Perpetual Planet

Quando a Sobrevivência Depende do Conteúdo de Uma Mochila

O explorador do Ártico e montanhista veterano Lonnie Dupre é um especialista a fazer as malas. Quarta-feira, 7 Março

Por Gary Strauss

O que tem na sua mochila?

Se for Lonnie Dupre, serão cerca de 27 quilogramas de provisões essenciais.

“Transportar 19 dias de provisões não é fácil — requer uma análise cuidadosa de tudo aquilo que levamos connosco”, diz Dupre, o célebre explorador do Ártico e montanhista, que, em janeiro de 2015, se tornou o primeiro alpinista a terminar uma escalada solitária ao monte Denali.

laureado com o prémio Rolex deixou a sua casa, no Minnesota, no fim de semana passado para uma expedição de cinco semanas aos Himalaias, para participar no Vertical Nepal, uma equipa de escalada de seis pessoas, que tentará a primeira subida dos 6366 metros do Langju, no isolado vale Tsum. Quando regressar, em meado de novembro, Dupre preparar-se-á para a primeira incursão invernal de sempre ao monte Hunter.

Uma lanterna de alpinista é fundamental para Dupre, de 68 quilogramas, que tencionar encher uma mochila de 27 quilogramas para subir ao monte Hunter, considerado como um dos picos norte-americanos na categoria dos 4000 metros mais difíceis de escalar.

“O combustível é a primeira prioridade. Podemos passar algum tempo sem o alimento adequado, mas só dois ou três dias sem água, e precisamos de combustível de campismo para derreter a neve”, diz. “Num ambiente extremo, aquilo que trazemos connosco pode fazer a diferença entre a vida é a morte.”

As últimas expedições de Dupre reforçam um já extenso currículo, de 30 anos de aventura, que inclui a primeira viagem de circum-navegação não motorizada à Gronelândia, e viagens de esqui/trenó do Canadá ao Polo Norte.

Todavia, Dupre, descendente do explorador francês Jaques Cartier, também já teve a sua quota de fracassos. As suas três tentativas anteriores de escalada solitária ao monte Denali foram interrompidas pelo mau tempo, e, a determinada altura, a sua escalada bem-sucedida a esse mesmo monte foi ainda mais terrível. A meio da subida, a neve e a fraca visibilidade forçaram-no a parar e a abrigar-se, sem se poder reabastecer a partir de uma cache que se encontrava cerca de 300 metros abaixo de si.

“Restavam-me três dias de combustível e um dia e meio de alimento, mas a tempestade durou cinco dias. Tive de esticar tudo ao máximo, pois não sabia quanto tempo é que ia ficar retido”, recorda Dupre. “Achei que fosse o meu fim, que talvez tivesse umas 36 horas de vida.”

Na escuridão do inverno ártico, que dura 19 horas por dia, Dupre fechou-se no seu saco-cama, tentando lutar contra a hipotermia e a fome. “O maior medo nas escaladas de inverno não é a desilusão ou o fracasso — é ser apanhado por uma tempestade e ficar sem mantimentos”, diz. “Foi a única vez em toda a minha carreira em que fui realmente muito estúpido.”

As condições climáticas acabaram por melhorar, permitindo que Dupre descesse até à sua cache de mantimentos, que estava assinalada com uma estaca.

“Quando a vi, pensei, vou sobreviver”, conta. “Escavei rapidamente, revolvi o conteúdo de um saco de desporto e comi logo duas barras de chocolate.”

Reabastecido, Dupre voltou a subir para o seu acampamento a 3414 metros, ingerindo tudo quanto conseguia. Saciado e com o tempo a melhorar, o explorador acabou por conseguir chegar ao cume do monte Denali, onde passou 10 minutos a refletir acerca daquilo que lhe tinha levado quatro anos a conseguir antes de descer. “Estava aliviado por não ter de voltar a tentar”, diz. “A maioria das mortes ocorre durante a descida. Comecei a estugar o passo.”

Dupre ainda não acabou de fazer os ajustes ao conteúdo da sua mochila para a escalada ao monte Hunter. Eis a lista até agora:

  • Alimento para 19 dias: 9 quilogramas
  • Combustível de campismo: 2,8 quilogramas
  • Mochila: 1,8 quilogramas
  • Corda de escalada: 1,8 quilogramas
  • Tenda: 1,8 quilogramas
  • Saco-cama: 1,8 quilogramas
  • Fato de neve interior: 1,6 quilogramas
  • Estacas de marcação: 0,9 quilogramas
  • Equipamento eletrónico (telefone via satélite, câmara, transmissor localizador de emergência): 0,9 quilogramas
  • Garrafa térmica com água: 0,9 quilogramas
  • Pá: 0,5 quilogramas
  • Fogareiro: 0,5 quilogramas
  • Tacho, colher e para-vento para o fogareiro: 0,3 quilogramas
  • Colchão de ar: 0,3 quilogramas

 

“O Langju é bastante técnico, vamos levar muito equipamento — temos de estar preparados para tudo aquilo que a montanha nos exigir”, diz. “Mas o Hunter é mais para escalar pouco carregado, não é como o Denali, onde podemos levar um trenó de mantimentos, que vamos deixando ao longo do caminho.”

“Ainda estou a ver o que vou levar”, diz Dupre, que usa balanças de precisão e de casa de banho para ajustar os níveis de peso.

Os víveres incluem macarrão e queijo, lasanha, carnes pré-cozinhadas e bacon fumado com xarope de ácer liofilizado, chocolate denso e barras energéticas caseiras de 100 gramas, feitas com manteigas de frutos secos, mel, coco e alperce, e enroladas como rebuçados gigantes em papel encerado. Dupre “vai para a engorda” antes da maioria das expedições, ganhando entre 4,5 a 6,8 quilogramas de peso, que irá perder com o grande esforço físico efetuado.

Geralmente, Dupre leva consigo um pequeno artigo de luxo. “A minha única indulgência é uma boa chávena de café [liofilizado]”, revela.