Viagem e Aventuras

Este Homem Viajou de Bicicleta da Índia à Suécia — por Amor

Inspirado por uma profecia, PK Mahanandia percorreu mais de seis mil quilómetros.Thursday, November 9, 2017

Por Simon Worrall
PK Mahanandia atravessou vários continentes para ir ao encontro da sua mulher, Charlotte Von Schedvin, na Suécia. Estão casados há mais de 40 anos.

 

Pradyumna Kumar "PK" Mahanandia nasceu "intocável" numa aldeia longínqua da Índia oriental, na região que serviu de inspiração para o Livro da Selva, de Rudyard Kipling. Como membro de uma das castas mais inferiores da Índia, nunca esperou escapar a uma situação de pobreza e discriminação. Mas um encontro casual com uma sueca rica — e a épica viagem que fez de bicicleta percorrendo continentes para estar com ela — mudou a sua vida, cumprindo-se assim uma profecia que recebeu à nascença.

A saga de Kumar é narrada por Per J. Andersson no livro The Amazing Story of the Man Who Cycled From India to Europe for Love, e há rumores de que se fará um filme de Hollywood a partir dele, tendo Dev Patel no principal papel. Em conversa telefónica com a National Geographic , Mahanandia, a partir da sua casa na Suécia, contou o que era percorrer a hippie trail (a rota hippie) nos anos 70, e refletiu sobre se esta viagem seria possível atualmente, entre os migrantes e a crise dos refugiados. Falou também sobre como o segredo para um casamento feliz se resume a deixar o ego à porta de casa.

Quando nasceu, o astrólogo da sua aldeia fez uma profecia sobre si. Conte-nos o que lhe disse o astrólogo.

No meu passaporte, está escrito que eu nasci a 5 de dezembro de 1951, mas descobri mais tarde que, na verdade, nasci dois anos antes da independência, em 1949. Na Índia, é normal os pais chamarem um astrólogo quando uma criança vem ao mundo. De acordo com a profecia, a minha mulher e eu não íamos ter um casamento arranjado, como acontece com muitas pessoas na Índia. O astrólogo também disse aos meus pais que a minha mulher seria de uma terra longínqua e que seria uma nativa do signo Touro. Disse também que seria dona de uma selva ou floresta, e que tocaria flauta. Eu acreditei piamente na profecia, e sei hoje que tudo o que acontece neste planeta está planeado.

Sei que Rudyard Kipling viveu perto da sua aldeia e que os mitos do seu povo inspirou o clássico deste autor, O Livro da Selva. Fale-nos da sua infância. Foi parecida à do Mogli?

Pronunciamos "Mongoli", que significa amanhecer, mas, em português, diz-se "Mogli". É um nome que não encontra em Mumbai ou Deli. Mas é um nome tribal comum. O meu avô contou-me que um homem chamado Valentine Ball visitou a minha aldeia na década de 80 do século XIX e escreveu um livro, A Vida da Selva na Índia, que inspirou Rudyard Kipling. A zona onde cresci foi a primeira selva sob administração do Raj britânico. Fica no centro do estado de Orissa, atualmente chamado Angul. A minha aldeia fica no rio Mahanadia. Foi onde nasci, entre o rio e as montanhas.

O Mogli também era um "intocável", não é verdade? Pode falar-nos sobre este sistema de castas e sobre como influenciou a sua vida?

O sistema de castas da Índia é uma forma de racismo organizado. Em casa, quando eu era criança, não sentia que fosse nada disso. Mas quando fui para a escola, tomei contacto com os hindus. E aí senti que era diferente deles. É uma espécie de arranha-céus sem elevador. Nasce-se num piso e morre-se nesse mesmo piso.

O bullying é um assunto bastante discutido na sociedade atual. Os intocáveis sofrem bullying na infância. Pode falar-nos sobre essas experiências — e sobre como lidou com o bullying quando se tornou professor na Suécia?

O bullying era aceite pelas sociedades sob a alçada dos Marajás.  Mas quando eu nasci, na Índia independente, era suposto a lei proteger-me. Mas tal não sucedia. À minha avó era permitido ficar dentro da sala de aulas. Já eu, tinha de ficar na parte de fora. Pensava "Meu Deus, isto era melhor sob o governo dos britânicos!" As pessoas voltaram, atualmente, a ter a chamada "atitude de castas", ao velho racismo. Eu não censuro os indianos. São pessoas calorosas. É o sistema que faz com que se comportem assim.

