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Expedição Enfrenta os Perigos do Ártico em Prol da Ciência Climática

Depois de anos de tentativas frustradas devido a condições inclementes, os investigadores conseguiram finalmente recolher amostras chave de um lago remoto em Svalbard que podem dar importantes pistas sobre a forma como o clima irá mudar ao longo das próxi Sexta-feira, 9 Março

Por John Wendle

O barco ergue-se sobre o fundo azul da onda, atravessa a crista, paira por um momento no espaço e embate violentamente no mar para seguir caminho. O embate ecoa pelo casco de alumínio, que amplifica o zunido vibratório do mastro que suporta um vendaval de grau oito. Quando a embarcação mergulha de proa, a espuma das água azul-cobalto do Oceano Ártico ergue-se e tapa a vista dos picos cobertos de neve de Nordaustlandet, no arquipélago norueguês de Svalbard. Impulsionada por ventos frios que sopram a 72 quilómetros por hora, outra onda de seis metros esbarra num dos lados do veleiro, deixando uma equipa de paleoclimatólogos a cambalear.

Depois de fustigar o navio durante seis horas, a inesperada tempestade não dá sinais de serenar. O capitão Mario Acquarone faz uma perigosa manobra a alta velocidade por entre ondas que se sucedem e recua. No dia anterior, nesta costa inacessível a 80 graus norte, a tripulação de cientistas tinha recolhido amostras de sedimentos de um lago e sistema glaciar parcamente explorados. Tinham a esperança de que esta investigação lhes desse a conhecer dados de vários milénios de alterações climáticas de uma forma tão pormenorizada que lhes permitisse obter registos por década — documentação de alterações climáticas relevantes para a vida de um humano — e os ajudasse a prever mais eficazmente os efeitos de um futuro mais quente.

Há cinco anos que estavam a tentar chegar ao lago Ringgåsvatnet e ao glaciar Ahlmannfonna, mas nunca tinham conseguido superar as enormes tempestades ou ultrapassar as massas de gelo.  Agora estavam ansiosos por voltar e analisar o tesouro de lama que tinham recolhido — mas primeiro tinham de sobreviver ao vendaval.

"Isto é ciência radical", disse Ray Bradley, o mais velho e mais experimentado investigador do Ártico na expedição, quando o barco ancorou nos mais seguros mas ainda traiçoeiros limites da  enseada de Innvika no final do dia. Depois de 15 horas de águas revoltas, o diretor do Centro de Investigação do Sistema Climático do polo de Amhers da Universidade de Massachusetts conseguiu finalmente preparar uma tigela de aveia. "Quando veem um gráfico numa folha de papel, as pessoas nunca se lembram […] de todo o trabalho árduo que foi necessário para o fazer, apontou. "Em muitas situações, estamos a colocar a nossa vida em risco para obter estes registos."

De facto, a expedição enfrentou vários perigos para recolher dados deste local remoto nos confins do Ártico Norueguês — não só quatro tempestades em nove dias, mas também a ameaça constante de ataques de ursos-polares, o risco de embater numa rocha e icebergues de perfil baixo e afundar em fiordes desconhecidos. Mais ameaçadora ainda, a possibilidade de passar fome se os ventos instáveis mudassem de direção e trouxessem o gelo polar para sul e de, em poucas horas, reterem o barco e a tripulação num fiorde demasiado distante para que houvesse possibilidade de resgate por helicóptero. Tudo isto por uns pedaços de lama.

Pedaços de lama, mas não de uma lama qualquer. "O que esperamos é, essencialmente, que o sedimento encontrado no fundo do lago nos venha a dar a conhecer a história de como a calota de gelo sobreviveu — ou cresceu ou diminuiu — ao longo do tempo. Estamos a tentar olhar para a situação ambiental da atualidade partindo de um contexto de longo prazo", disse Bradley, cujo sotaque britânico foi quase completamente suplantado pelo de Boston. "Queríamos vir aqui porque é essencialmente o sinal indicativo da forma como o clima irá mudar no futuro e de como mudou no passado."

