O café está de volta aos produtores

Tem sido inconstante a relação dos pequenos produtores das montanhas Rwenzori com a produção de café. Mas um novo foco na qualidade e no preço justo está a começar a resolver os problemas.

quarta-feira, 6 de maio de 2020,
Por Jack Neighbour
O café está de volta às montanhas
O café está de volta às montanhas

Instalados nas encostas enevoadas e férteis das montanhas Rwenzori, os pequenos produtores do Uganda cultivam um café que começa a ser conhecido em todo o mundo. O clima, a altitude e o solo rico em nitrogénio contribuem para as notas doces e cítricas com um toque a chocolate preto desta variedade, mas a relação do Uganda com o café tem sido tão profunda e complexa como os grãos que aqui crescem. 

Décadas de uma estrutura de rede pobre em marketing obscureceram a atitude de toda uma geração de pequenos produtores em relação ao café e fez com esta cultura desaparecesse da região. Após receberem um forte incentivo para produzir café de forma a suplementar os índices de exportação do Uganda a meio do século XX, as débeis políticas reguladoras implementadas forçaram os pequenos produtores a vender a sua produção a intermediários diversos, de forma a levarem as suas pequenas colheitas a um exportador, uma transação que é, muitas vezes, apressada, dispendiosa e mais preocupada com a quantidade do que com a qualidade. Mas durante os últimos anos em particular, as coisas mudaram para melhor.

Abrigadas por uma nebulosidade saturada, as montanhas Rwenzori  foram buscar o seu nome a um termo do dialeto do Uganda que significa "fazedor de chuva". O seu clima húmido e temperado é perfeito para a cultura do café.

Fotografia de Rena Effendi

Kirimbwa Joseph é um agricultor na vanguarda do renascimento do café no Uganda. Trabalhando com a Nespresso e com o seu parceiro de implementação Agri Evolve, é um pioneiro na utilização de novas técnicas de cultivo de cerejas de café da melhor qualidade, proporcionando também uma vida melhor para a sua família. A formação recebida dos engenheiros agrónomos do programa de revitalização da Nespresso está a dar a Joseph o conhecimento necessário para gerir a sua plantação de forma muito mais eficiente. Agora, sabe quando podar ou substituir árvores para obter a máxima produtividade, a folhagem certa a plantar para manter o solo fértil e como desenvolver uma biodiversidade rica o suficiente para polinizar o seu café. Mas talvez o mais importante é que o Joseph sabe quando fazer a colheita. “Depois da formação, comecei a fazer a colheita do café de outra maneira,” diz. “Se só apanhar as cerejas vermelhas, a qualidade é melhor e recebo mais dinheiro.”

O Joseph está a tornar-se um exemplo para outros agricultores da região, já que pode mostrar as vantagens de afastar hábitos de colheita menos eficientes. A pobreza das montanhas Rwenzori faz com que os agricultores procurem o lucro fácil, recebendo pagamentos adiantados para toda a sua colheita por parte dos comerciantes, mesmo antes de esta começar. Esta necessidade de apresentar resultados faz com que todas as cerejas de café sejam colhidas, estejam ou não maduras. São apanhadas todas as variações de tamanho, cor e maturação. Esta mistura desequilibrada de cerejas verdes, laranjas e amarelas não maduras pesa menos do que as cerejas de café mais vermelhas e maduras, reduzindo os lucros no geral. É um pagamento único que acaba por não compensar. Mas agora, novas infraestruturas como o novo moinho de café em Bugoye financiado pela Nespresso e uma nova procura pela qualidade estão a mudar as coisas para melhor.

Bugoye, Uganda
Um novo moinho de café na cidade de Bugoye processa as cerejas em níveis meticulosos após a entrega dos agricultores. Isto retira alguma da responsabilidade aos pequenos produtores e permite que se foquem no aumento da produção do café de qualidade máxima.

Ao procurar café da melhor qualidade, a Nespresso irá sempre pagar um preço premium pelas melhores cerejas. A Nespresso não só paga mais aos agricultores do que receberiam por um produto de menor qualidade, como o faz de forma consistente. Isto faz com que valha a pena os agricultores alongarem o período de colheita e só apanharem as cerejas vermelhas, deixando o resto a amadurecer para conseguirem o preço mais elevado pago pela Nespresso.

É provável que demore algum tempo até que estes novos hábitos em relação ao café sejam assimilados pela comunidade. Mas com agricultores como o Joseph a melhorem o seu nível de vida, a palavra vai espalhar-se. O aumento do nível de qualidade do café nas montanhas Rwenzori tem contribuído para a melhoria do nível de vida de quem faz o seu cultivo, já que irá garantir uma maior qualidade do café e uma melhor qualidade de vida para as gerações vindouras.

A maior qualidade das cerejas de café mais vermelhas alcança um melhor valor no mercado. Por isso, os agricultores são incentivados a só apanhar esta variedade e a deixar o resto a amadurecer até atingir este estádio.

Fotografia de Rena Effendi
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