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Como Viajar Como um Aventureiro do Início do Século XX

Um novo livro mostra o que podemos aprender acerca das viagens modernas com um explorador alimentar da viragem do século.

Publicado 15/03/2018, 15:03
JARDIM BOTÂNICO TROPICAL FAIRCHILD
Em 1902, Fairchild contraiu febre tifoide no Ceilão (atual Sri Lanka). O aventureiro sobreviveu e, antes de deixar a ilha, subiu ao Monte Lavinia, próximo de Colombo, para observar a praia.
Fotografia de JARDIM BOTÂNICO TROPICAL FAIRCHILD

No início do século XX, os seres humanos raramente saíam da sua terra natal, muito menos viajavam pelo seu país. Mas David Fairchild era diferente.

Fairchild era um espião alimentar ao serviço do governo norte-americano na viragem do século XX. Era um botânico, um aventureiro com uma paixão pelas plantas, a quem o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos tinha atribuído a missão de viajar à volta do globo, em busca de plantas exóticas que pudessem servir de alimento no seu país. Das suas viagens, Fairchild trouxe abacates, mangas, nectarinas, tâmaras, couve-penca e centenas de outros produtos vegetais.

Em 1889, David Fairchild era um cientista júnior do USDA, antes de ter iniciado as suas viagens em busca de plantas exóticas.
Fotografia de JARDIM BOTÂNICO TROPICAL FAIRCHILD

Fairchild visitou a ilha de Java para conhecer as palmeiras frondosas e as estranhas frutas dos trópicos. Navegou até às Fiji, as chamadas Ilhas dos Canibais, onde bebeu kava com homens que já tinham consumido carne humana. No Chile, colheu uma fruta peculiar, conhecida como pera-jacaré, ou seja, ou abacate, cujo interior era verde e cremoso.

O seu percurso foi pleno de aventuras inimagináveis — e, com frequência, também perigosas. Regateou plantas com a realeza egípcia e convenceu os produtores de lúpulo bávaros a levarem para a América o melhor lúpulo do mundo. Testemunhou a morte, venceu a doença e foi preso por espionagem. No fim, tinha percorrido mais de 50 países — viajando sempre de barco.

O que podemos aprender com as suas viagens? Mais do que aquilo que julgamos. Enquanto lia os diários com 120 anos de Fairchild, para escrever The Food Explorer, the True Adventures of the Globe-Trotting Botanist Who Transformed What America Eats, recolhi alguns dos seus melhores conselhos, que poderá usar já na sua próxima viagem.

Fazer Muitas Perguntas

Quando Fairchild chegava a um país, não esperava tropeçar instantaneamente em algo mágico. Ele fazia todas as perguntas de que se lembrava, a toda a gente. Qual é a melhor fruta deste país? Como é que a cultivam? Com quem devo falar a ser? Se está à procura daquele restaurante encantador que mais ninguém conhece, ou daquela vista fora das rotas turísticas, não se guie apenas pelo seu roteiro turístico. Pergunte a um habitante local. Com frequência, Fairchild tentava falar a língua local, onde quer que estivesse, e agradecia sempre os conselhos dados.

Retribuir a Amabilidade

Por vezes, Fairchild tinha de atuar como espião. Porém, com maior frequência, era um diplomata. Fairchild procurava sempre forma de retribuir uma estadia agradável ou uma refeição deliciosa. Escrevia pequenas notas de agradecimento e oferecia prendas luxuosas, como a ocasião em que comprou uma placa para pendurar na entrada do melhor produtor de lúpulo da Baviera. Pouco tempo depois de ter visitado o Japão e ter conseguido a oferta de cerejeiras a Washington D.C., Fairchild providenciou o enviou de cornáceas em flor — nativas da América — para agradecer aos seus amigos japoneses.

Fairchild tentou obter o melhor lúpulo do mundo na Baviera, em 1901. Lisonjeou o seu estalajadeiro, um homem a quem ele chamava Herr Wirth, ao tirar o seu retrato.
Fotografia de JARDIM BOTÂNICO TROPICAL FAIRCHILD

Apontar Tudo

Fairchild registava qualquer detalhe. Com quem falava, que novos alimentos tinha experimentado. Trazia sempre um bloco de notas no bolso, que ia preenchendo com as suas aventuras e desventuras, para se lembrar das lições que tinha aprendido e das recomendações que lhe davam. Poderá prolongar as suas viagens se se recordar do que estava a pensar, e do que estava a sentir, durante aquele passeio especial. O seu eu futuro — e, talvez, os seus descendentes — irá deliciar-se ao redescobrir as relíquias de uma grande viagem.

Enviar Cartas

Nem e-mails nem mensagens de telemóvel, mas sim cartas. A espaços, Fairchild passava tardes inteiras a escrever a amigos e familiares no seu país acerca das suas viagens. Segundo ele, ajudava-o a pensar melhor e a refletir sobre uma nova experiência, ao transmiti-la a alguém que não estava presente. Certa vez, num navio que navegava o oceano Índico, Fairchild escreveu à sua mãe (no Kansas) que estava a ser uma viagem esplêndida, e que ainda não tinha presenciado qualquer espécie de violência. Momentos após ter acabado de escrever, dois homens irromperam pela sua cabina aos gritos, a lutar e a sangrar. Após os homens terem sido levados, Fairchild voltou a abrir a carta e, no fim, acrescentou um postscriptum.

Avançar

Acha que o seu voo estar atrasado é mau? Numa das primeiras viagens de Fairchild, ele apanhou um comboio em Washington D.C., com destino a São Francisco, para apanhar um barco. Perdeu-o. Depois disso, apanhou um outro comboio para Nova Orleães e, também aí, voltou a perder o barco. Acabou por regressar a Nova Iorque, não muito longe do sítio onde tinha começado, a apanhou um barco a vapor para atravessar o oceano. Numa outra ocasião, Fairchild passou uma semana inteira a comer cebolas, por estar de quarentena num navio no Golfo Pérsico, que se suspeitava ter um caso de febre tifoide a bordo. Viajar tinha a sua quota de indignidade — e ainda tem. Arranje uma forma de ver para além dos inconvenientes e, como Fairchild costumava dizer, “avance.”

Conheça as aventuras de David Fairchild no novo livro, The Food Explorer, The True Adventures of the Globe-Trotting Botanist Who Transformed What America Eats, já disponível.

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