Viagem e Aventuras

5 das Culturas de Droga Mais Alucinogénicas do Mundo

Consagradas pelas tradições, as práticas de consumo de drogas nestes lugares é uma arte que se aprende.Friday, June 1, 2018

Por Hannah Lott-Schwartz

No Ocidente, há um forte estigma que ameaça a ideia de cultura de drogas, alimentado por ideias relacionadas com substâncias que causam alucinações, compostos químicos feitos pelo homem e comunidades destruídas. Mas em várias partes do mundo, o uso de enteógenos — substâncias psicoativas aplicadas em contextos religiosos ou xamanísticos — por parte de curadores espirituais é uma arte que se aprende, exclusiva dos povos e das regiões que as estudaram durante séculos.

O principal objetivo não é uma pedrada divinal, mas o encontro como uma Divindade. As pessoas ingerem uma planta com propriedades psicoativas para terem uma conversa com essa entidade ou para ouvi-la. Estar em unidade com a natureza é uma ideia cativante fomentada pela necessidade de manter uma relação com uma voz ancestral da qual se pode absorver conhecimento.

O crescimento da corrupção e da violência é a evidência dos elevados custos humanos. Mas a atração pelas substâncias é tão poderosa que fez com que forasteiros interessados se tornassem participantes ativos e criou uma comprovada onda de turismo relacionado com droga. Outra consequência foi a comercialização da religião, o que ameaçou não só as próprias práticas, mas também, em alguns casos, as plantas nas quais se baseiam.

É difícil estabelecer o limite quando se viaja — como experienciar um lugar sem, na verdade, nos conectarmos e absorver tudo. Temos a tendência para ficar em apartamentos de bairro em vez de hotéis de grandes grupos, para procurar comida de rua e não restaurantes caros, para fazermos o que os locais fazem — independentemente do que seja. Algures no meio disto tudo, os limites do turismo responsável tornam-se confusas. Alguns poderão dizer que é a diferença entre provar pisco em Cusco ou beber chá de ayahuasca em Iquitos: ambas as ações nos permitem provar tradições locais, mas só uma tem o potencial de perturbar um delicado ecossistema cultural.

Aqui apresentamos cinco destes ecossistemas no mundo, cada um inspirado nas próprias práticas enteógenas tradicionais que suscitaram olhares curiosos através do véu da cultura dominante. E, não podendo promover uma viagem até ao México para entrar numa nova realidade e conhecer o Mescalito numa nuvem de peiotes, podemos dizer que as cintilantes miragens do deserto também chamaram a nossa atenção.

GABÃO, ÁFRICA CENTRAL

No Gabão, um país quase do tamanho do Colorado pousado sobre o equador na costa ocidental da África Central, há um arbusto do qual despontam floras brancas e cor-de-rosa e frutos cor de laranja insípidos. Não é particularmente bonito — e os  frutos não têm vantagens nutricionais —, mas a iboga é sagrada, reverenciada pela tribo Babongo (entre outras) que descobriu as suas propriedades poderosas e únicas há cerca de 1000 anos, altura em que uma religião chamada Bwiti foi constituída em torno da sua casca.

Iboga

Em tradução livre, Bwiti significa simplesmente “árvore medicinal sobrenatural” ou “o ser que chama”. Os correligionários do Bwiti comem a casca psicadélica tanto para o crescimento espiritual individual como para o reforço da comunidade — mas primeiro há um rito de passagem, uma iniciação à sabedoria espiritual da planta e uma ligação a um conhecimento ancestral.

Sendo reverenciada e intensa — provoca alucinações de olhos fechados e faz-nos sonhar acordados, efeitos que duram até 48 horas — a iboga exige um complexo ritual de cortejo. Depois de a casca da raiz ser extraída e cortada em palitos ou triturada até se tornar um pó fino, desenrola-se uma cerimónia sob a responsabilidade de um N’ganga, ou xamã, com palmas, cânticos, e música complexa com uma forte componente de percussão. É um evento comunitário, com anciões, curadores e até crianças sentadas em volta para testemunharem a mensagem que possa surgir quando a iboga se revela, com os iniciados a serem guiados por ela e a contarem as visões em voz alta e em tempo real para que o N’ganga possa interpretar e dirigir os procedimentos em tempo real.

REGIÕES DOS ANDES E DA AMAZÓNIA

Ayahusca

Com a pele coberta por uma película escorregadia de suor, sentado numa cabana elevada no meio da floresta tropical da Amazónia, um xamã canta ícaros, ou canções cerimoniais, como Pachamama ou Terra-Mãe, agarra nos intestinos de quem o visita e dá-lhes um bom apertão. E assim começa o período de intensos vómitos (e episódios de diarreia) observados na maioria das cerimónias de ayahuasca, nas quais se liberta bílis física e emocional para criar uma bruma mistificada de cura transcendental, caraterizada por fortes alucinações visuais e auditivas que desafiam os limites do amor e do medo nas quatro a seis horas que se seguem.