As amostras de sedimento são "arquivos naturais das alterações ambientais do passado", diz. "O que queremos fazer é basicamente abrir a biblioteca e ler a história dos sedimentos."

Lago de Segredos

O lago Ringgåsvatnet é importante porque é um corpo não congelado de água doce no extremo norte do planeta, aquecido pela extremidade norte da Corrente do Golfo. Além disso, é alimentado apenas por uma calota de gelo e os sedimentos que tem no fundo não foram removidos por um glaciar, pelo que se trata de um sinal histórico claro. O glaciar Ahlmannfonna é importante porque é uma pequena calota de gelo isolada, pelo que é especialmente suscetível a alterações no clima. Estudar as camadas de sedimentos glaciares arrastados para o lago irá revelar como o glaciar mudou e, assim, mostrar como o clima se alterou.

Chegar a um lugar tão revelador é perigoso, mas, para Bradley, o risco não é novidade. Em 2005, esteve envolvido naquela que ficou conhecida como a Controvérsia do Stick de Hóquei depois de os congressistas republicanos dos EUA o terem atacado, bem como aos colegas, por um gráfico climático histórico publicado num relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (Intergovernamental Panel on Climate Change — IPCC). O gráfico apresentava um aumento drástico das temperaturas médias globais que coincidia com a Revolução Industrial — um forte indício de que os humanos eram os responsáveis pelo aquecimento global.

"Eles decidiram que a melhor maneira de minar a credibilidade do IPCC era atacar os cientistas, e não a ciência", disse Bradley. Durante aquilo a que Bradley chama "manobras políticas", o congressista que liderava o ataque, Joe Barton, do Texas, enviou uma carta aberta aos seus constituintes, onde dizia depreciativamente que a ciência não passava de "trabalho de escritório sem nenhum tipo de trabalho pesado".

 

A Perigosa Costa Oeste de Svalbard

Nos dias que precederam a tempestade, avistámos um urso-polar com as crias numa vertente e vimos baleias-azuis e baleias-corcundas a atirarem jatos de água tendo como pano de funo glaciares que se estendiam até ao mar. Por fim, depois de 48 horas no oceano, aproximámo-nos do nosso Rubicão: uma abertura estreita entre a Península de Platen, virada a norte, e a massa de gelo Ártico a apenas 20 milhas náuticas de distância.

"Há cinco anos que tentamos fazer esta viagem e sempre tivemos muitos problemas com o gelo", afirma o líder da expedição Jostein Bakke, chefe do grupo Sistemas Quaternários Terrestres do Centro de Investigação Climática de Bjerknes da Universidade de Bergen, na Noruega. "Não é o tipo de expedição mais seguro", assevera. Se os ventos mudassem e empurrassem o gelo para sul, seria uma questão de horas até que o barco ficasse retido. "Estamos a desafiar os limites do que é possível fazer."

Hoje não há gelo. Ao passarmos a montanha Goodenoughfjellet na extremidade da península, Acquarone, investigador especializado em mamíferos marinhos e presidente da Sociedade Europeia de Cetáceos que navega o arquipélago há duas décadas, diz que a falta de gelo é uma faca de dois gumes. "Por um lado, é estimulante porque temos a possibilidade de visitar áreas novas que nos estavam vedadas devido ao gelo. Mas, por outro lado, é um pouco assustador porque é um sinal de que as coisas estão a mudar muito, muito depressa."

Agora, passado o ponto sem retorno, o barco dá meia volta para seguir para sul em direção à desconhecida enseada de Innvika. Ao examinarem as previsões do tempo manchadas, os climatólogos verificam que têm apenas uma janela de oito horas para descarregar dezenas de quilos de equipamento para a costa antes da chegada de novo vendaval. Quando nos preparávamos para descarregar o equipamento, Bradley diz: "Vamos ver agora que não é só trabalho de escritório e que não há dúvida de que é trabalho pesado."

