Conheça o Mestre Fotógrafo numa Missão para nos Ajudar a Ver o Mar

Sem a fotografia, o mundo debaixo de água teria permanecido um mistério despercebido para a maioria de nós.Thursday, August 2, 2018

Por Becky Harlan
Fotografias Por David Doubilet
Um círculo de barracudas nada em redor de Dinah Halsead na Baía de Milne, Papua Nova Guiné. Cardumes de barracudas costumam formar círculos no mar como uma barreira defensiva. Dinah estende a sua mão à medida que os peixes nadam à sua volta, criando um gesto que torna a foto mais forte. —David Doubilet

O pioneiro  fotógrafo subaquático David Doubilet — cuja primeira fotografia foi publicada na National Geographic em 1972 — dedicou a sua vida a captar a ação, o drama e a poesia dos nossos oceanos e a trazer essas imagens até à superfície, para todos nós que nunca poderíamos ver tais imagens com os nossos próprios olhos. 

Perguntei ao fotógrafo o que o fez entrar nesta área e o que o faz continuar a mergulhar, a procurar e a partilhar histórias sobre os nossos mares em constante mudança. Segue em baixo uma versão editada da nossa conversa, para além de algumas das suas fotografias mais memoráveis da sua carreira.

O que o atraiu inicialmente para a fotografia subaquática?

Quando tinha 10 anos de idade, fiquei obcecado por uma fotografia na revista National Geographic que mostrava Luis Marden ao lado do capitão Jacques Cousteau no convés do Calypso. Cousteau era uma lenda, uma estrela internacional. Luis Marden era um fotógrafo submarino da National Geographic e o meu herói — queria ser como o Luis Marden e trazer de volta fotografias de um mundo secreto.

 

Qual foi a primeira foto que tirou debaixo de água?

As minhas primeiras fotos eram patéticas, falhanços escuros com caudas de peixes e pés humanos. Mais tarde, consegui aprender a utilizar uma Leica anterior à I Guerra Mundial com uma caixa em alumínio verdadeiro e passei todos os momentos que podia a fotografar debaixo de água em Nova Jérsia ou nas Baamas. Creio que tirei as minhas primeiras boas fotografias de mergulhadores a descomprimir em Small Hope Bay quando tinha 13 anos de idade. Ganhei uma medalha muito fixe pelo terceiro lugar e que ainda guardo por razões sentimentais.

Como era o trabalho no terreno nessa época?

ver galeria

Eu e os meus colegas estivemos aos ombros dos gigantes Hans Hass e Jacques Cousteau. Éramos poucos a produzir imagens submarinas com equipamento primitivo. O campo era amplo porque não existia verdadeiramente "terreno". Falávamos sobre o equipamento e como melhorá-lo. Era e ainda é um desafio produzir excelentes imagens num mundo onde só é possível ver alguns metros à nossa frente, num dia bom. Estávamos a trabalhar num oceano repleto de vida bizarra e maravilhosa, com limites de luz, tempo e tecnologia. Era frustrante porque podíamos "ver" fotografias que não conseguíamos tirar.

Qual é o momento mais memorável da sua carreira, até agora, que vivenciou no mar?

Estava a fotografar a Grande Barreira de Coral na Ilha Heron quando nadei ao lado de um peixe-papagaio-de-seis-linhas que dormia e que parecia estar a sorrir com dentes brancos reluzentes. Utilizam os dentes para morder e moer pedaços de coral, o que produz uma areia branca fina. Lembrei-me do meu dentista quando fotografei o sorriso vencedor deste peixe.—David Doubilet

Tive muitos momentos mágicos e surreais no mar. Mergulhar com leões-marinhos, descer por entre icebergues — mas uma ligação perdura com alegria e preocupação. Mergulhámos a partir de um barco perto da Baía de Kimbe, Papua Nova Guiné, sendo recebidos por uma pequena tartaruga-de-pente. Nadou ao meu lado durante todo o mergulho, olhando por cima do meu ombro, descansando no coral, comendo esponjas e observando-me a fotografar. Regressei várias vezes ao barco para trocar as botijas de oxigénio enquanto ela esperava debaixo do barco. No último mergulho do dia, devia estar cansada porque agarrou-se à minha botija e descansou, enquanto eu nadava pelos dois. À medida que saímos do recife, senti-me assoberbado pela experiência mas cheio de ansiedade pela tartaruga, se iria cumprimentar erradamente um barco de pesca e ser levada para um mercado local, virada de patas para o ar para derreter com o sol à espera de um comprador.

Existe uma contrapartida? Um momento menos bom?

Uma tartaruga-de-pente paira num mar de peixes-morcego e barracudas na Baía de Kimbe, Papua Nova Guiné. A tartaruga cumprimentou-nos enquanto entrávamos na água e nadou connosco durante todo o mergulho, descansando sobre as nossas botijas quando se cansou de nadar. —David Doubilet

Estava em Futo, Japão, num trabalho para fotografar a península de Izu. Certa manhã, desci para ir buscar o nosso barco e o porto estava fechado. Perguntei porquê e responderam-me: "Os golfinhos chegaram". Pensei que ia dirigir-me ao local e ver um grupo de golfinhos na enseada mas deparei-me com um mar vermelho-sangue com golfinhos vivos, mortos e a morrer. Agarrei nas minhas máquinas fotográficas e comecei a fotografar a partir das docas de cimento. Os golfinhos tinham sido encurralados para a enseada e puxados por redes. Os pescadores agarravam o golfinho pela narina e cortavam a sua artéria carótida, deixando-o nadar e sangrar até à morte. Os gritos e choros dos golfinhos subiram por entre o cimento, pelas minhas solas dos pés e entrando na minha alma.

