhas de todo o planeta. As temperaturas nas regiões montanhosas subiram até 50% mais depressa do que a média global.

Fotografia por Keith Ladzinski, National Geographic Creative
Por Denise Hruby
Publicado 4/10/2022, 14:23

Na majestosa Marmolada, a rainha das Dolomitas de Itália, o primeiro domingo de julho foi um belo dia para os caminhantes – um céu quase sem nuvens e um calor a rondar os 28 graus no vale. Mas para a montanha, mesmo os 10 graus perto do pico de 3.343 metros eram sufocantes. O seu glaciar, o maior da cordilheira, partiu-se num trecho do tamanho de dois campos de futebol. Gelo e detritos caíram com a força de um arranha-céus a colapsar. Onze pessoas – duas delas eram guias experientes de montanha – nunca mais regressaram a casa.

“Vi imagens de como estava o local antes do colapso e teria levado o meu próprio filho para lá naquele dia”, diz Alberto Silvestri, um guia italiano. Para os alpinistas e habitantes locais, esta tragédia foi um lembrete aterrorizante de como a beleza das montanhas consegue mascarar os seus perigos.

Esta imagem, captada a 5 de julho de 2022 a partir de um helicóptero de resgate, mostra o glaciar Punta Rocca que desmoronou na montanha de Marmolada, nas Dolomitas de Itália. Temperaturas de 10 graus foram registadas no cume do glaciar, um valor recorde.

Fotografia por Tiziana Fabi, AFP, Getty Images

As cadeias montanhosas cobrem um quarto de todas as terras do planeta, e os milhões de pessoas que vivem nestas regiões conviveram sempre com os seus perigos naturais. Mas agora, o aquecimento global está a mudar fundamentalmente a sua composição. As temperaturas nestes locais subiram até 10% mais depressa do que a média global, e mesmo os próprios alpinistas, quando escalam os picos dos Himalaias, trocam os seus fatos de expedição por trajes mais leves – um pequeno conforto no meio de perigos elevados.

Os cientistas que calculam os riscos de desastres naturais nas montanhas, como é o caso de Perry Bartlet, do Instituto Federal de Pesquisa de Florestas, Neve e Paisagens (WSL), na Suíça, precisam de atualizar os seus modelos. “A escala do que calculamos mudou completamente – os eventos são muito maiores”, diz Perry Bartlet.

No início de setembro, um glaciar colapsou na Patagónia – e o Quirguistão testemunhou o colapso de outro em julho. À medida que o pergelissolo derrete, as rochas e o solo, outrora encerrados a temperaturas abaixo de zero, começam a desmoronar.

Os caminhantes de alta altitude e os aldeões no sopé das montanhas estão a enfrentar uma questão vital: à medida que as condições nas montanhas se tornam mais perigosas do que nunca, como é que se mantêm em segurança?

Um caminhante segura numa corda fixa perto da cabana de Boccalatte, junto ao glaciar Planpincieux em Courmayeur, Itália, em agosto de 2021. Este glaciar, a 2.700 metros de altitude, está a derreter devido às altas temperaturas provocadas pelas alterações climáticas, correndo o risco de colapsar sobre a aldeia de Planpincieux, que fica mais abaixo.

Perigo iminente

Esta é uma questão que atormenta Roberto Rota, presidente do concelho da vila montanhosa de Courmayeur, situada no lado italiano do Monte Branco, o cume mais elevado da Europa.

Ao percorrer um trajeto até à foz do túnel do Monte Branco, que liga Itália e França, a instável encosta do Monte de la Saxe poderia libertar tantas rochas e solo num evento que seria registado por sismógrafos em todo o mundo. Por cima da aldeia de Planpincieux, dois glaciares suspensos precariamente, com gelo suficiente para encher dois arranha-céus, correm o risco de entrar em colapso. Na pior das hipóteses, diz Roberto Rota, “destruiriam completamente toda a aldeia de Planpincieux”.

É uma responsabilidade que pesa sobre os seus ombros, diz Roberto Rota, e por vezes este ex-instrutor de esqui interroga-se se estava louco quando se candidatou ao cargo. Contudo, Roberto diz que os sistemas que ele, os seus antecessores e os cientistas implementaram o ajudam a dormir à noite.

Um radar terrestre destinado a picos e encostas instáveis mede os movimentos no local 24 horas por dia – se a velocidade aumentar, as probabilidades de abrandar também aumentam. As imagens de satélite e drones também são analisadas. Roberto Rota recebe diariamente um email às 14h00 com dados e análises. Nos dias bons, Roberto vê uma caixa amarela a indicar uma ameaça de nível médio de colapso dos glaciares.

Nos dias maus, a caixa está vermelha. Os habitantes locais, como Guiliana Patellani, conhecem este processo. Há dois anos, os semáforos ao longo da estrada para Planpincieux ficaram parados no vermelho, impedindo as pessoas de seguir para a zona de potencial desastre, e foram enviados alertas para os telemóveis das pessoas nas áreas potencialmente afetadas. As autoridades foram bater à porta da casa de pedra de Guiliana Patellani, e pediram à sua família para levar os seus pertences mais queridos e mudar para um local de evacuação de emergência.

