Moçambique: Fotografias de uma Ilha Paradisíaca, Congelada no Tempo

A Ilha de Moçambique foi poupada à influência devastadora do desenvolvimento moderno durante o século XX.quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Por Gulnaz Khan
Fotografias Por Luca Locatelli

Nas águas banhadas pelo sol do Oceano Índico, há uma pequena ilha de coral no interior da Baía de Mossuril, onde as ondas se desvanecem e se fundem e confundem com o céu.

A Ilha de Moçambique foi usada como porto e entreposto comercial por mercadores árabes entre os séculos X e XV, antes de o navegador Vasco da Gama ali ter aportado em 1498 fazendo da ilha território de Portugal.

Durante quase 400 anos, foi a capital colonial da África Oriental Portuguesa, situada nas rotas de comércio marítimo de ouro, especiarias e escravos. Em 1917, pouco depois do fim do comércio de escravos, a capital do país passou a ser Lourenço Marques e a população da ilha reduziu-se rapidamente. Estes êxodo maciço protegeu a ilha da influência devastadora do desenvolvimento moderno ocorrido durante o século XX — tendo efetivamente congelado a ilha no tempo.

Toda a ilha foi considerada  Património Mundial da Humanidade pela UNESCO em 1991 devido à sua arquitetura única — uma fusão de influências árabes, indianas e portuguesas — que evoluiu ao longo da sua longa história enquanto entreposto comercial.

A ilha divide-se em duas partes: a Cidade de Pedra, que é a antiga sede dos órgãos do Governo e uma fusão de influências suaílis, árabes e europeias, e a Cidade de Macuti, com os telhados de folhas de palmeira, um símbolo da arquitetura tradicional africana. Muitas das estruturas na Cidade de Pedra, incluindo a mais antiga fortaleza da África subsariana que ainda se mantém em pé, deixaram de ser usadas e precisam de uma restauração abrangente. Ao invés, a cidade de Macuti deteriorou-se devido ao excesso de população.

A UNESCO e outras organizações externas têm vindo a dar prioridade à gestão da paisagem física da ilha, mas o entendimento local sobre o património pode ser mais variável.

"Existe uma cultura marítima imaterial rica na Ilha de Moçambique que é importante para a comunidade, mas não se reflete nos critérios usados para atribuir o estatuto de local Património Mundial", diz  Jonathan Sharfman, investigador associado de pós-doutoramento no polo de Abu Dhabi da Universidade de Nova Iorque, que estudou a ilha. "Ao mesmo tempo, a fortaleza portuguesa, que merece um enorme destaque na narrativa de atribuição do estatuto de local Património Mundial é menos significativa em matéria de património para as pessoas que vivem na ilha."

Dado que a preservação depende da cooperação das comunidades locais, existe uma maior necessidade de incluir as suas vozes na criação de património, afirma Robert Parthesius, diretor do Centro de Estudos do Património Dhakira do polo de Abu Dhabi da Universidade de Nova Iorque.

De acordo com um relatório de Parthesius, "para muitos, a procura de sustento é mais importante do que o cariz patrimonial dos edifícios que constituem uma propriedade". "Para os países em vias de desenvolvimento, é especialmente difícil conseguir um equilíbrio entre os princípios de conservação da UNESCO e as necessidades de desenvolvimento social e económico da região."

O estatuto de Património Mundial trouxe alguns benefícios económicos à ilha, entre os quais se contam a expansão de infraestruturas e o aumento do turismo. Embora as oportunidades de emprego tenham aumentado, muitas empresas do setor hoteleiro não são de propriedade local e continua a haver uma forte dependência da pesca e do comércio local.

"A Ilha de Moçambique encontra-se noma encruzilhada patrimonial", afirma Sharfman, para quem, mais do que as estruturas físicas, é a perda da história local em favor da promoção de narrativas globais que se constitui como a maior ameaça ao património da ilha.

"Existe um forte desejo de que sejam criados museus locais, visitas guiadas ao património da região e iniciativas de promoção de temas locais, e este desejo tem de ser levado em consideração para que a comunidade da ilha mantenha o empenho na gestão e na preservação do património", diz. "Se as perspetivas locais continuarem a ser postas de parte e o interesse local no património diminuir, poderá haver consequências para a sobrevivência tanto do património material como do património imaterial da ilha."