O Homem Por Trás da Arca – Entrevista a Joel Sartore

Joel Sartore iniciou uma missão única há 13 anos atrás: fotografar as 12 mil espécies animais que vivem em cativeiro. Conheça melhor o fotógrafo responsável pelo projeto Photo Ark, apelidado ‘Nova Arca de Noé’, na entrevista que lhe fizemos.

Por National Geographic
O fotógrafo Joel Sartore, responsável pelo projeto Photo Ark - A Nova Arca de Noé.

Qual a Maior Diferença Entre Fotografar a Espécie Humana e a Espécie Animal?
Acho que a maior diferença é que os animais não têm voz própria. Isto foi o que me inspirou a começar a fotografar animais, e é o que continua a dar-me alento neste projeto. O Projeto Photo Ark da National Geographic dá aos animais a hipótese de serem vistos e terem as suas histórias retratadas, enquanto ainda há tempo para os salvar.

Os Animais Mudam o seu Comportamento em Frente à Câmara?
Todos os animais fotografados para o Photo Ark são colocados em fundos pretos e brancos, utilizando tinta, panos, plástico ou papel. Eles reparam? Claro, mas a maioria nasce e cresce com cuidados dos tratadores, por isso não se importam muito e recebem frequentemente recompensas por participarem. O objetivo é fazer as sessões fotográficas o mais rapidamente possível. Muitas vezes, os animais maiores estão habituados a fundos pretos e brancos durante um período de tempo, antes da sessão fotográfica. Alguns animais adormecem ou comem durante as sessões, enquanto outros são mais curiosos com o que acontece. Em qualquer dos casos, a sessão fotográfica só dura alguns minutos.

Que Estratégias Utiliza para Fazer os Animais Olharem Diretamente para a Câmara?
Primeiro, trabalhamos com semanas ou meses de antecedência com todos os zoos que queremos visitar, aprendendo que espécies têm, e que ainda temos de incluir na Arca. Dessas espécies, tentamos perceber com os zoos quais os animais que podem participar nas sessões.
Quando listamos os animais que queremos fotografar, temos dois cenários para a sessão: uma tenda de tecido fotográfico do tamanho de um tampo de uma mesa, onde são colocados os animais mais pequenos, como sapos, aves pequenas e roedores. Para animais maiores, arranjamos um espaço fora da exposição com um fundo preto ou branco e pedimos à equipa do zoo que transporte o animal para lá, frequentemente com a ajuda de comida como motivação para entrarem e saírem do nosso estúdio temporário.
À medida que se movimentam e investigam o seu novo espaço, captamos frequentemente a atenção dos animais e eles olham diretamente para a câmara. Para alguns, é a primeira vez que veem o seu reflexo.

Fotografia de uma das viagens de Joel Sartore, com pinguins.

Que Espécies o Surpreendem Mais nas Sessões Fotográficas? Quais as que Levam Mais Tempo a Fotografar?
Os chimpanzés são simultâneamente surpreendentes e demorados, porque são inteligentes, agressivos e não colaboram se não tiverem vontade. Sabem exatamente para onde devem ir para não aparecerem na fotografia. Por outro lado, entre as minhas espécies preferidas para fotografar, estão as tartarugas, porque não se mexem muito e são muito fáceis de focar.
Um dos outros animais que teve um grande impacto em mim foi a Nabire, um dos últimos Rinocerontes Brancos do Norte. Ela era muito querida e morreu pouco tempo depois da nossa visita, devido a complicações da sua idade. Agora o mundo tem apenas duas, a mãe e a filha, num compartimento único, no Quénia.
A maior parte das sessões fotográficas do Photo Ark dura apenas alguns minutos, mas a montagem do cenário leva algum tempo. Nas Filipinas, por exemplo, queríamos fotografar um pequeno Búfalo Asiático raro chamado tamaraw. Uma Organização de Conservação local demorou algum tempo a construir um curral dentro da zona de pasto do animal, colocar fundo preto e branco, e depois treinar o único tamaraw em cativeiro para ir alimentar-se lá. Eu apareci quando todo o trabalho estava feito. A sessão demorou apenas alguns minutos enquanto o animal almoçou. Isto para dizer que aprecio muito o esforço dos cuidadores de animais que se dedicam tanto para ajudarem o Photo Ark.

