Meio Ambiente

Casal Voa Sobre o Atlântico em Pequeno Helicóptero e Grava Gelo a Derreter

O par, recém-casado, ficou ao mesmo tempo fascinado e surpreendido como os glaciares em decomposição.

Por Nora Rappaport

“Geralmente, se já foi feito, não me interessa muito.”

É o que nos diz o explorador do National Geographic, Eddie Kisfaludy, biólogo marinho, piloto e especialista na recolha de dados em situações extremas. Com a sua empresa SciFly, Kisfaludy recolhe dados em alguns dos ambientes mais intensos e remotos do planeta. Depois entrega os dados a pessoas que precisem deles, como os cientistas e as agências governamentais que tomam decisões que afetam o nosso planeta.

No ano passado, quando Kisfaludy e a noiva (agora mulher), Amanda Kisfaludy, foram a Londres para comprar um novo helicóptero para a SciFly, tiveram de encontrar uma solução para o levar de volta para a sede da empresa em San Diego, EUA.

“Ora, há duas formas de o fazer”, diz Eddie Kisfaludy. “Podemos colocá-lo num contentor e enviá-lo de volta num navio ou usá-lo para atravessar o Atlântico.”

Em linha reta, um avião comercial poderia fazer o percurso em cerca de meio dia. Mas o casal decidiu demorar um mês e viajar 8000 milhas (cerca de 12 875 km) no seu minúsculo helicóptero passando sobre algumas das mais remotas regiões da terra e conseguindo, pelo caminho, obter espetaculares imagens da paisagem.

A Gronelândia foi a etapa da viagem mais difícil de planear, mas, apesar das dificuldades – ou, na verdade, por causa delas – foi a parte da aventura que mais empolgou Eddie Kisfaludy. Porém, quando chegou, o que viu foi tão problemático como belo. (Veja como o gelo do Ártico está a derreter.)

Falámos com Eddie Kisfaludy sobre a viagem.

Toda a viagem foi entusiasmante, mas gostou particularmente da Gronelândia. Pode dizer-nos porquê?

Quando planeámos esta viagem, a Gronelândia era um completo mistério. Tudo o que sabia advinha das imagens de satélite da ilha nas quais via longos fiordes cobertos de água azul-turquesa e icebergues por todo o lado. Parecia um lugar onde nunca tinha estado. O desconhecido era o que mais me atraía.

Por que razão não existem mais informações nem mais filmagens destes locais?

É muito difícil lá chegar. Se conseguirmos, o clima é terrível na maior parte do tempo. Há um sistema de baixas pressões que se forma a sul da Islândia, a meio caminho entre a Gronelândia e a Europa, e gera uma corrente constante de mau tempo. Tivemos muita sorte por termos encontrado um clima tão perfeito.

Fale-nos do que viu na Gronelândia.

A coisa mais espetacular que vimos foram os episódios de decomposição dos glaciares. Há um silêncio absoluto e, de repente, ouve-se o gelo a quebrar, num barulho ensurdecedor. É impossível não perceber que a Gronelândia está a derreter. (Saiba como se pode salvar o gelo.)

E, do helicóptero, olhamos para baixo e vemos poças de gelo derretido e água a inundá-las e a desaparecer por um buraco abaixo. São os azuis mais bonitos que alguma vez vi – poças de água azul-turquesa e brilhante. Mas absorvem o calor. Quanto mais poças de gelo derretido houver, mais depressa a Gronelândia está a derreter. E estando a Gronelândia a derreter, temos de nos perguntar para onde irá toda esta água. Vai direita para o oceano.

O que sentiu ao voar sobre lugares que podem deixar de existir em breve?

Ver uma ilha inteira a derreter de uma forma sem precedentes faz-nos perceber que estamos num lugar frágil. É importante que consigamos obter imagens de uma área tão singular, um lugar a que é tão difícil chegar, para ajudar as pessoas a perceber o que significam realmente as mudanças climáticas.

O que é que a Gronelândia pode dizer-nos mais sobre o clima global?

Sendo a atmosfera da Gronelândia tão limpa, podemos pensar que a calota de gelo tem um filtro enorme que reterá os resíduos, o pó e os detritos da atmosfera; e que assentarão sobre a neve. A maior fonte de carbono do mundo é a queima de combustíveis fósseis, que faz com que o carbono seja transferido para a atmosfera. Mas o carbono também se fixa no oceano, bem como no gelo da Gronelândia. É algo que vem acontecendo há muito tempo.

Os geólogos podem estudar a atmosfera, fazer perfurações e perceber que os níveis de carbono no mundo mudaram ao longo do tempo. Pode-se saber a data em que grandes asteroides atingiram o planeta ou um vulcão entrou em erupção. O gelo guarda esses registos.

A Gronelândia está na linha da frente das mudanças climáticas. Temos de compreender o que se está a passar lá para podermos tomar decisões mais adequadas para o nosso planeta. O nosso planeta depende da ciência que se faz na Gronelândia. (Veja o que aconteceria se todo o gele derretesse.)

Esta entrevista foi editada no que respeita à dimensão e ao conteúdo.

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