São experiências tão intensas em lados tão opostos do espectro. Que outro tipo de histórias despertam o seu interesse?

Um golfinho rende-se à morte num mar de sangue durante a caça anual de golfinhos em Futo, Japão. Estava em trabalho em Futo por outra reportagem quando os pescadores encurralaram um grupo de golfinhos numa pequena enseada. Queriam que eu me fosse embora, mas fiquei e fotografei os pescadores a agarrarem cada golfinho pelas narinas, cortando a sua artéria carótida e deixando-os sangrar até à morte. Os gritos dos golfinhos vibraram pela doca de cimento e subiram pelos meus pés. Foi um dos piores momentos no mar na minha carreira. —David Doubilet

Quando comecei a fotografar debaixo de água, tudo era um mistério — o mar era uma fronteira desconhecida. Esqueçam o medo dos tubarões... As pessoas tinham medo de ficar com um pé preso em ameijoas gigantes e de se afogarem. Comecei a minha carreira a fotografar recifes de coral e as suas complexas camadas de vida. Interessei-me pelos ecossistemas temperados da Tasmânia, Nova Zelândia, Japão, Califórnia e Columbia Britânica. Uma reportagem nos corais do Pacífico poderia conduzir à descoberta de um avião ou destroços e uma reportagem sobre a II Guerra Mundial. Decidi aceitar reportagens sobre assuntos menos populares mas que precisassem de ser feitas, como a extinção das enguias de água docegaroupas-gigantes e o Mar dos Sargaços.

 

Agora, interesso-me por documentar um mar em mudança e estou a nadar desde o equador até aos polos para concretizá-lo Os icebergues deslumbram-me porque são uma metáfora perfeita para o mar: uma pequena fração visível a olho nu. O jardim dos icebergues na Gronelândia, na Red Island no Fiorde Scoresbysund é um local onde magníficas esculturas de icebergues contam a verdade pura e dura sobre o retrocesso dos glaciares. Estou interessado em dar um rosto às alterações climáticas para que ninguém o possa ignorar. Descobrimos esse rosto numa reportagem para a National Geographic no Golfo de St. Lawrence. É o rosto de uma cria de foca-da-Gronelândia, com pelo branco, nascida no gelo marinho. As temperaturas elevadas criaram um gelo instável que conduz a quase 100% de mortalidade das crias no golfo.

Está a fazer muito mais do que simplesmente obter sempre a melhor foto possível em qualquer situação. As suas imagens são esculpidas para contar histórias importantes. De que forma é que o contar de história elevou a sua fotografia? 

Uma cria de foca-da-Gronelândia aguarda pacientemente pelo regresso da mãe no Golfo de St. Lawrence. As crias nascem no gelo em finais de fevereiro e são amamentadas durante 12 a 15 dias, até serem abandonadas pelas progenitoras para acasalarem e migrarem. A cria, que engordou devido ao leite enriquecido, irá aguardar pela mãe até ter fome ou até o gelo enfraquecido obrigá-la a entrar no mar para aprender a nadar e comer. A mortalidade natural é elevada em condições normais e testemunhámos a perda de 90% das crias quando as tempestades destruíram o gelo enfraquecido em temperaturas mais quentes que as normais. —David Doubilet

Abordo uma história na esperança de desenvolver uma forma diferente de analisar um assunto. Por exemplo, os nudibrânquios são pequenas lesmas do mar, delicadas e tóxicas que desenvolveram padrões berrantes e cores vivas que dizem: "come-me e irás morrer". Misturam-se no fundo no mar mas quis partilhar estas criaturas com o mundo para que as pudéssemos conhecer, frente a frente e "vê-las" verdadeiramente. Construí um estúdio em miniatura em acrílico montado sobre um tripé, para que nadássemos até aos nudibrânquios a 3, 15, 30 metros de profundidade — onde quer que estivessem. Um especialista na matéria transportou cuidadosamente um espécime para o estúdio onde eu o fotografei como um modelo de passerelle, devolvendo-o depois ao seu exato local de origem. Ironicamente, as imagens tornaram-se virais e alguém criou um site denominado "pimp my nudibranch" (algo como: personaliza o meu nudibrânquio).

[Ver mais nudibrânquios personalizados.]

O que o leva a passar a vida inteira a nadar pelo mundo inteiro, do equador aos polos, para captar imagens?

Eu continuo a nadar e tirar fotografias porque as imagens têm o poder de educar, celebrar e honrar. As fotografias são uma linguagem universal que consegue chegar aos corações, mudar mentes e também comportamentos. Os oceanos estão em risco e também nós.

Como podemos ajudar?

Todos os dias são Dia Mundial do Oceano. Pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença. Coma marisco e peixe sustentável. Recicle e minimize o plástico no mundo. Torne-se um cidadão cientista. E conheça o oceano - marque um encontro com o mar. 

Siga David Doubilet no Instagram e no Twitter.

Continuar a Ler