O Nosso Primeiro Exemplo de um Animal a Deslocar-se Sozinho

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Por Robert Krulwich
PEGADA LUNAR Uma das primeiras pegadas deixadas na superfície da Lua, é um símbolo incontornável de um dos maiores passos do Homem — neste caso, literalmente, um passo do astronauta Buzz Aldrin. Aldrin fotografou a sua própria pegada durante a missão da NASA Apollo 11, em 1969.

Sabem quem é: a pegada de Neil Armstrong na superfície da lua. "Um salto gigantesco", disse ele. Eis então outro salto — não tão "gigante", mas um pouco mais obscuro. Foi descoberto numa laje escura de rocha no limite do Norte Atlântico, num local remoto na Terra Nova...

O Nosso Primeiro Exemplo de um Animal a Deslocar-se Sozinho

Trata-se de uma marca deixada por outro terráqueo, um habitante dos oceanos com aspeto estranho que viveu há cerca de 565 milhões de anos e foi talvez a primeira criatura — certamente a primeira que conhecemos — a utilizar os seus próprios músculos para se deslocar de onde estava para um local totalmente novo.

Chamamos-lhes "ediacaranos" ou, mais corretamente, "organismos ediacaranos". Trata-se de uma família estranha, uma espécie de flor, salpicos de lama, um pouco como uma folha de palmeira ou talvez uma panqueca com nervuras...

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Mas que panqueca! Como Robert Moor descreve no seu novo livro On Trails: An Exploration, uma destas coisas

"(...) fez algo virtualmente sem precedentes neste planeta - tremeu, inchou, chegou-se para a frente, comprimiu-se e, ao fazê-lo, a um ritmo impercetivelmente lento, começou a mover-se pelo fundo do mar, deixando um rasto para trás."

O percurso que trilhou nesse dia na lama do oceano — agora congelada e fossilizada -  é o caminho mais antigo que alguma vez vimos na Terra, ridiculamente mais pequeno em comparação com a viagem de Armstrong, mas é "o início", o nosso início, a primeira prova de locomoção animal.

Um vulcão deve ter expelido lava numa zona de oceano há milhões de anos, congelando todas as criaturas vivas no local, até a Terra se ter deslocado lentamente e a camada rochosa ter vindo à superfície, tendo sido posteriormente esculpida e exposta, por isso agora se formos até Mistaken Point na costa da Terra Nova, podemos ver vários destes vestígios, tipo feto, bolha, panqueca..

O Nosso Primeiro Exemplo de um Animal a Deslocar-se Sozinho

Este é um local famoso, bem conhecido dos caçadores de fósseis. Mas, como por vezes acontece, uma nova visão pode descobrir algo que todos os outros não viram e, quando um jovem paleobiólogo de Oxford, Alexander Liu, veio ao local em 2008 e se baixou para ver o máximo possível (este é o próprio, deitado de lado nas rochas, sem sapatos, com proteção de calçado para proteger os fósseis)...

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...reparou naquilo que, à primeira vista, parecia um rasto de visco, um percurso com a largura de um polegar que atravessava a superfície da rocha.

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Moor visitou o local mais recentemente e quando passou os dedos pelo mesmo percurso de fósseis (existiam vários nestas rochas), escreveu: "Exibiam a distinta textura de vida. A sua superfície apresentava um padrão com uma série de arcos encaixados: ))))))”

É possível vê-los nitidamente na parte superior, mas também estão no meio...

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Estes podem ser vestígios de um pé com sucção que estas criaturas provavelmente utilizavam para se fixarem às rochas ou a superfícies planas no fundo do mar. As anémonas comportam-se assim atualmente: agarram-se no solo plano mas, ocasionalmente, soltam-se e dão "passos" grandes quando chega a altura de viajar.

Em 2009, Alexander Liu e alguns colegas escreveram um artigo científico que sugeria que estas criaturas antigas não estavam a flutuar, contorcer, rolar nem esticar. Não, estavam a "rastejar". Estes foram proto-passos primitivos e é possível ver cada passo como uma série de parêntesis encaixados.

Os críticos afirmam que podem ter sido marcas deixadas por pedras atiradas pelas ondas mas, após a análise dos especialistas, a maioria concluiu que Liu tinha razão. Não são marcas de pedras. São trilhos -  a nossa primeira prova de locomoção, de vida em movimento.

PORQUÊ IR PARA QAULQUER LADO?

A pergunta é: porquê incomodarem-se? Porquê mexerem-se?

Estavam à procura de comida? À procura de sexo? A fugir de um predador? Ou, regressemos a Neil Armstrong, estavam apenas a dar um passeio, a questionarem-se sobre o que estaria além do seguinte monte de areia?

Não se passava muito no oceano há 565 milhões de anos. A Terra estava a recuperar de um grande arrefecimento que deixou o fundo do mar, como descreve Moor: "vazio de predadores", a fugir para o vazio. E o mesmo se passava com o mar. Não havia muito para ver: "Talvez uma alforreca primitiva pudesse ter passado por cima como uma nuvem viva."

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Sem qualquer motivo urgente para se movimentarem, penso que o que possa ter levado estes pioneiros a viajar (como dizê-lo?) tenha sido um toque de inquietude, um comportamento que poderia ter sido passado pela grande cadeia da vida à medida que os animais se movimentavam em grandes arcos, rumando até ao México, voando até ao Canadá até à ponta da Argentina, circum-navegando o globo, deixando o planeta e, por fim, aterrando na lua.

É por isso que nos movimentamos, assim quero crer: para ver, para esticar, para ter mais escolhas.

Mas quando Moor coloca a mesma pergunta ("Porque é que nós, como animais, nos elevamos e vamos para outro sítio?), não fica inquieto. As criaturas que inventaram a locomoção, como lhe responde o paleobiólogo Liu, queriam provavelmente segurança - uma superfície limpa e plana à qual se podiam agarrar. As superfícies racham, giram. Quando a vida se torna demasiado dura onde estamos, vamos para onde é mais fácil.

As criaturas não queriam aventura mas sim conforto.
As duas explicações parecem opostas mas não são. Nenhum sítio permanece seguro para sempre, nem mesmo o nosso pequeno planeta azul. A determinada altura, por inquietude ou desespero, não importa o motivo, temos de fazer aquilo que as "panquecas" inventaram há 565 milhões de anos - não temos hipótese. A Natureza sabia disso de antemão. Por isso, os terráqueos aprenderam mais cedo.

Ou nos mexemos ou morremos.

E, por isso, mexemo-nos. E nunca mais parámos.

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