Viagem e Aventuras

Este Homem Viajou de Bicicleta da Índia à Suécia — por Amor

Inspirado por uma profecia, PK Mahanandia percorreu mais de seis mil quilómetros. Quinta-feira, 9 Novembro

Por Simon Worrall

 

Pradyumna Kumar "PK" Mahanandia nasceu "intocável" numa aldeia longínqua da Índia oriental, na região que serviu de inspiração para o Livro da Selva, de Rudyard Kipling. Como membro de uma das castas mais inferiores da Índia, nunca esperou escapar a uma situação de pobreza e discriminação. Mas um encontro casual com uma sueca rica — e a épica viagem que fez de bicicleta percorrendo continentes para estar com ela — mudou a sua vida, cumprindo-se assim uma profecia que recebeu à nascença.

A saga de Kumar é narrada por Per J. Andersson no livro The Amazing Story of the Man Who Cycled From India to Europe for Love, e há rumores de que se fará um filme de Hollywood a partir dele, tendo Dev Patel no principal papel. Em conversa telefónica com a National Geographic , Mahanandia, a partir da sua casa na Suécia, contou o que era percorrer a hippie trail (a rota hippie) nos anos 70, e refletiu sobre se esta viagem seria possível atualmente, entre os migrantes e a crise dos refugiados. Falou também sobre como o segredo para um casamento feliz se resume a deixar o ego à porta de casa.

Quando nasceu, o astrólogo da sua aldeia fez uma profecia sobre si. Conte-nos o que lhe disse o astrólogo.

No meu passaporte, está escrito que eu nasci a 5 de dezembro de 1951, mas descobri mais tarde que, na verdade, nasci dois anos antes da independência, em 1949. Na Índia, é normal os pais chamarem um astrólogo quando uma criança vem ao mundo. De acordo com a profecia, a minha mulher e eu não íamos ter um casamento arranjado, como acontece com muitas pessoas na Índia. O astrólogo também disse aos meus pais que a minha mulher seria de uma terra longínqua e que seria uma nativa do signo Touro. Disse também que seria dona de uma selva ou floresta, e que tocaria flauta. Eu acreditei piamente na profecia, e sei hoje que tudo o que acontece neste planeta está planeado.

Sei que Rudyard Kipling viveu perto da sua aldeia e que os mitos do seu povo inspirou o clássico deste autor, O Livro da Selva. Fale-nos da sua infância. Foi parecida à do Mogli?

Pronunciamos "Mongoli", que significa amanhecer, mas, em português, diz-se "Mogli". É um nome que não encontra em Mumbai ou Deli. Mas é um nome tribal comum. O meu avô contou-me que um homem chamado Valentine Ball visitou a minha aldeia na década de 80 do século XIX e escreveu um livro, A Vida da Selva na Índia, que inspirou Rudyard Kipling. A zona onde cresci foi a primeira selva sob administração do Raj britânico. Fica no centro do estado de Orissa, atualmente chamado Angul. A minha aldeia fica no rio Mahanadia. Foi onde nasci, entre o rio e as montanhas.

O Mogli também era um "intocável", não é verdade? Pode falar-nos sobre este sistema de castas e sobre como influenciou a sua vida?

O sistema de castas da Índia é uma forma de racismo organizado. Em casa, quando eu era criança, não sentia que fosse nada disso. Mas quando fui para a escola, tomei contacto com os hindus. E aí senti que era diferente deles. É uma espécie de arranha-céus sem elevador. Nasce-se num piso e morre-se nesse mesmo piso.

O bullying é um assunto bastante discutido na sociedade atual. Os intocáveis sofrem bullying na infância. Pode falar-nos sobre essas experiências — e sobre como lidou com o bullying quando se tornou professor na Suécia?

O bullying era aceite pelas sociedades sob a alçada dos Marajás.  Mas quando eu nasci, na Índia independente, era suposto a lei proteger-me. Mas tal não sucedia. À minha avó era permitido ficar dentro da sala de aulas. Já eu, tinha de ficar na parte de fora. Pensava "Meu Deus, isto era melhor sob o governo dos britânicos!" As pessoas voltaram, atualmente, a ter a chamada "atitude de castas", ao velho racismo. Eu não censuro os indianos. São pessoas calorosas. É o sistema que faz com que se comportem assim.