Ponto Sem Retorno

Embora seja difícil, e, por vezes, impossível lá chegar, este lago e sistema glaciar irão ajudar os paleoclimatólogos a saber mais sobre o clima. "Svalbard é um local muito sensível", diz Bakke. Por isso, é uma forma única de os climatólogos olharem para as alterações climáticas numa perspetiva de longo prazo.

Talvez ainda mais importante seja o facto de pretenderem compreender porque parece haver "degraus" no registo ancestral do clima — alturas em que o sistema parece ter mudado repentinamente. "Para o clima do futuro, trata-se de algo muito importante porque existem limiares, e assim que os ultrapassamos, não há volta a dar", diz Bakke. "Esperamos que a nossa investigação possa ajudar a fazer previsões melhores no futuro. Se assim for, poderemos estar preparados para o que venha a acontecer nos próximos cem anos."

Para tal, os investigadores irão recolher amostras e outros dados da área. No laboratório, os investigadores irão cortar cuidadosamente os tubos de plástico com amostras, perpassar um fio a todo o comprimento e dividir a lama húmida em duas como se de um livro se tratasse.

A datação por carbono determinará as idades das camadas de sedimentos. As camadas ricas em minerais indicam glaciares que cresceram em períodos frios, desgastando a pedra, que é arrastada para o lago. As camadas de sedimentos orgânicos significam que o glaciar recuou para um lago durante períodos mais quentes, produzindo menos pedra erodida. "Podemos olhar para a escala do tempo e ver quando os glaciares foram grandes, quando foram pequenos, até que ponto mudaram abruptamente e quão dinâmicos foram ao longo dos últimos 10 000 anos", diz William D’Andrea, climatólogo do Observatório da Terra de Lamont-Doherty, da Universidade de Columbia.

D’Andrea estuda ceras de plantas, moléculas gordas e algas mortas que são preservadas nas amostras. O tipo e a quantidade destas substâncias podem indicar-lhe a temperatura de um lago ancestral e a quantidade de precipitação existentes em diferentes momentos.

"O que procuramos é principalmente a temperatura e a precipitação", diz. "Estes são os dois fatores que nos interessam em qualquer dia — se vai chover e se deverei usar uma camisola ou uma T-shirt.”

Há cerca de 9500 anos, o clima de Svalbard permitia usar T-shirt, uma vez que era muito mais quente do que é hoje. E os paleoclimatólogos acreditam que esse é o clima para o qual o Ártico tenderá de novo. Compreender melhor o que aconteceu exatamente no passado pode, pois, ajudar-nos a prever o futuro próximo.

No entanto, embora muita gente esteja agora ciente de que o clima está a mudar, o processo é relativamente lento em comparação com as nossas vidas quotidianas. Por isso, muitas vezes é difícil obter a atenção do público. Esta equipa espera retirar amostras de camadas finas que permitam mostrar antigas alterações climáticas à escala de décadas, e não de milénios.

"Daqui a apenas 30 anos, quando os nossos filhos forem mais velhos e já tivermos netos, o clima será muito diferente", diz Bradley. "Estamos a tentar conhecer a história com uma resolução muito nítida e num prazo que seja relevante para as pessoas."

Trabalho de Recolha de Amostras (É Tudo Menos Maçador)

No convés do barco, os cientistas preparam-se para sair do barco e começar o trabalho pesado. Carregam três velhas carabinas Mauser com balas de borracha, verificam cinco pistolas de sinalização e têm uma discussão séria sobre a segurança perante ursos-polares. Uma foca curiosa acompanha o barco de borracha enquanto a equipa procura por um local para montar o equipamento. No regresso, desatam tubos de plástico castanhos que poderíamos comprar em qualquer loja de canalização. Os instrumentos de recolha de amostras não destoariam numa plataforma petrolífera dos anos 1850. Em dezenas de viagens, a equipa transporta dois barcos insufláveis, 180 quilogramas de plataformas de perfuração, pesos, um macaco sólido de metal, um êmbolo para levar os tubos de encontro à lama, dois motores de barco, pelo menos 5o metros de tubos e outros equipamentos variados. É então que o trabalho começa.