A decocção da planta é turva para os olhos e não muito agradável para a língua, feita de videiras de ayahuasca esmagadas e folhas de chacrona (muitas vezes com ervas de figueira-do-demo e tabaco puro da selva, chamado mapacho, para estimular a purga), cozidas durante 12 horas e abençoadas com fumo de tabaco sagrado que o xamã sopra sobre o caldeirão. Amálgama de duas palavras quéchua (com a ortografia espanhola) ayahuasca significa “vinho das almas ou corda da morte”, conforme a interpretação. Como o nome indica, trata-se de uma entidade poderosa chamada Pachamama, uma figura central para as populações indígenas e mestiças que a convidaram — em todas as suas formas — a entrar nos seus corpos durante séculos.

NORDESTE DO MÉXICO E SUL DO TEXAS

Nos tórridos desertos do nordeste do México e do sul do Texas, as pessoas escavam a terra para encontrar um pequeno cato sem espinhos que se diz ter incalculáveis poderes de visão que partilha com quem for suficientemente corajoso e forte para o receber. Ninguém leva o peiote; o peiote é que nos leva a nós.

Peiote

O Mescalito, personificação por que, mais tarde, veio a ficar conhecido o cato alucinogénio, revelou-se aos astecas, índios mexicanos e americanos nativos durante mais de 5000 anos, constituindo-se como figura central das suas práticas culturais e religiosas. Embora as cerimónias possam variar, são frequentemente comunitárias, com um xamã a guiar um grupo por meio de canções especiais sobre o peiote enquanto o grupo ingere, em conjunto, os botões secos do cato. Ao longo de 10 a 12 horas, as alucinações (e episódios de violentos vómitos para os novatos) transportam o utilizador através do tempo e do espaço e de um conjunto de emoções, com interações desafiantes ou atemorizadoras que poderão permanecer nas sombras. A reverência que impõe raia o medo e a promessa de iluminação e o respeito pelo poder do peiote não são dramatizadas nem exageradas.

ILHAS DO PACÍFICO

Kava

Provavelmente um dos enteógenos mais suaves, o kava (também conhecido como kava-kava ou yaqona, “alimento dos deuses”) é a única substância que artigo menciona  que é legal nos EUA para utilização fora do contexto religioso. Conhecida pelas suas propriedades calmantes nas ilhas do Pacífico, incluindo no Havai, em Vanuatu e nas Fiji, a kava é indissociável da vida tradicional da Polinésia, sendo usada em tudo: do sagrado ao social. Funciona como mediador ou mensageiro espiritual entre as pessoas e o Vu, ou força do espírito — diz-se que sem a kava o Vu não aparece. As raízes longas e nodosas desta planta frondosa, frescas ou secas, podem ser trituradas, mastigadas ou pulverizadas de qualquer outra forma para fazer uma bebida opaca e leitosa. Esta bebida faz a barriga ronronar e transmite uma combinação estranha de tranquilidade e euforia ao mesmo tempo que mantém a mente desperta. No entanto, o consumo prolongado envolve o consumidor de kava num manto de rigidez mental, uma espécie de agradável sono acordado. Mas temos de abordar o estupor produzido pela kava com a mentalidade certa — como quando se pede direções ou se medita numa questão —para sermos guiados de forma significativa pelo seu calor.

OAXACA, SUL DO MÉXICO

Nos anos 50 do século XX, em Oaxaca, uma tradição mazateca com centenas de anos deixou de ser um segredo histórico e caiu nas bocas de dois americanos que revelaram, na sua terra natal, as experiências “profundas” por que passaram num agora famoso ensaio fotográfico da Life. E assim começou um romance generalizado e tempestuoso com cogumelos com psilocibina, os fungos psicadélicos promovidos abertamente por Timothy Leary devido às suas propriedades psicológicas e religiosas no Harvard Psilocybin Project e noutros âmbitos.

Cogumelos

Na sua forma não adulterada, o costume mazateca, que é partilhado por outros povos mesoamericanos pré-colombianos, tem um fim medicinal, curando enfermidades físicas, mentais e éticas. Tal como a ayahuasca e o peiote, os cogumelos são reverenciados pela capacidade de levarem os utilizadores para além das suas realidades normais, de quebrarem convenções e estimularem novas perspetivas, apresentando-lhes novos caminhos de compaixão e empatia para com os próprios e o mundo. Na prática mazateca, o ritual sagrado é comunitário. Os cogumelos são fumados em incenso de resina e depois comidos dois de cada vez para representar a dualidade e o poder dos sexos unificados. Em conjunto, os participantes partilham a escuridão e o silêncio de uma cabana, sendo a voz do xamã designado pelo grupo o canal através do qual os cogumelos transmitem a sua mensagem — e, na verdade, têm muito para dizer.

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