Quando me tornei professor na Suécia, só havia um rapaz alto a perseguir outros. Gritei muito alto na minha língua materna, "ajoelha-te!". O rapaz disse-me mais tarde que viu “fogo nos meus olhos”. Eu saltava à volta e ele assustou-se de tal maneira que se ajoelhou.  [risos] O miúdo é agora um adulto, mas ainda o encontro às vezes e rimo-nos com toda a situação.

Depois de deixar a sua aldeia, tornou-se artista de rua em Deli. Criou amizade com muitas pessoas famosas, como a astronauta russa Valentina Tereshkova, e a primeira-ministra Indira Gandhi. Fale-nos um pouco desses tempos.

Quando nasci, disseram-me que trabalharia com cores e arte. Eu era rápido a desenhar. Acabei por ganhar uma bolsa de estudo em Orissa para estudar na Universidade de Arte, que foi criada pelos ingleses em 1942.

Não era permitido fazer pinturas na rua, então a polícia levou-me várias vezes para a esquadra. Era muito agradável, na verdade. Costumava lá dormir e davam-me comida. Eu era uma espécie de vagabundo, a viver entre a esperança e o desespero. Mas durante três anos aprendi as lições da vida. Comecei a pensar de modo diferente depois de conhecer estas pessoas.

A Valentina Tereshkova foi convidada por Indira Gandhi para visitar a Índia. Vi-a uma vez na estrada, quando a traziam. Consegui, por acaso, escapar por entre a multidão e ficar cara a cara com ela. Ela sorriu para mim, e eu fui convidado para o grupo parlamentar pela sociedade indo-soviética. Acabei por fazer dez retratos da Valentina e apareci na televisão. De um dia para o outro, tornei-me famoso em Deli.

É claro que a pessoa mais importante que conheceu enquanto artista de rua foi a sua futura mulher, Charlotte Von Schedvin. Volte atrás no tempo e descreva-nos o momento em que ela surgiu à sua frente.

Lembro-me perfeitamente: o dia era o 17 de dezembro; o ano, 1975. Aproximou-se de mim uma mulher linda de cabelo loiro e olhos azuis. Era um final de dia. Quando ela apareceu ao pé do meu tripé, senti-me absolutamente leve, sem peso nenhum. Não há palavras que consigam descrever o que senti.

Os seus olhos eram tão azuis e grandes e redondos... senti-me como se ela estivesse a olhar para dentro de mim e não para mim, como uma máquina de raio-x.  Pensei que tinha de fazer justiça à sua beleza. Mas não consegui fazê-lo na primeira vez. Estava nervoso, as minhas mãos tremiam. Perguntei-lhe, então, se poderia voltar amanhã. Ela voltou três vezes e eu fiz três retratos. Pedia-lhe sempre 10 rupias, mas ela dava-me 20. Eu disse-lhe "Não! Não me dês mais porque tu és muito bonita, e eu nunca aceito o dobro do pagamento de mulheres bonitas como tu. Só de homens carecas." [Risos]

Pensou sobre a profecia?

Sim! Depois do segundo encontro, percebi que ela era a tal! Ela era de uma terra distante. Perguntei-lhe se era do signo Touro. "Sim", respondeu. Perguntei então: "És a proprietária de uma selva?" E ela respondeu: "Sim, sou a proprietária de uma floresta." "Tocas flauta?" "Sim, adoro tocar flauta e piano."

Disse-lhe, tentando falar em inglês, qualquer coisa como "Isto está escrito nos céus". "O nosso encontro estava destinado". Estava tão nervoso que ela de início não me compreendeu. Ela estava a olhar para o céu e a segurar na minha mão, e perguntou: "O que é que está escrito nos céus?" Respondi-lhe: "O nosso encontro estava destinado e há mais coisas cujo destino está já traçado." "Como é que sabes isso?", disse ela. "Se não acreditas em mim", disse-lhe, "posso mostrar-te o meu horóscopo. Vou casar-me contigo."

Temos a sorte de ter a Charlotte connosco também. Charlotte, conte-nos a sua versão da história.