Duas noites depois, quando o perigo diminuiu, Guiliana Patellani e a sua família regressaram a casa. Neste verão, o marido da irmã de Guiliana, um glaciologista, ligou a cancelar a visita familiar. “Ele disse que, com o calor extremo, é muito perigoso”, recorda Guiliana Patellani.

Ainda assim, aqui ninguém parece preocupado. Estes habitantes já viram avalanches e deslizamentos de rochas, diz Guiliana, e a casa que a sua avó construiu em 1936 nunca foi tocada. “E nós temos o sistema de monitorização”, diz a sua neta adolescente, Cecilia, que passou o verão a procurar cogumelos e mirtilos.

Esquerda: Superior:

O glaciar Planpincieux com a vila de Courmayeur mais abaixo.

Direita: Inferior:

Os habitantes de Saint-Gervais-les-Bains, nos Alpes franceses, estão ameaçados pelo degelo de um glaciar mais acima. Se o sistema de alerta detetar que o gelo pode desabar, os habitantes têm cerca de 15 minutos para evacuar em segurança.

Fotografia por Catherine Leblanc, Getty

Perigo invisível

Mas nem tudo pode ser evitado. Num riacho a apenas algumas dezenas de metros da sua casa, a família mostra-me a destruição de um deslizamento de terras provocado pelas chuvas fortes numa noite de sexta-feira em agosto. Uma parede de seis metros de rocha e pedregulhos derrubou duas pontes, cortando o acesso à aldeia, e esmagou o aqueduto, deixando 30.000 pessoas sem água potável.

“Nunca vai haver segurança a cem por cento”, diz Fabrizio Troilo, da Fundação Secure Mountain. Na sede desta fundação, radares monitorizados pelo Vale de Aosta estão direcionados para a encosta do Monte de la Saxe.

Mais acima no vale, Daniele Giordan, geólogo do Conselho Nacional de Pesquisa de Itália, passou a última década a aperfeiçoar o sistema de monitorização de glaciares. Os cenários e previsões são agora tão precisos que Daniele Giordan e os seus colegas estão confiantes de que o seu sistema está entre os melhores do mundo, talvez até um modelo para outros.

Os cientistas voam regularmente de helicóptero sobre os 180 glaciares da região, com os olhos focados em novas fendas, atualizando um catálogo fotográfico para monitorizar a sua evolução e caminhando até lagos glaciais que possam colapsar.

Mas como é natural, há limites. A água derretida e acumulada dentro do glaciar é uma grande preocupação. Neste verão, derreteram vários metros na superfície dos glaciares dos Alpes, uma quantidade tão dramática que superou em muito as piores previsões dos cientistas até ao momento. “Estas são todas observações de superfície, mas há processos que não conseguimos ver, porque ocorrem dentro do glaciar”, diz Daniele Giordan.

No lado francês do Monte Branco, Jean-Marc Peillex, presidente da câmara da cidade turística de Saint Gervais, conhece o tipo de destruição que o degelo escondido pode provocar – em 1892, a água no interior do glaciar Tête Rousse já tinha acumulado tanta pressão que rebentou o gelo como se fosse um balão.

Uma vaga de 40 metros transportou gelo, neve e todo tipo de detritos, matando 200 pessoas e deixando apenas um escola primária de pé. Após a catástrofe, as autoridades começaram a fazer furos no glaciar quase todos os anos, esperando que o excesso de água fosse drenado. Durante décadas, não saiu nada. Mas em 2009, quando investigadores encarregados de verificar se era seguro suspender o projeto, descobriu-se que afinal estavam a perfurar demasiado acima. Mais abaixo, cerca de 80.000 metros cúbicos, suficientes para encher 32 piscinas olímpicas, estavam prestes a romper o glaciar novamente.

“Foi pura sorte termos descoberto a tempo”, diz Jean-Marc Peillex. A água agora é drenada regularmente – nos pontos certos – e, se isso falhar, sensores pendurados em cordas por cima do glaciar acionam um novo sistema de alarme. Os habitantes têm 15 minutos para fugir para altitudes mais elevadas.

Em 2021, caminhantes no glaciar Geant dirigiam-se para Aiguilles Marbrees, no Maciço do Monte Branco, na fronteira entre Itália e França. As caminhadas e escaladas enfrentam mais restrições do que nunca devido à queda de rochas e ao perigo de deslizamentos de terras.

Na montanha mais mortífera da Europa

Manter a segurança das 20.000 pessoas que tentam escalar o Monte Branco todos os anos tem sido a segunda dor de cabeça de Jean-Marc Peillex. Encarado como uma caminhada fácil, o percurso até ao pico transformou-se num sonho a realizar para os caminhantes inexperientes. Mas também detém o recorde de mortalidade nas montanhas do continente europeu, com cerca de 100 pessoas a morrer todos os anos.

