Perpetual Planet

As Jóias Submarinas de Cuba Estão no Percurso do Turismo

Irão os Jardins da Rainha, uma extensa reserva marinha, ser ameaçados à medida que o país se abre aos visitantes norte-americanos?Friday, March 2

Por David Doubilet
Cardumes de Haemulon sciurus e Lutjanus apodus preenchem o espaço entre os largos ramos de Acropora palmata. De rápido crescimento mas frágil de natureza, este coral é uma espécie gravemente ameaçada. Já desapareceu praticamente em quase toda a região das Caraíbas - embora populações suas ainda permaneçam nos Jardins da Rainha.

Passaram 15 anos desde a última vez que explorámos os Jardins da Rainha. Neste emaranhado de ilhéus, ilhotas de mangues e recifes a cerca de 80 km da costa de Cuba, descobrimos um universo marinho que nos maravilhou com a sua vida vibrante.

Regressámos a Cuba ansiosos com o que iríamos ver após a passagem do tempo e as alterações climáticas neste parque nacional, que agora abrange cerca de 2200 km2. No nosso primeiro mergulho, descemos a um grande banco de coral Acropora palmata, uma espécie gravemente ameaçada cuja presença está a diminuir em todas as Caraíbas. Demos por nós num denso emaranhado, deslumbrados à medida que observámos vários roncadores e lucianos a lutarem pelo espaço entre os ramos largos, como se estivessem num jogo da cadeira. Era exatamente que estávamos à espera de ver: estávamos numa cápsula do tempo líquida, transportados de volta para um mundo de corais repletos de peixes, como seriam as Caraíbas há décadas atrás.

Noel López, um instrutor de mergulho que observa estas águas há 20 anos, conduziu-nos até um recife mais profundo onde encontrámos quatro espécies de garoupa, incluindo uma gigante com a dimensão de um fogão. O recife parecia ainda mais concorrido com peixes de maior porte e tubarões em comparação com a nossa primeira visita.

Certa manhã, entrámos nos mangues e nadámos através de enormes nuvens de peixes-rei. Aventurámo-nos para águas abertas para mergulhar com dezenas de elegantes tubarões-luzidios, que formaram um carrossel perfeito à nossa volta. Ao entardecer, regressámos aos mangues e mergulhámos na água escura com luzes fortes. Seguimos um crocodilo-americano, a caçar silenciosamente como um submarino. Foi incrível encontrar tantas presas e superpredadores num único sistema, muito menos num só dia.

Este oásis no oceano prospera, como destaca o cientista marinho Fabián Pina Amargós, porque Cuba protege de forma ativa a reserva, onde as marés e correntes ajudam a reter nutrientes e larvas. Até agora, o ecossistema marinho tem demonstrado ser resistente ao branqueamento do coral mas enfrenta as mesmas ameaças que os outros corais à medida que o oceano aquece, se torna mais ácido e o nível da água sobe.

À medida que o embargo dos EUA chega ao fim, o lado romântico das águas de Cuba irá, certamente, atrair mais norte-americanos. Existe uma necessidade urgente de criar um equilíbrio entre o ecoturismo e a conservação. Os cubanos sabem o que está em risco: as joias da coroa vivas das Caraíbas.

Peixes-rei rodopiam pelos mangues como um rio no mar. A densa floresta de raízes fornece abrigo para os peixes com a dimensão de um dedo, que formam grandes cardumes para tentarem confundir os predadores. Os mangues melhoram os recifes ao criarem uma área de reprodução para criaturas vulneráveis e ao reterem sedimentos que podem asfixiar o coral. Também podem armazenar carbono que, de outro modo pode contribuir para o aquecimento global.
À esquerda: Um trio de tubarões-luzidios (Carcharhinus falciformis) reluz no mar das Caraíbas azul. Os recifes saudáveis sustentam uma cadeia alimentar que liga o plâncton aos predadores.
À direita: Para além dos tubarões-luzidios, os predadores nos Jardins da Rainha incluem peixes maiores como esta Mycteroperca bonaci, vista aqui a comer um luciano.
À esquerda: O mar noturno pulsa com vida invisível durante o dia. Vermes marinhos atraídos por uma luz subaquática formam um véu vivo.
À direita: Um esquadrão de lulas das Caraíbas (Sepioteuthis sepioidea), conhecidas pelo seu apetite voraz e capacidade de comunicar através de rápidas mudanças de cor e padrões de pele, caça em busca de uma refeição.
Uma cria de uma tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), espécie gravemente ameaçada, com cerca de 7 cm de comprimento, nada para longe da costa sob a proteção do entardecer. Cuba baniu a captura de tartarugas marinhas em 2008.
À esquerda: Um Acanthemblemaria spinosa, com o tamanho de uma unha humana, espreita a partir da segurança do seu abrigo numa esponja amarela. Utiliza os seus olhos salientes para procurar pequenas partículas de alimento.
À direita: No interior das paredes semitranslúcidas de uma esponja azul (Callyspongia plicifera) está um mundo oculto. Um caranguejo Podochela sp. e um ofiurídeo procuram abrigo dentro da estrutura tubular.
O por-do-sol confere um brilho dourado sobre os corais que florescem na costa sul do país. Batizada por Cristóvão Colombo em honra da Rainha Isabel, este conjunto remoto de ilhéus, mangues e recifes aparenta estar praticamente imaculado com a passagem do tempo e a ação do homem.
Um crocodilo-americano submerso (Crocodylus acutus) vem à superfície após uma noite passada numa cama de Thalassia testudinum, para regressar ao labirinto de raízes de mangues que proporcionam um abrigo quase impenetrável. Os cientistas consideram os crocodilos como os engenheiros do ecossistema de mangues, porque criam caminhos que melhoram a circulação dos nutrientes. O aumento dos superpredadores, como crocodilos e tubarões, são indicadores fundamentais de um ecossistema equilibrado.

David Doubilet e Jennifer Hayes, que trabalham em equipa, fotografaram os oceanos desde o Equador até às regiões polares.