[Risos] Desde criança, tinha muita vontade de conhecer a Índia. Quando tinha uns 11 anos, tive uma professora que nos mostrava filmes a preto-e-branco sobre a Índia, como o Elephant Boy (O Rapaz do Elefante). Anos mais tarde, fui trabalhar para Londres, onde entrei em contacto com várias pessoas de nacionalidade indiana e com a cultura indiana. Fui a um concerto no Albert Hall com George Harrison e Ravi Shankar. Fui também assistir a uma apresentação de dança tribal de Orissa, o estado do PK, e fiquei hipnotizada.

Avançando rapidamente: conseguimos arranjar uma carrinha da Volkswagen; éramos quatro adultos e um bebé de um ano. Fizemos o caminho todo desde a Suécia até à Índia e estacionámos junto ao Connaught Place, onde o PK estava a fazer os seus retratos. Estava escuro e vi um pequeno rapaz de cabelos encaracolados a fazer retratos. Fui atraída, de imediato, para aquele local. Aproximei-me e disse: "Posso também fazer o meu retrato?" Foi uma sensação muito calorosa e de proximidade desde o início, desde o momento em que o vi ali, com os seus caracóis, o rosto sorridente e os dentes brancos.  [Risos]

Volta ao mesmo sítio três vezes e, depois, ao terceiro dia, ele diz: "Vou casar-me contigo." Deve ter achado que ele era louco!

[Risos] Eu acalmei-o um bocado. Não lhe disse que nos íamos casar. Disse-lhe que íamos para a sua terra natal. Segui o meu coração. Lá, conheci o seu pai, os seus irmãos e a sua irmã. Gostei deles e ele gostaram de mim. Foi como se tivesse regressado a casa. Se acreditar em reencarnação, eu senti, e ainda sinto, de uma forma muito intensa que já tinha vivido na Índia antes.

Tivemos uma cerimónia tribal. O seu irmão mais velho foi para o seu espaço de meditação e ficou lá sentado a meditar durante algum tempo. Saiu depois da sala com um grande sorriso e disse: "Sim, esta é a mulher com quem te vais casar. Segue os passos dela.

PK, a rota que seguiu desde a Índia até à Suécia é conhecida como a "rota hippie." Tinha 80 dólares (aproximadamente, 75 euros) e algumas centenas de rupias. Traga-nos agora de volta à terra e fale-nos sobre alguns dos obstáculos que teve de ultrapassar.

Estivemos juntos duas ou três semanas e, depois, ela partiu. Não nos encontrámos durante um ano e meio. Mantínhamos o contacto por carta, mas decidi que estava na altura de dar o primeiro passo. Então, vendi tudo o que tinha e comprei uma bicicleta.

Não fiz toda a viagem de bicicleta. Apanhei boleia de camiões. Tinha um saco-cama e dormi sob as estrelas. Às vezes, as pessoas convidavam-me para entrar em suas casas e davam-me comida em troca de retratos. Escondi esses 80 dólares no meu cinto e nunca os usei. Pelo caminho, fui recebendo cartas da Charlotte — em Kandahar, Cabul e Istambul. Foi isto que me deu coragem para continuar.

Tinha também muitos amigos hippies que me deram comida, conselhos e orientações. Não estava sozinho. Nunca conheci ninguém de quem não tivesse gostado. Era um tempo diferente, um mundo diferente de amor e paz e, claro, de liberdade. O maior obstáculo foram os meus pensamentos, as minhas dúvidas.

Atualmente, existe uma vaga de migração das nações mais desfavorecidas para a Europa. Considera que seria possível fazer agora essa viagem?

Sim. Quando há vontade, não existem obstáculos. Tudo é possível! Depende da forma como o encaramos. Hoje é, sem dúvida, mais difícil. Mas continua a ser possível. O medo e a dúvida são os nossos dois piores inimigos. É o que dificulta a vida.

É casado e feliz ao lado de Charlotte há mais de 40 anos. Partilhe connosco qual é o segredo de um casamento feliz.

Só tenho um segredo: não há nenhum segredo! [Risos] O casamento não é apenas uma união física; é também uma união espiritual. Se aceitar isto permite que o amor cresça naturalmente.

Quando entro em casa, o meu ego fica à porta. O ego está ligado à mente. Chamo à minha mente humana um “macaco louco”. Mas quando deixamos o ego à porta de casa, dentro de casa existe apenas abertura.

Por motivos de clareza e extensão, esta entrevista foi editada.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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