Neste verão, as temperaturas noturnas no pico já estavam acima dos zero graus quando as quedas de rochas, já consideradas a principal causa de morte, aumentaram de frequência. A montanha tornou-se demasiado imprevisível. As associações de guias locais cancelaram as viagens ao cume e as autoridades emitiram avisos. Jean-Marc Peillex propôs que qualquer pessoa que ainda assim tentasse alcançar o cume devia depositar 15.000 euros de seguro, o suficiente para cobrir os esforços de resgate e um serviço funerário. Embora esta proposta não tenha sido implementada, antes do final de julho, as cabanas de montanha de alta altitude, como o refúgio Goûter a 3.814 metros de altitude, começaram a encerrar. Sem abrigo ou guias, fazer esta caminhada de dois dias tornou-se praticamente impossível.

No entanto, cerca de uma dúzia de pessoas continuavam diariamente a tentar, diz Tsering Sherpa, da “Brigada Blanche” que foi enviada por Saint Gervais para patrulhar as rotas até ao cume. Os caminhantes sem calçado apropriado, picadores de gelo, casacos quentes ou uma reserva para os refúgios bastante movimentados eram solicitados para voltar para trás.

Quando visitei a região no início de setembro, o tempo já tinha arrefecido e os refúgios nas montanhas tinham acabado de reabrir. No escritório da Companhia de Guias de Montanha de Saint Gervais, uma das mais antigas do mundo, um grupo de jovens médicos do Hospital Universitário de Montpellier, França, ultimava os preparativos para chegar ao cume, entusiasmados com a possibilidade de alcançar o pico.

Mas estes jovens estavam cautelosos e fizeram um curso de preparação de quatro dias, onde se habituaram às grandes altitudes e praticaram o uso de picadores de gelo e fizeram caminhadas com grampos. Estes cursos são cada vez mais populares, e os guias raparam que os seus clientes estão cada vez mais conscientes dos riscos.

Contudo, as condições estavam tão instáveis que até mesmo os alpinistas veteranos tiveram dificuldade em terminar as suas escaladas. As organizações de resgate alpinas estiveram mais ocupadas do que nunca. Durante centenas de operações, só conseguiram resgatar os corpos dos alpinistas, muitos mortos por desmoronamentos em terrenos que outros tinham alertado que eram estáveis apenas alguns dias antes. Este ano, só na pequena província de Salzburgo, Áustria, foram registadas 24 mortes. “São mais mortes do que alguma vez tivemos. E mesmo para os alpinistas profissionais, tornou-se muito desafiador”, diz a socorrista de montanha e tratadora de cães Maria Riedler.

O acordo invisível que manteve os montanhistas seguros ao longo gerações já não se aplica. As travessias do Grand Couloir do Monte Branco, um desfiladeiro que demora 30 segundos a atravessar e é propenso aos desmoronamentos, costumavam ser consideradas mais seguras ao início da manhã. Em julho deste ano, as rochas caíam 24 horas por dia.

“As montanhas vão tornar-se definitivamente mais perigosas”, diz Pietro Picco, um guia que cresceu no sopé do Maciço do Monte Branco. Algumas rotas já não são exequíveis. Noutras, o nível de aptidão necessário é mais elevado e os guias estão a acolher grupos cada vez mais pequenos devido a isso.

“Se quer subir um determinado cume, precisa de ser 100% flexível com o tempo.” Pietro Picco e outros guias preveem que a época de escalar picos como o de Monte Branco vai terminar em julho e talvez recomece durante mais algumas semanas em setembro. E cada vez mais, quando um cume não é seguro, os caminhantes terão de optar por escaladas alternativas ou por ciclismo, escalada ou canoagem.

Em Courmayeur, o presidente Roberto Rota está a trabalhar num novo conjunto de pictogramas para alertar as pessoas. Roberto inveja os presidentes de câmara do litoral de Itália, onde uma simples bandeira vermelha mantém os turistas fora da água.

Jean-Marc Peillex também deseja que os riscos sejam levados mais a sério. O sistema de alarme do glaciar custou cerca de 7 milhões de euros, mas quando uma tempestade o despoletou acidentalmente, só foi evacuado cerca de um quinto dos habitantes.

“É uma pena, porque depois de todo este esforço para proteger as pessoas, elas não dão o último passo para se protegerem”, diz Jean-Marc, enquanto está perante dezenas de novas casas construídas mesmo na área onde o gelo e a neve da avalanche de 1892 ultrapassavam a altura do tsunami de 2011 no Japão. Hoje, esse tipo de evento não mataria duzentas pessoas, mas sim duas mil. “Temos de compreender que a natureza é mais forte do que nós”, acrescenta Jean-Marc Peillex, “e que somos nós que temos de mudar os nossos hábitos”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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