Entre a costa e o lago há 1,6 quilómetros de terrenos pantanosos e entrecortados. Com 40 kg de secções da plataforma às costas, os nossos passos pesados são engolidos por camadas esponjosas de musgos antigos. Noutras alturas afundamo-nos até à altura das nossas botas em lama que nos suga. Há pedregulhos irregulares a toda a volta. Fugir de um urso parece algo impossível. Pelo menos, o objetivo da expedição aparece à frente dos nossos olhos: o lago Ringgåsvatnet, com 30 metros de profundidade e 1,6 quilómetros de comprimento.

O vento está a aumentar e a equipa não demora a montar o equipamento. Dão-me uma espingarda e dizem-me para ficar atento aos ursos-polares. Chegámos ao veleiro imediatamente antes da tempestade. Durante as próximas 24 horas, silvará a 110 quilómetros por hora, rodopiando pela enseada pouco profunda. A âncora desliza uma e outra vez e a embarcação revestido a alumínio é empurrada perigosamente para junto das rochas. “É a verdadeira experiência do Ártico”, diz Acquarone.

Finalmente, as rajadas de vento abrandam. Sob um sol da meia noite coberto por densas nuvens cinzentas, os investigadores preparam-se para um turno de trabalho árduo para depois de dirigirem para a costa. No meio do lago, apertados na pequena plataforma flutuante de recolha de amostras, Bakke e a sua equipa norueguesa mergulham um dos compridos tubos castanhos pela abertura de perfuração em 25 metros de água, empurrando-o até chegar ao fundo. Durante as próximas quatro horas, farão centenas de agachamentos, levantando e baixando um pesado êmbolo, e movendo o tubo na vertical de encontro à lama, à brita, à areia e à gravilha do leito do lago. Para recolher uma amostra de 1,5 metros são necessárias duas horas deste exercício abdominal. O tubo pode recolher uma amostra de até seis metros. “Não é muito sofisticado, mas funciona”, diz Bradley.

Depois de chegarem até aqui e de enfrentarem tantos perigos, os cientistas estão determinados em retirar a maior — e mais antiga — amostra possível do lago. Trabalham durante seis horas. Na costa, D’Andrea e outro investigador catalogam a desordenada paisagem de rochas do tamanho de bolas de futebol entre o glaciar de 488 metros a 3,2 quilómetros de distância e a costa do lago. Recolhem pequenos sacos de sedimentos e amostras de água ao mesmo tempo que calculam a elevação com o GPS.

Depois de trabalhar da meia noite ao meio dia, a equipa de perfuração obteve uma amostra longa e uma amostra curta e a equipa de terra concluiu a exploração e as medidas que tinha a fazer. Quando se voltaram a encontrar na praia de gravilha, os membros da expedição, embora cansados, dão início ao fatigante trabalho de desmontar todo o equipamento e voltar ao barco.

Ao fim de mais três horas e depois de concluído este trabalho, os cientistas sabem que têm mais dois dias e meio no mar, quatro lagos e muitas repetições do processo de recolha de amostras à sua frente. Embora não sejam capazes de prever a grande tempestade que os espera, o que todos sabem é que os momentos de exploração e descoberta valem o perigo e a fadiga que enfrentam. O valor dos dados faz com que valha a pena correr riscos.

 “Há certos aspetos da ciência em que as pessoas têm de assumir o risco”, diz Bradley. “No final de contas, se queremos obter informação, temos de correr riscos.”

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