Um Encontro com Uma Cobra Pitão Deve ser Ao Mesmo Tempo Formidável e Aterrador. Algum Animal o Feriu?
De vez em quando, mas até à data não tive ferimentos prolongados. Uma vez um mandril deu-me um ‘soco’ na cara, e já fui 'pisado' por uma águia. Depois houve o ‘Raja’, um calau coroado branco, que estava numa sala sozinho. Era um macho dominante, e era certamente o pássaro mais rebelde que já fotografei. Ele não estava assustado, era apenas duro e agressivo e, apesar de ter terminado a sessão o mais rápido que consegui, conseguiu agredir-me as mãos e a câmara como se não houvesse amanhã. Felizmente, isto não acontece muitas vezes, tendo em conta que a maioria das sessões fotográficas de Photo Ark acontecem sem nenhum percalço.  

O Que o Faz Decidir Ter Vários Animais em Uma Fotografia?
Depende muito de cada situação. Os animais de pasto, como os lechwe (um tipo de antílope), ou pássaros como pequenos tentilhões, sentem-se mais seguros e mais calmos em grupo, por isso frequentemente fotografamo-los em grupos para diminuir os seus níveis de stress.

Refere-se Frequentemente ao Poder da Emoção nas suas Fotografias. Os Animais Têm Uma Atitude Mais Genuína Quando Posam para a Câmara?
Não tenho a certeza se os animais têm mais ‘atitude’ quando estão à frente da minha câmara, mas o contacto visual é absolutamente essencial enquanto tento capturar a ‘personalidade’ de cada animal, para que as pessoas consigam conectar-se a eles. Espero que o público fique surpreendido, cativado e se interesse por aprender tudo o que possa sobre os animais. Só então pode tomar uma atitude e salvar espécies e habitats.

Todas as Espécies Têm a Capacidade de nos Olharem nos Olhos?
Nem todas. Os corais, as anémonas, os mexilhões de água doce, os peixes-cegos das cavernas e as esponjas do mar são alguns que literalmente não podem olhar para nós, porque não têm olhos. Contudo, para qualquer espécie que tenha olhos, tento encontrar essa conexão nas minhas fotografias. Esse é também um dos motivos pelos quais utilizo fundos que não causam ruído visual e eliminam distrações, permitindo que o público olhe profundamente para os olhos destes animais e veja a sua beleza natural e inteligência. Espero que esta conexão inspire as pessoas a agir e proteger estes animais antes que seja tarde demais.

 

Veja algumas das fotografias do Photo Ark:

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Devemos Ter Receio da Perda Drástica de Espécies?
Sim. O meu maior desafio em criar imagens para o Photo Ark é assistir à extinção das espécies. Um coelho, peixes, invertebrados e vários anfíbios, incluindo o sapo ecnomiohyla rabborum, já se extinguiram depois de os fotografar. Entristece-me muito, mas também me revolta e inspira a dedicar todo o meu esforço a este projeto, e utilizar a extinção como uma chamada de atenção: à medida que estas espécies desaparecem, nós também podemos desaparecer. Por exemplo, temos de salvar os insetos polinizadores para ter frutas e vegetais. E as florestas tropicais não nos fornecem apenas o ar que respiramos, mas também estabilizam os padrões de pluviosidade em todo o mundo, que são vitais para crescer as colheitas que nos alimentam. Dizer que a extinção é um grande problema para a nossa sobrevivência é um eufemismo enorme.

Quantas Espécies Perdemos em 2017?
Ninguém pode dizer ao certo, mas no caso dos invertebrados que vivem em zonas pequenas de florestas tropicais, perdêmo-las diariamente quando a madeira é cortada e queimada para plantações de óleo de palma e outros usos agrícolas. Um relatório recente feito pelo WWF (World Wildlife Federation) declara que o volume de vertebrados no planeta foi reduzido para metade, desde 1970. Isso não significa que estejam extintos, mas consideravelmente reduzidos em número, e muitos estão limitados a tão poucos que precisarão de muita ajuda para recuperar. É por isso que programas como as nossas Bolsas Nat Geo Photo Ark EDGE com a Sociedade Zoológica de Londres são tão importantes. Lançámos este programa no ano passado para financiar conservacionistas em início de carreira, que trabalham no campo para proteger algumas das espécies mais ameaçadas na Arca, e em alguns dos nossos ecossistemas mais ameaçados. Heróis de conservação como estes estão a ajudar a salvar espécies em risco antes que seja tarde demais.

 

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Curioso para conhecer esta exposição? O Photo Ark é a exposição da National Geographic mais visitada em todo o mundo e está na Marina de Vilamoura até 30 de setembro de 2019. É uma atividade para toda a família.

 

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