Quando me tornei professor na Suécia, só havia um rapaz alto a perseguir outros. Gritei muito alto na minha língua materna, "ajoelha-te!". O rapaz disse-me mais tarde que viu “fogo nos meus olhos”. Eu saltava à volta e ele assustou-se de tal maneira que se ajoelhou.  [risos] O miúdo é agora um adulto, mas ainda o encontro às vezes e rimo-nos com toda a situação.

Depois de deixar a sua aldeia, tornou-se artista de rua em Deli. Criou amizade com muitas pessoas famosas, como a astronauta russa Valentina Tereshkova, e a primeira-ministra Indira Gandhi. Fale-nos um pouco desses tempos.

Quando nasci, disseram-me que trabalharia com cores e arte. Eu era rápido a desenhar. Acabei por ganhar uma bolsa de estudo em Orissa para estudar na Universidade de Arte, que foi criada pelos ingleses em 1942.

Não era permitido fazer pinturas na rua, então a polícia levou-me várias vezes para a esquadra. Era muito agradável, na verdade. Costumava lá dormir e davam-me comida. Eu era uma espécie de vagabundo, a viver entre a esperança e o desespero. Mas durante três anos aprendi as lições da vida. Comecei a pensar de modo diferente depois de conhecer estas pessoas.

A Valentina Tereshkova foi convidada por Indira Gandhi para visitar a Índia. Vi-a uma vez na estrada, quando a traziam. Consegui, por acaso, escapar por entre a multidão e ficar cara a cara com ela. Ela sorriu para mim, e eu fui convidado para o grupo parlamentar pela sociedade indo-soviética. Acabei por fazer dez retratos da Valentina e apareci na televisão. De um dia para o outro, tornei-me famoso em Deli.

É claro que a pessoa mais importante que conheceu enquanto artista de rua foi a sua futura mulher, Charlotte Von Schedvin. Volte atrás no tempo e descreva-nos o momento em que ela surgiu à sua frente.

Lembro-me perfeitamente: o dia era o 17 de dezembro; o ano, 1975. Aproximou-se de mim uma mulher linda de cabelo loiro e olhos azuis. Era um final de dia. Quando ela apareceu ao pé do meu tripé, senti-me absolutamente leve, sem peso nenhum. Não há palavras que consigam descrever o que senti.

Os seus olhos eram tão azuis e grandes e redondos... senti-me como se ela estivesse a olhar para dentro de mim e não para mim, como uma máquina de raio-x.  Pensei que tinha de fazer justiça à sua beleza. Mas não consegui fazê-lo na primeira vez. Estava nervoso, as minhas mãos tremiam. Perguntei-lhe, então, se poderia voltar amanhã. Ela voltou três vezes e eu fiz três retratos. Pedia-lhe sempre 10 rupias, mas ela dava-me 20. Eu disse-lhe "Não! Não me dês mais porque tu és muito bonita, e eu nunca aceito o dobro do pagamento de mulheres bonitas como tu. Só de homens carecas." [Risos]

Mahatma Gandhi com os "intocáveis", membros das castas sociais inferiores da Índia, em 1926. Apesar dos esforços de Gandhi, Mahanandia e outros "intocáveis" continuam a sentir-se discriminados muitos anos depois.

Pensou sobre a profecia?

Sim! Depois do segundo encontro, percebi que ela era a tal! Ela era de uma terra distante. Perguntei-lhe se era do signo Touro. "Sim", respondeu. Perguntei então: "És a proprietária de uma selva?" E ela respondeu: "Sim, sou a proprietária de uma floresta." "Tocas flauta?" "Sim, adoro tocar flauta e piano."

Disse-lhe, tentando falar em inglês, qualquer coisa como "Isto está escrito nos céus". "O nosso encontro estava destinado". Estava tão nervoso que ela de início não me compreendeu. Ela estava a olhar para o céu e a segurar na minha mão, e perguntou: "O que é que está escrito nos céus?" Respondi-lhe: "O nosso encontro estava destinado e há mais coisas cujo destino está já traçado." "Como é que sabes isso?", disse ela. "Se não acreditas em mim", disse-lhe, "posso mostrar-te o meu horóscopo. Vou casar-me contigo."

Temos a sorte de ter a Charlotte connosco também. Charlotte, conte-nos a sua versão da história.

