Viagem e Aventuras

Este Museu Celebra o Fracasso

As histórias de sucesso estão por toda a parte, mas, raramente, conhecemos as dificuldades que surgem ao longo do caminho.Friday, May 25, 2018

Por Christine Blau
O Museu do Fracasso ensina a todos aqueles que o visitam que os erros são necessários para a inovação.
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Em 1994, um fabricante americano de motociclos, a Harley-Davidson, tentou capitalizar o seu estatuto de culto ao lançar um novo produto: a água de colónia Legendary. Quem não quereria o aroma do suor, cabedal e exaustão de uma estrada percorrida a grande velocidade? Sem surpresas, esta rebuscada extensão da marca não conseguiu convencer os fãs conservadores, mas a arrojada tentativa da empresa para inovar, ainda que esquecida, tornou-se mais tarde no primeiro objeto, elevado à condição de relíquia, a integrar a coleção singular deste museu.

O Museu do Fracasso traz uma nova perspetiva de vida para mais de uma centena de objetos, que, de alguma forma, falharam no seu propósito. Os visitantes poderão conhecer gadgets tecnológicos, a certa altura abandonados, tais como o Apple Newton ou o Google Glass, e produtos do setor alimentar, como a Coca-Cola BlāK, um refrigerante com sabor a café, e uma lasanha lançada pela marca de dentífricos Colgate, numa incursão frustrada no universo das refeições congeladas.

A inovação é uma atividade de risco, que o fundador do museu, Dr. Samuel West, explora no seu trabalho de investigação enquanto psicólogo das organizações.  Embora o progresso dependa da experimentação por tentativa e erro, geralmente, só ouvimos falar das conquistas.

“Cansei-me desta permanente exaltação do sucesso, a forma como nós, enquanto sociedade, glorificamos o sucesso e estigmatizamos o fracasso”, explica West. “Eu conheço histórias de sucesso em todo o lado, mas, dou-me conta de que, geralmente, não há sequer uma única alusão às falhas, erros, contratempos ou dificuldades que se atravessaram no caminho que conduziu ao sucesso.”

É OBRIGATÓRIO VISITAR ESTES MUSEUS

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West teve um momento de revelação, quando visitou o Museu das Relações Falhadas, em Zagreb, e se deixou impressionar pela forma envolvente como era retratado um conceito tão abstrato como o desgosto amoroso. “Eu quis encontrar uma forma inovadora de comunicar a importância do fracasso”, afirma West. Decidiu, por isso, abrir um espaço que acolhesse o erro, e o museu encontrou a sua casa em Helsingborg, na Suécia.

Os objetos que integram a coleção têm de cumprir com critérios de inovação definidos por West, sendo que não basta que tenham sido considerados um fiasco. “Por exemplo, aqueles telemóveis da linha Note da Samsung resultaram de um mau serviço de controlo de qualidade. O telemóvel em si não alargava os horizontes da inovação ou continha algo inovador, simplesmente tinha um defeito de fabrico.”

Ainda assim, a pesquisa sugere que o sentimento de prazer pela dor alheia é transversal à natureza humana. A língua alemã tem inclusive uma palavra que representa tal sentimento: schadenfreude, que é formada pelo étimo schaden, que significa dano, infortúnio, e a palavra freude, que significa alegria, para expressar alegria pela desgraça alheia. Estudos de psicologia sobre o schadenfreude focam-se, sobretudo, nas crianças, que são ainda relativamente inocentes no mundo exterior. Um estudo de 2014 revelou que as crianças, com idades tão precoces como dois anos, tendiam a sentir felicidade em face da dor de alguém que tomavam como rival. A investigação em adultos revela que fatores como a baixa autoestima e o sentimento de inferioridade acentua os níveis de schadenfreude.

O Museu do Fracasso explora esta ligação inata. Os visitantes também podem fazer uma catarse ao admitir os seus próprios erros, deixando um post-it escrito numa parede ou confessando-os numa cabine concebida para o efeito.

O progresso implica assumir riscos, e o Museu do Fracasso é a prova do sucesso. Em dezembro de 2017, foi aberta em Los Angeles uma extensão deste museu para acolher as mais recentes aquisições, que integram esta coleção em franca expansão. Alguns objetos irão viajar pelo mundo, partindo de Toronto, em julho de 2018.

“Observar os fracassos das grandes marcas é libertador”, afirma West. “Os visitantes sentem que também eles podem falhar, quando tentam aprender algo novo ou testam um novo comportamento, ou quando tentam ir mais além e sair da sua zona de conforto.”

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