[Risos] Desde criança, tinha muita vontade de conhecer a Índia. Quando tinha uns 11 anos, tive uma professora que nos mostrava filmes a preto-e-branco sobre a Índia, como o Elephant Boy (O Rapaz do Elefante). Anos mais tarde, fui trabalhar para Londres, onde entrei em contacto com várias pessoas de nacionalidade indiana e com a cultura indiana. Fui a um concerto no Albert Hall com George Harrison e Ravi Shankar. Fui também assistir a uma apresentação de dança tribal de Orissa, o estado do PK, e fiquei hipnotizada.

Avançando rapidamente: conseguimos arranjar uma carrinha da Volkswagen; éramos quatro adultos e um bebé de um ano. Fizemos o caminho todo desde a Suécia até à Índia e estacionámos junto ao Connaught Place, onde o PK estava a fazer os seus retratos. Estava escuro e vi um pequeno rapaz de cabelos encaracolados a fazer retratos. Fui atraída, de imediato, para aquele local. Aproximei-me e disse: "Posso também fazer o meu retrato?" Foi uma sensação muito calorosa e de proximidade desde o início, desde o momento em que o vi ali, com os seus caracóis, o rosto sorridente e os dentes brancos.  [Risos]

Volta ao mesmo sítio três vezes e, depois, ao terceiro dia, ele diz: "Vou casar-me contigo." Deve ter achado que ele era louco!

[Risos] Eu acalmei-o um bocado. Não lhe disse que nos íamos casar. Disse-lhe que íamos para a sua terra natal. Segui o meu coração. Lá, conheci o seu pai, os seus irmãos e a sua irmã. Gostei deles e ele gostaram de mim. Foi como se tivesse regressado a casa. Se acreditar em reencarnação, eu senti, e ainda sinto, de uma forma muito intensa que já tinha vivido na Índia antes.

Tivemos uma cerimónia tribal. O seu irmão mais velho foi para o seu espaço de meditação e ficou lá sentado a meditar durante algum tempo. Saiu depois da sala com um grande sorriso e disse: "Sim, esta é a mulher com quem te vais casar. Segue os passos dela.

Mahanandia cresceu nas margens do rio no estado de Orissa, na Índia. Aqui, existe um templo que irrompe por entre a vegetação em Bhubaneswar, a capital.

PK, a rota que seguiu desde a Índia até à Suécia é conhecida como a "rota hippie." Tinha 80 dólares (aproximadamente, 75 euros) e algumas centenas de rupias. Traga-nos agora de volta à terra e fale-nos sobre alguns dos obstáculos que teve de ultrapassar.

Estivemos juntos duas ou três semanas e, depois, ela partiu. Não nos encontrámos durante um ano e meio. Mantínhamos o contacto por carta, mas decidi que estava na altura de dar o primeiro passo. Então, vendi tudo o que tinha e comprei uma bicicleta.

Não fiz toda a viagem de bicicleta. Apanhei boleia de camiões. Tinha um saco-cama e dormi sob as estrelas. Às vezes, as pessoas convidavam-me para entrar em suas casas e davam-me comida em troca de retratos. Escondi esses 80 dólares no meu cinto e nunca os usei. Pelo caminho, fui recebendo cartas da Charlotte — em Kandahar, Cabul e Istambul. Foi isto que me deu coragem para continuar.

Tinha também muitos amigos hippies que me deram comida, conselhos e orientações. Não estava sozinho. Nunca conheci ninguém de quem não tivesse gostado. Era um tempo diferente, um mundo diferente de amor e paz e, claro, de liberdade. O maior obstáculo foram os meus pensamentos, as minhas dúvidas.

Atualmente, existe uma vaga de migração das nações mais desfavorecidas para a Europa. Considera que seria possível fazer agora essa viagem?

Sim. Quando há vontade, não existem obstáculos. Tudo é possível! Depende da forma como o encaramos. Hoje é, sem dúvida, mais difícil. Mas continua a ser possível. O medo e a dúvida são os nossos dois piores inimigos. É o que dificulta a vida.

É casado e feliz ao lado de Charlotte há mais de 40 anos. Partilhe connosco qual é o segredo de um casamento feliz.

Só tenho um segredo: não há nenhum segredo! [Risos] O casamento não é apenas uma união física; é também uma união espiritual. Se aceitar isto permite que o amor cresça naturalmente.

Quando entro em casa, o meu ego fica à porta. O ego está ligado à mente. Chamo à minha mente humana um “macaco louco”. Mas quando deixamos o ego à porta de casa, dentro de casa existe apenas abertura.

Por motivos de clareza e extensão, esta entrevista foi editada.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler